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O U T U B R O - 2026
Quebra de Protocolo - Karla Donida
E o mundo continua a girar - Elikah França
A beleza da mulher à luz e ao exemplo de Maria de Nazaré - Vivian Marler
A mala do juiz Aleksander - José Santhiago
Na véspera do voto, a fé também se expressa na vida pública - Vivian Marler
Cinema, vida e anseios - Julian Medeiros
Jogaram os móveis podres no lixo - Karla Donida
Meu gato pintado - José Santhiago
Juventude e o acesso a Educação - Vivian Marler
Ninho Vazio - Karla Donida
Estou sempre certo? Gotardo Luiz Brandalise
A jornada de todos nós - José Santhiago
Melhores Músicas - Bárbara Seabra
(14 de outubro de 2026)
O autor entra no debate institucional sobre a proposta de alteração da jornada e carga horárias no país.
Fica demonstrado que as principais democracias liberais no mundo atual reduziram a jornada e a carga horária do trabalho.
É possível a combinação entre desenvolvimento produtivo, relações de trabalho, legislação e escolhas políticas.
(Gaúcho em Jundiaí – SP;
Especialista em galpões, áreas industriais e incorporação;
Atuação em todo o estado de São Paulo)
Instagram: @gobrandalise
(13 de outubro de 2026)
A vida em si, não é o que as pessoas aparentam ter ou ser. A vida é mais além das aparências do que se vive, ou seja, está além de uma realidade percebida, vivida no âmbito pessoal familiar ou grupal.
Cada um tem seu passado que está ai e se manifesta de alguma forma contemporânea, em algum momento, em alguma situação. Este traz dentro de si, de sua bagagem, uma história que impacta em seu momento de vida, quer seja pelos pensamentos, ações, crenças ou até emoções ainda represadas em seu âmago. Nota: maioria das vezes sem a percepção do remetente.
No entanto, é sabido que podemos repaginar essa história, deixando de lado o mito das comparações frugais e do “Ego” que nos limitam e inferem rasgos obscuros em nossa personalidade e conduta de querer agradar ou se mostrar mais forte e imponente diante do cenário das relações existenciais.
Porém se olharmos o nosso castelo, analisando de um contexto mais analítico e consciente, enxergaremos que poderemos sim remodelar paulatinamente as nossas atitudes, os nossos pensamentos, os nossos julgamentos e os nossos comportamentos conosco e com os demais em nossa circunferência mesológica.
O propósito firme e sublime de promover a verdadeira homeostase nos pilares pessoais da saúde física, mental, emocional e espiritual só depende de eu girar a chave e me permitir a adentrar em um novo espaço do templo. A chave nos é dada para abrir as comportas e os portões do novo, mas é preciso ter a coragem de enfrentar o que vem pela frente e manter a disciplina e diligência para perpetuar o novo projeto.
O retrovisor nos mostra um castelo que ruiu, com suas lacunas e imperfeições, as crenças arraigadas que nos davam uma aparente sustentabilidade e estabilidade, mas uma visão para aquele momento. Os conceitos arraigados e profundos que fizeram ruir esse castelo de ilusões e que me prenderam até então, já deixam de fazer sentido. Fizeram parte de uma escola que existiu e me ensinou tipo, ensino médio, um aprendizado remoto que deixará de se repetir para eu principiar novos ensinamentos universitários e uma liberdade renovada, criativa e inovadora.
Importante saber então se algum pilar desse prédio ainda permanece na estrutura sólida dessa nova construção, dede que conscientes, morais e éticos para nos dar uma ampla sustentação nos novos tempos e para a superação dos novos paradigmas e vicissitudes da modernidade planetária.
Se estiver ainda alicerçado em algum pilar desconectado dessa nova consciência, lúcida e verdadeira, preciso reavaliar e desconstruir para repaginar desde as bases mais profundas para ter o devido efeito. Não é preciso esperar que um abalo sísmico imponha as mudanças de fora radical promovendo fissuras dolorosas nessa reformulação. Sem que duras penas nos promovam as mudanças quando menos esperamos e então porque esperar? Por que motivo ficamos inertes às mudanças nos estabilizando no conforto e seguranças dúbias nos limitando expandir nossas capacidades físicas e cognitivas para um novo patamar evolutivo?
Lembrando que tenho ao meu dispor um cérebro e um paracérebro sempre disponíveis para o despertamento dessa nova consciência, de novas possibilidades e de novas conexões neurais, desde que o gestor desse órgão tenha a firme disposição e “vontade” para promover a reciclagem tão desejada.
