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Karla Donida é Funcionária Pública e Psicóloga.
(Imagem: Google)
(17 de outubro de 2026)
O dia mal havia começado e um usuário escreve:
Eu quero falar com um humano.
Ela, solícita no atendimento, responde:
Pode falar, senhor. Eu sou humana.
É bem verdade que já me disseram que iam pensar que eu era IA, porque trabalho rápido demais. Tomei como elogio. Também já disseram que, quando tiro férias, volto formatada.
Igualmente, tomei como elogio.
(Imagem: Google)
Sou da geração X. No mesmo ano em que o homem chegou à lua eu cheguei à Terra. Minha geração sabe exatamente o que signifca “cair a ficha”, tinha discos de todas as novelas, fez curso de datilografia no Senac e meu primeiro carro foi um fusca. A geração que ouvia “não” dos pais e… seguia a vida.
Meu coração bate mais forte por um embrião humano do que por um ovo de tartaruga, e não, não tenho absolutamente nada contra as tartarugas. É só uma questão de coerência. Sou humana, mas dou uma bugada quando vejo vidas serem defendidas de forma seletiva e desarrazoada.
Não acredito em saci-pererê, nem em duende e muito menos em almoço grátis.
Não ando armada. Se minha bolsa for revistada, serão encontrados, no máximo, dois batons. Um claro e um escuro. Sou uma mulher prevenida.
Chorei baldes quando Marley morreu (o golden, não o Bob).
(Imagem: Google)
Sou manipulada por dois cachorros. Especialmente por um, idoso e deficiente, que me dobraria em quatro pedaços e me colocaria no bolso, se ele tivesse um.
Desenvolvi algumas estratégias interessantes de sobrevivência: me fingir de doida ou de morta são algumas delas. Quando consigo, funciona. Recomendo fortemente.
Outra estratégia que funciona é ter amigas para o vinho, para o café, para dançar, para conversar assuntos sérios e futilidades. Não necessariamente as mesmas amigas para todas as situações.
Existem pessoas que eu não consigo nem ouvir a voz. Não consigo colocá-las no mudo, mas tenho vontade.
Às vezes sinto um frio na barriga, outras vezes o sangue ferve. Até hoje tenho escapado de um choque térmico, mas não de viver emoções que refletem imediatamente no meu corpo.
Quando estou alegre fico “serelepe” e constato, sem surpresa, que a Rainha do Rock Brasileiro estava certa.
(Imagem: Google)
(10 de outubro de 2026)
Quando colocaram aquela criaturinha pequena e frágil nos braços da mãe recém-nascida esqueceram de avisar que ela tinha asas.
São apenas brotos, mas vão se desenvolver e é impossível prever de que serão capazes no futuro. Deveria ter prevenido o médico.
Deveria, mas não disse nada. Ou, se disse, a mãe recém-nascida estava num nível tal de embriaguez de alegria e ocitocina que não ouviu. Ah, tanta coisa que aquela mãe recém-nascida teria que aprender, ela nem imaginava...
Em algum momento a criaturinha deve ter dado sinal de que haveria ali um ser capaz de voar alto e, ingênua, a mãe não deu tanta importância. Quiçá, ainda deu um empurrãozinho
Vai, filha! Você consegue. Eu estou aqui do seu lado.
E, um belo dia, a mochila cor-de-rosa para a festa do pijama ou para o fim de semana na casa de uma amiguinha se transformou numa mala cheia de sonhos, projetos e expectativas.
Se a mesma pessoinha, que só abria o sorriso na apresentação da escola quando seus olhinhos aflitos encontravam você, hoje paga suas contas em outra moeda e almoça quando você está virando a tapioca para o café da manhã, agradeça à tecnologia que pode trazê-la para perto em texto, som e imagem todos os dias.
O portão de embarque é testemunha de lágrimas teimosas e o de desembarque da abertura da feliz temporada de “Ninho Ocupado”. Muitas vezes invertemos essa ordem, e lá estamos nós no portão de embarque, mala na mão, rumo ao abraço daquela menina que sabe voar.
Acompanhar essa trajetória é perceber que você fez tão bem o seu papel de maternar que recebeu o prêmio maior a que uma mãe pode almejar: tornou-se desnecessária.
Sua cria sobrevive, e muito bem, sem você, ou talvez, apesar de você. Escreve a sua história com inteligência, erros, acertos, ousadia e coragem.
Missão cumprida com louvor, parabéns!
Abrigo seguro, o ninho foi também trampolim.
(Imagem: Pixabay)
Vazio, mas mesmo assim quentinho, permanece sempre pronto para ser ocupado pelo seu dono. E… pasmem! Essa criaturinha alada e capaz de alçar voos gigantes, de vez em quando faz a rota de volta.
Volta porque quer, porque deixou amores e amizades e também ela sente saudades; porque sabe que ainda há muito tempo e espaço para novos momentos serem vividos e reconstruídos sob o manto de seu acolhimento. É um lugar de amor, aprendizados, memórias, “perdões”, vínculos viscerais e de conflitos, também.
Afinal, o que é mesmo que acontece com a louça do ninho quando a passarinha está em solo?
Quero mesmo é lhe enxergar de binóculo. Em meu rosto, um sorriso. Orgulho e saudade disputando espaço em meu peito. E a cada volta sua lhe aconchegar bem apertadinha embaixo das minhas próprias asas, aquelas mesmas que um dia lhe ensinaram a voar.
(Imagem: Grok)
(07 de outubro de 2026)
A Casa era grande, bonita, cheia de possibilidades. Tinha jardim, quintal, primeiro andar e subsolo. Uma belezura.
Mas estava mal-tratada, mal-cuidada e mal-amada. Mal-amada daquele tipo que não era por falta de amor, sabe? Amor pela casa todos os que moravam lá tinham. Mas alguns, apesar de sentir amor, tinham preguiça de amar.
Sabe quando o amor não evolui de substantivo abstrato para verbo? Sente que ama, mas não tem energia para fazer um afago, para elogiar, para estar presente. Triste do amor que não ama.
Com a casa era assim também.
Ela parecia uma casa abandonada. Telhas quebradas, banheiros entupidos, móveis com as prateleiras caindo, portas emperradas, lugares encardidos.
O lixo jogado para baixo dos tapetes criava corcundas patéticas. No jardim e no quintal as marcas do desleixo se repetiam.
O amor não conjugado viu pequenas rachaduras crescerem até colocar em risco a estrutura da casa. O amor substantivo viu um pequeno vazamento virar infiltração.
O caos e a desordem chegaram a um nível insustentável, perigoso até. Foi necessário fazer uma força-tarefa. Vassouras, rodos, esfregões, baldes e sabão nas mãos dos mais incomodados!
Muitos não tiveram energia para se levantar do sofá e ajudar na faxina. Uns se fingiam de mortos, outros se lembravam que tinham compromisso naquele dia.
Todavia, muitos dos mais velhos , ainda que justamente dispensados daquela tarefa, ficaram empolgados com a possibilidade de morar numa casa limpa e de se verem livres dos ratos e do mofo e ofereceram suas mãos trêmulas para o serviço. Alguns com bengala, outros curvados, mas ali estavam carregando sacos de lixo e dando vassourada nos ratos, que corriam assustados sem entender o que estava acontecendo.
A casa ficou diferente. Arejada, limpa e cheirosa, embora ainda houvesse o que fazer. Um móvel velho, carcomido, cheio de cupim, ocupava o centro da sala e precisava sair dali. Mas era muito pesado e seria preciso mais braços para arrancá-lo daquele ambiente.
(Imagem Grok)
E o inesperado aconteceu: não se sabe se foi constrangimento por ver até os mais velhos colocarem a mão na massa ou se foi o cheiro bom de um ambiente limpo mas, lentamente, alguns dos que diziam não se importar em viver num lugar assim, começaram a se erguer, a sair de sua letargia.