Amanhã, poderei estar sem tempo para rever meus sonhos, para observar e analisar meus próprios pensamentos, emoções e atitudes e ser um verdadeiro testemunho e fiel de minha própria existência mais próspera e abundante até pelos desígnios divinos propostos para os planos vivenciais. Podemos sim caminhar todos os dias para uma nova reconstrução agora com uma nova consciência libertadora, vivendo e direcionando a nossa vida sob outro olhar, novas perspectivas e possibilidades dinâmicas, inteligentes e criativas pessoais e grupais.
¿Estoy siempre en lo cierto?
(Leia o texto acima em Língua Espanhola)
La vida en sí no es lo que las personas aparentan tener o ser. La vida va más allá de las apariencias de lo que se vive; es decir, está más allá de una realidad percibida, vivida en el ámbito personal, familiar o grupal.
Cada uno tiene su pasado, que está ahí y se manifiesta de alguna forma contemporánea, en algún momento, en alguna situación. Este trae dentro de sí, de su equipaje, una historia que impacta en su momento de vida, ya sea por los pensamientos, acciones, creencias o incluso emociones aún reprimidas en su interior. Nota: la mayoría de las veces, sin la percepción del remitente.
Sin embargo, es sabido que podemos rediseñar esa historia, dejando de lado el mito de las comparaciones frugales y del “ego” que nos limitan e infieren rasgos oscuros en nuestra personalidad y en la conducta de querer agradar o mostrarse más fuerte e imponente ante el escenario de las relaciones existenciales.
Pero si miramos nuestro castillo, analizándolo desde un contexto más analítico y consciente, veremos que sí podemos remodelar paulatinamente nuestras actitudes, nuestros pensamientos, nuestros juicios y nuestros comportamientos con nosotros mismos y con los demás en nuestra circunferencia mesológica.
El propósito firme y sublime de promover la verdadera homeostasis en los pilares personales de la salud física, mental, emocional y espiritual solo depende de que yo gire la llave y me permita entrar en un nuevo espacio del templo. La llave se nos da para abrir las compuertas y los portones de lo nuevo, pero es necesario tener el valor de enfrentar lo que viene por delante y mantener la disciplina y la diligencia para perpetuar el nuevo proyecto.
El retrovisor nos muestra un castillo que se derrumbó, con sus lagunas e imperfecciones, las creencias arraigadas que nos daban una aparente sustentabilidad y estabilidad, pero una visión para aquel momento. Los conceptos más profundos que hicieron derrumbar ese castillo de ilusiones y que me aprisionaron hasta entonces, ya dejan de tener sentido.
Estos formaron parte de una escuela que existió y me enseñó, tipo educación secundaria, un aprendizaje remoto que dejará de repetirse para que yo comience nuevas enseñanzas universitarias y una libertad renovada, creativa e innovadora.
Es importante saber entonces si algún pilar de ese edificio aún permanece en la estructura sólida de esta nueva construcción, siempre que sean conscientes, morales y éticos para darnos un amplio sustento en los nuevos tiempos y para la superación de los nuevos paradigmas y vicisitudes de la modernidad planetaria.
Si todavía está cimentado en algún pilar desconectado de esta nueva conciencia, lúcida y verdadera, necesito reevaluar y deconstruir para rediseñar desde las bases más profundas para tener el efecto debido. No es necesario esperar a que un sismo imponga los cambios de forma radical, promoviendo fisuras dolorosas en esta reformulación. Sin que duras penas nos provoquen los cambios cuando menos lo esperamos, ¿entonces por qué esperar? ¿Por qué motivo nos quedamos inertes ante los cambios, estabilizándonos en el confort y en seguridades dudosas, limitándonos a expandir nuestras capacidades físicas y cognitivas hacia un nuevo nivel evolutivo?
Recordando que tengo a mi disposición un cerebro y un paracerebro siempre disponibles para el despertar de uma nueva consciência, de nuevas posibilidades, nuevas conexiones neurales, siempre que el gestor de este órgano tenga la firme disposición y "voluntad" para promover el reciclaje tan deseado.
Mañana podría estar sin tiempo para revisar mis sueños, para observar y analizar mis propios pensamientos, emociones y actitudes, y ser un verdadero y fiel testimonio de mi propia existencia más próspera y abundante, incluso por los designios divinos propuestos para los planos vivenciales.
Sí podemos caminar em todos los dias haciendo una nueva reconstrucción, ahora con una nueva conciencia liberadora, viviendo y dirigiendo nuestra vida bajo otra mirada, nuevas perspectivas y posibilidades dinámicas, inteligentes y creativas, tanto personales como grupales.