Portas foram se abrindo, sofás deixados para trás, os que estavam em cima do muro, tomando sol, desceram e se juntaram aos tarefeiros. Com aquele reforço, conseguiram arrancar o móvel do lugar.
Ao mexer no móvel podre, roedores e animais peçonhentos, que tinham feito seus ninhos dentro dele ,entraram em polvorosa, mas não havia mais o que fazer. Já estavam na rua e, como o estado do móvel era tão caquético que nem para doação seria possível aproveitar, deixaram ali e o caminhão do lixo se encarregou dele.
Essa é a história de uma casa aos pedaços que começou a ser reconstruída quando seus moradores resolveram que não aceitariam mais dividir seu lar com os ratos, o mofo e a sujeira.
(Imagem: Grok)
(01 de outubro de 2026)
Mulher, salto alto, vestido longo, degraus. Óbvio que cabe uma mão estendida para ela. Mas, tinha um detalhe na cena e, por não estarem os personagens sob a bênção do anonimato, o mundo inteiro notou. Mulher, salto alto, vestido longo, degraus e… marido “distraído”. Marido conversando, rindo, olhando para o outro lado. E eis que surge, espontaneamente, outra mão estendida.
O natural seria que esse cuidado partisse do marido, mas ele não percebeu (?), estava envolvido com outra conversa (?), achava que ela não precisava de ajuda (?) ou sei lá o quê (??) e foi aí que o queridinho das 50+, providencialmente, “quebrou o protocolo”, disparou no queridômetro e provocou uma discussão animada, que eu vou ampliar aqui para alcançar também o empenho de algumas mulheres em desencorajar o cuidado masculino.
No caso real (literalmente real), a mão ofertada foi elegantemente aceita, acompanhada daquele sorriso lindo, nada desencorajador do mimo ofertado.
Também sou do time que aprecia uma gentileza, não compactuo com a tentativa bizarra de asfixiar a delicadeza masculina em nome de uma independência feminina, mais que consolidada, quando ambas podem perfeitamente coexistir.
Puxar uma cadeira ou abrir uma porta para mim não colocam minha auto-estima em xeque. Não mesmo.
Em que momento exageramos na dose e começamos a colocar cortesia e polidez na mesma gaveta das ameaças à autonomia e falta de respeito ao espaço irreversivelmente conquistado? Quando foi exatamente que um homem oferecer seu lugar para uma mulher que está em pé virou uma ofensa ou uma forma de menosprezá-la? Que acrobacias fizemos para que um homem se esquive de oferecer ajuda para carregar uma sacola ou uma situação pesada demais com receio de ser mal entendido?
Mães de meninos, ensinem-nos a repudiar a grosseria e a rudeza. Estimulem seus garotos a oferecerem flores.
Mães de meninas, ensinem suas filhas a receberem as flores. Eduquem-nas para serem independentes, mas deixem bem claro que podemos ser fortes sem perder a doçura.
Sobretudo, deem a ambos a chance de serem testemunhas oculares, dentro de suas casas, de uma dinâmica saudável de cavalheirismo entre seus pais.
(Imagem Grok)
(Imagem Grok)
Homens, permitam-se ser gentis. Mulheres, permitam-se ser acarinhadas. Está tudo bem se um homem segura o guarda-chuva para você e lhe deixa do lado de dentro da calçada. Você não perderá valor por isso.
Maridos, não sejam tão distraídos. Não deem oportunidade para que alguém ofereça a mão que você não ofereceu.
Felizmente, não fomos todas capturadas por essa necessidade de provar autossuficiência rejeitando pequenos e grandes gestos de atenção masculina e felizmente, também, muitos homens ainda se aventuram nesse terreno arriscado da cortesia e do cuidado.
Pela parte que me toca, pode quebrar o protocolo. Eu aceito a sua mão.
(https://www.lpm.com.br/livros/Imagens/pollyanna__9788525439499_g.jpg)
(25 de setembro de 2026)
Li Poliana na escola. Na época, eu não tinha muita simpatia pela protagonista. Achava meio forçado o tal do “jogo do contente”. Faltava alguma coisa, sangue nas veias, talvez. Se Poliana fosse real, não seria da minha panelinha.
Já com Zezé, do Meu Pé de Laranja Lima, eu teria chorado abraçada. Emoção à flor da página. Como ser diferente diante da dor de se despedir de alguém querido?
Sou entusiasta da gratidão sem alienação, do bom humor e da leveza como estilo de vida, desde que sem corromper a realidade.
Cresci e vi ser nominado o que sempre me causou algum desconforto. “Positividade tóxica” e “sociedade paliativa”, onde eu assino?
Cresci e vi as emoções, inclusive as menos nobres, sendo legitimadas numa telona de cinema e vibrei com o “medo” sendo o salvador da pátria. Se não fosse por ele, vejam só, o final não teria sido feliz.
Cresci e hoje tenho mais tolerância com o comportamento de Poliana. Quem sou eu para impugnar a fórmula de sobrevivência que está dando certo para alguém? Mesmo assim, ela permaneceria fora da minha panelinha 50+.
Invalidar a nossa emoção ou a do outro é desumano. Considero uma falta de caridade, conosco ou com o próximo, num momento de luto, dizer “não chore”. Esperar que você esteja amando a pessoa no momento seguinte àquele em que ela apertou o botão que destruiu seu mundo. Ter a expectativa de estar inteira ao acabar de receber uma péssima notícia.
Tenho dificuldades em entender que alguém possa ter a percepção de que uma criança trancada num esconderijo por dois anos, tentando escapar do nazismo, esteja sendo vitimista.
Da mesma forma, me indago como uma criatura pode dizer a outra que a julgava mais forte? Que não compreende o seu desabamento diante de uma voadora inesperada da vida?
Cresci, mas continuo admirando mais quem chora, e depois junta os caquinhos e faz um mosaico inacreditável com eles, que quem engole o choro, varre os caquinhos para debaixo do tapete e segue entorpecido no seu escudo patético de “tanto faz”, embora eu reconheça que ambos estão fazendo o melhor que conseguem para sobreviver.
(Google Imagens)
(Pexels Imagens)
Cresci e, quando a vida me manda voltar duas casas, eu volto, mas não dou uma festa para comemorar. A primeira reação é de tristeza, raiva ou decepção mesmo. Se houver lágrimas, elas serão derramadas e não engolidas. Depois da catarse estarei em condições de pensar na estratégia para recuperar as casas perdidas, a paz, o perdão e a alegria.
Cresci e aperto forte a mão da minha inteligência emocional em construção todas as muitas vezes que estou a ponto de perder meu réu primário.
Deixo que a minha fé me sustente sem vendar meus olhos e busco estar cercada de pelo menos algumas pessoas que saibam que podem usar meu ombro sem cerimônia e que não se neguem a me dar colo naqueles dias em que é só disso mesmo que eu preciso.
(Google Imagens)
(17 de setembro de 2026)
O mundo não acabou.
Não é tão simples como ir para aquele evento com as unhas por fazer. Perder a hora e chegar atrasada na academia. Tomar uma taça a mais e não dispensar a sobremesa. Não bastasse isso, dormir sem fazer a skincare. Efeito cascata. Comprar aquele sapato que não estava precisando porque era lindo e cabia no orçamento e ficar uma tarde inteira largada numa rede lendo um romance bobo.
Espero que já estejamos no patamar de cometer, eventualmente, essas pequenas rupturas, plenas e em paz, com a sensação gostosa de “travessura concluída com sucesso”. Ao final, a constatação óbvia de que o mundo não acabou por isso. Ainda bem. Não era para acabar mesmo.
Contudo, outras circunstâncias, minhas ou nossas, que não ousamos desafiar, enquanto indivíduo e sociedade, urgem por um terremoto que abale de vez suas estruturas já abaladas ou por um furação que carregue para bem longe tudo que já não cabe mais. Um tsunami enlouquecido que arraste o que encontrar pela frente seria providencial.