(05 de outubro de 2026)
Minha experiência diante da telona no cinema é das mais variadas possíveis. Já vi dezenas ou centenas de filmes, desde as loucuras de Alex e Marti em Madagascar, Sid e seu senso de humor em a Era do gelo até a primeira vez em que eu fui, sem meus pais, à estreia de World of Warcraft.
Cinema é aconchego e um dos poucos lugares em que pessoas tão diferentes entre si, principalmente em questão de cosmovisão, se unem, riem juntas e se divertem em prol de algo que pode ir além das ideologias.
A arte e o belo, embora cada um saia com uma visão diferente do filme que assiste, são percepções moduladas pela cosmovisão vigente, tanto da sociedade quanto do espectador.
O cinema é ainda um lugar encantador.
Lembro-me de uma cena do filme Mufasa em que eu ri tão alto que as pessoas começaram a rir da minha risada. Isso não significou que tínhamos coisas em comum ou que seríamos potenciais amigos, mas reafirmou uma coisa que também é preciosa: o riso e a alegria podem ser linguagens universais em determinado momento.
E a telona faz parte de um desses contextos.
O cinema tradicionalmente é associado às "coisas" que importam, tais como família, romance , amizade e sociedade. Confesso que nem todas essas experiências fazem parte da minha vida atual, porém como a maioria dos filmes tem início, meio e fim, acredito que devo olhar para minha própria trajetória à luz do que vivi e vi nos cinemas de maneira mais otimista.
A exceção fica por conta de ser o filme um "terror". Terror, palavra tão forte e temida, mas que, talvez, muitos de nós não conheçamos o terror real em vida.
Sim, temos momentos difíceis e de repente somos tomados de grande alegria, uma promoção, uma vocação, um filho que nasceu, um romance que se encaixou na nossa história.
E essa é uma experiência humana incrível, muitas vezes replicada nas telonas. Mesmo com elementos fantasiosos, o projetor ilumina na telona a humanidade em toda sua complexidade, incluindo o seu temor e tudo aquilo que faz arder o coração.
Isso é ser humano, na sua complexidade e amplitude. Infelizmente, tal humanidade foi deixada de lado uma vez que os grandes estúdios têm se alinhado a pautas políticas e ideológicas, que sutilmente replicam ideologias dominantes, mesmo que investidas de criatividade e fantasia.
Qualquer linguagem é ideológica. Sabemos disso. Contudo, mesmo que válida e correspondente à mídia ou meio de comunicação, quando utilizada exacerbadamente ou sem critérios, ofusca a linguagem universal da caridade, do belo, do sublime, do "fazer o bem sem olhar a quem".
Se é verdade que certas linhas ideológicas têm inimigos declarados e se utilizam do projetor para desumanizar quem pensa diferente, é fundamental que voltemos à criatividade pura, ao belo, ao experimentar intenso da arte, sem a necessidade de estar estereotipando grupos ou pessoas, rivais ou aliados.
E, por fim, levando em conta que minha experiência subjetiva nos cinemas tem sido majoritariamente boa, espero que o nosso cinema cresça, que volte a fascinar as pessoas, que retorne ao centro da sétima arte.
Da mesmo forma, insisto na esperança de que nasça em nossos corações um novo amanhecer em que alguém afirme: ainda bem que a história continuou.
(Imagem: Pixabay)
(02 de outubro de 2026)
De repente, fez-se silêncio. O corpo agora inerte permanecia na sala fria. Fora um pai dedicado e estava aprendendo a ser avô. Mas, sua vida se transformou em lembranças, em histórias contadas ao redor da mesa. Para uns, lembranças de ontem. Para outros, histórias que contaram.
E o corpo esfria no momento da despedida enquanto lá fora o vento sopra e o sol aquece.
A vida segue em frente.
Carros buzinam pedindo passagem. Um menino grita chamando pela mãe. O movimento é geral. Pessoas vão e vêm.
O mundo não espera, pois a vida continua.
Como assim? Como fica a ausência de quem partiu?
O lugar resta vazio. Uma voz não se ouve mais. A porta que já não se abre.
O silêncio, como saudade e ausência, preenche os espaços. Cada um sente o seu silêncio e a sua saudade. Aprende-se a seguir a ausência.
É o jeito.
A vida não nos dá trégua,
ela não pára para olhar para nossa dor.
Acelerei o carro e segui meu caminho. Cuida!
(Imagem: Pixabay)
(Imagem: Pixabay)
O destino é seguir a vida, preenchendo seus vazios. Para encontrar sentidos, busque novos caminhos e propósitos.