Padrões que tornaram-se grilhões, que são como algemas para as quais estendemos as mãos docilmente nos deixando aprisionar numa cela, cuja chave encontra-se em nossos bolsos.
Enredados numa máfia, não vislumbramos que a saída está, literalmente, em nossas mãos.
Dizer “não” para aquele convite que não queremos aceitar, para a pessoa que está sendo inconveniente há tempo demais, para a piada sem graça. Para o tom de voz que machuca, para a complacência com o imoral. “Não” para a exploração em nome da família, do amor ou da amizade e para o abuso em nome do poder ou da autoridade.
“Não” para a negligência emocional e para a tirania.
Confrontar absurdos normalizados poderiam acabar um mundo. Um mundo velho, cheio de fissuras por dentro. Um mundo com prazo de validade vencido e que já começa a intoxicar e cheirar mal.
(Google Imagens)
(https://www.eusemfronteiras.com.br/esteja-aberto-aos-novos-ciclos/)
Tal qual a carta da morte no tarô, este fim não seria um acontecimento triste, mas o prenúncio de renascimento, do velho que abre espaço para o novo. O “não” que precede o “sim” , o “basta” necessário para um reinício saudável.
Um mundo podre por dentro, que se mantém apenas à custa de lágrimas, gastrite, abusos, mordaças, renúncias, concessões descabidas e inversão de valores, está colapsando.
O modus operandi peculiar desse orbe já deveria tê-lo levado ao extermínio há muito tempo. No atestado de óbito, como causa da morte, “ vergonha generalizada”.
Mas..Espera um pouco!
Será que finalmente ouço as trombetas do Apocalipse?
Ah..não…era só uma bandinha anunciando que tem circo na cidade!
(imagem: Karla Donida)
(12 de setembro de 2026)
Era uma expedição fotográfica. Oportunidade perfeita de estar com pessoas que têm a mesma loucura que você e, só por isso, já se sentir mais normal. Na minha humilde opinião, os opostos só se atraem mesmo na física. Na vida real, a gente quer mesmo é rir junto e chorar abraçado com quem compartilha de nossas ideias e compactua com nossos delírios.
Um parêntesis: foto, para mim, é praticamente uma declaração de amor. É dizer sem palavras que você e este momento são tão importantes que eu quero tê-los para sempre ao meu alcance. Se você aceita feliz o convite para estar numa foto comigo, é como se estivesse me dizendo: “Esse momento também é importante para mim, vamos eternizá-lo!”
Parêntesis fechado, voltemos ao início. Era uma expedição fotográfica e, no início da viagem, são distribuídos os “desafios fotográficos”. O professor é generoso e, sem fazer alarde, os distribui de acordo com o nível do expedicionário.
Aos novatos, temas mais concretos;
aos veteranos, abstrações.
À novata que vos escreve coube o desafio “placas”.
E eis que o milagre aconteceu: ao saberem que seriam capturadas pela câmera de um celular, as placas começaram a surgir, a brotar. Algumas acenavam para mim, tenho certeza! Da simpática “Seja bem-vindo” à ameaçadora “Fiscalização eletrônica de velocidade”, todas queriam ter seu momento de glória. E não é que até da mais concreta plaquinha o iniciante consegue abstrair beleza ou fealdade? Cérebro a mil para lançar luz em novas formas de ver o banal.
Acredito que tal se deve porque, antes de ser capturado, o objeto foi visto (verbo ver, não seu irmão enxergar, nem seu primo olhar).
Diante desta demonstração inequívoca do que uma mente focada é capaz, estou considerando sair de casa todos os dias com um desafio particular.
Mais ou menos assim: hoje o meu olhar vai buscar cenas de gentileza ou o incorreto que, de tanto acontecer, perdeu a visibilidade.
(https://doutormultas.com.br/placas-de-fiscalizacao-eletronica/)
Google Fotos
Já consigo imaginar o resultado. Foco ativado, mente alerta e desperta, e as situações cotidianas pulando em minha frente: “Ei, aqui tem algo muito errado acontecendo, você não consegue ver?” ou “Sério que você não está percebendo a delicadeza deste momento? Rápido, registra!”
Quando as lentes do cristalino dos nossos olhos estão embaçadas, o comum vira normal sem qualquer cerimônia. A repetição consegue dar passe livre para o território da normalidade, e isto é um perigo e uma ameaça a nós, individualmente e enquanto sociedade.
Como que anestesiados pela recorrência do belo ou do imoral, os passos vacilantes de uma criança aprendendo a andar já não nos encantam; tampouco nos escandaliza o dinheiro que deveria estar na escola, no hospital, nas rodovias ou na conta de nossa avó, mas que engorda contas não autorizadas.
A capacidade de se enternecer ou de se indignar aparentemente fica embotada pela frequência desconcertante com que o sol se põe ou lixos são atirados pelas janelas dos carros. Ambos merecem o registro.
Ter olhos de ver. Eis o desafio.
(imagem: Karla Donida)
Sobre ciclos
(04 de setembro de 2026)
Contemplar a natureza e seus ciclos me proporciona muitas reflexões, desperta sentimentos diversos e contraditórios e renova minha fé. Sim, as flores vão murchar, mas é certo que tudo florescerá de novo. Haverá frio e calor, tudo a seu tempo.
As marés sobem e descem, o sol nasce e se põe, a lua tem suas fases, os pássaros hibernam e migram, e nós dormimos e acordamos todos os dias. Estações, fases, ciclos.
Esta certeza de que tudo se cumprirá seguindo uma lógica, independente de minha vontade, é, paradoxalmente, confortadora e libertadora e, por que não dizer, às vezes assustadora, tamanho o choque de realidade ao me perceber tão desimportante em tantas situações.
Observo a natureza e me esforço para passar, sem perder minha paz, pelo que cada estação oferece: desenvolver a confiança no próximo amanhecer, sem me decepcionar com o entardecer; cultivar a paciência com a fruta que não amadureceu e o respeito pela maré alta; ver beleza na chuva forte sem abrir mão da prudência; ficar triste pela árvore que caiu, mas grata pela sombra providencial dos anos áureos; me resignar placidamente ao fato de que hoje não vai dar praia porque está caindo um temporal.
Transportar essas situações para as ocorrências da vida é um exercício de bem viver, digno não ainda de todos, mas de meus melhores momentos.
E, neste interminável iniciar, concluir e recomeçar da natureza, entender, nas nuances mais óbvias e nas mais profundas, que também eu sou natureza e, portanto, também eu tenho altos e baixos, invernos e verões, fases crescente e minguante e a hora de, talvez, migrar para um lugar mais adequado.
O curioso é que, mesmo sendo eu natureza, também me surpreendo invejando a sabedoria dos animais que, na hora certa e calmamente, vão tomar banho de sol ou alçam voo para o lugar onde sabem que devem estar abandonando aquele que já não serve mais, sem qualquer complicação adicional.
Foto da Autora
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Desapegar dos ciclos que chegaram ao fim e acolher carinhosamente os que chegam e vão ocupando os espaços, abraçando com entusiasmo as novas aventuras que a vida nunca vai deixar de colocar em nossos caminhos é a minha meta da maturidade emocional.
Absolutamente indiferente aos meus anseios, minhas folhas e as de meus queridos também cairão várias vezes, até caírem pela última vez.
Será fantástico se eu conseguir viver o fluxo incessante dos ciclos de minha vida e de meus amores, dos mais simples aos mais complexos e impactantes, com serenidade e brilho nos olhos, resolvendo com relativa clareza a dúvida ancestral entre lutar ou fugir, sem confundir persistência com teimosia , foco no que depende de mim com birra com o que está fora do meu controle.
Ter sempre um guarda-chuva na bolsa e, na hora do frio, apenas vestir um casaco e um sorriso... quem sabe o meu melhor sorriso.
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