Siga em frente!
O mundo não vai parar para sentir sua dor. Você terá que aprender a suportá-la. Não tem jeito! A vida segue em frente.
O corpo esfria.
O quarto fica vazio.
O mundo continua a girar.
A luz se apaga.
(Imagem: Grok)
(01 de outubro de 2026)
Mulher, salto alto, vestido longo, degraus. Óbvio que cabe uma mão estendida para ela. Mas, tinha um detalhe na cena e, por não estarem os personagens sob a bênção do anonimato, o mundo inteiro notou. Mulher, salto alto, vestido longo, degraus e… marido “distraído”. Marido conversando, rindo, olhando para o outro lado. E eis que surge, espontaneamente, outra mão estendida.
O natural seria que esse cuidado partisse do marido, mas ele não percebeu (?), estava envolvido com outra conversa (?), achava que ela não precisava de ajuda (?) ou sei lá o quê (??) e foi aí que o queridinho das 50+, providencialmente, “quebrou o protocolo”, disparou no queridômetro e provocou uma discussão animada, que eu vou ampliar aqui para alcançar também o empenho de algumas mulheres em desencorajar o cuidado masculino.
No caso real (literalmente real), a mão ofertada foi elegantemente aceita, acompanhada daquele sorriso lindo, nada desencorajador do mimo ofertado.
Também sou do time que aprecia uma gentileza, não compactuo com a tentativa bizarra de asfixiar a delicadeza masculina em nome de uma independência feminina, mais que consolidada, quando ambas podem perfeitamente coexistir.
Puxar uma cadeira ou abrir uma porta para mim não colocam minha auto-estima em xeque. Não mesmo.
Em que momento exageramos na dose e começamos a colocar cortesia e polidez na mesma gaveta das ameaças à autonomia e falta de respeito ao espaço irreversivelmente conquistado? Quando foi exatamente que um homem oferecer seu lugar para uma mulher que está em pé virou uma ofensa ou uma forma de menosprezá-la? Que acrobacias fizemos para que um homem se esquive de oferecer ajuda para carregar uma sacola ou uma situação pesada demais com receio de ser mal entendido?
Mães de meninos, ensinem-nos a repudiar a grosseria e a rudeza. Estimulem seus garotos a oferecerem flores.
Mães de meninas, ensinem suas filhas a receberem as flores. Eduquem-nas para serem independentes, mas deixem bem claro que podemos ser fortes sem perder a doçura.
Sobretudo, deem a ambos a chance de serem testemunhas oculares, dentro de suas casas, de uma dinâmica saudável de cavalheirismo entre seus pais.
(Imagem Grok)
(Imagem Grok)
Homens, permitam-se ser gentis. Mulheres, permitam-se ser acarinhadas. Está tudo bem se um homem segura o guarda-chuva para você e lhe deixa do lado de dentro da calçada. Você não perderá valor por isso.
Maridos, não sejam tão distraídos. Não deem oportunidade para que alguém ofereça a mão que você não ofereceu.
Felizmente, não fomos todas capturadas por essa necessidade de provar autossuficiência rejeitando pequenos e grandes gestos de atenção masculina e felizmente, também, muitos homens ainda se aventuram nesse terreno arriscado da cortesia e do cuidado.
Pela parte que me toca, pode quebrar o protocolo. Eu aceito a sua mão.
(https://www.lpm.com.br/livros/Imagens/pollyanna__9788525439499_g.jpg)
(25 de setembro de 2026)
Li Poliana na escola. Na época, eu não tinha muita simpatia pela protagonista. Achava meio forçado o tal do “jogo do contente”. Faltava alguma coisa, sangue nas veias, talvez. Se Poliana fosse real, não seria da minha panelinha.
Já com Zezé, do Meu Pé de Laranja Lima, eu teria chorado abraçada. Emoção à flor da página. Como ser diferente diante da dor de se despedir de alguém querido?
Sou entusiasta da gratidão sem alienação, do bom humor e da leveza como estilo de vida, desde que sem corromper a realidade.
Cresci e vi ser nominado o que sempre me causou algum desconforto. “Positividade tóxica” e “sociedade paliativa”, onde eu assino?
Cresci e vi as emoções, inclusive as menos nobres, sendo legitimadas numa telona de cinema e vibrei com o “medo” sendo o salvador da pátria. Se não fosse por ele, vejam só, o final não teria sido feliz.
Cresci e hoje tenho mais tolerância com o comportamento de Poliana. Quem sou eu para impugnar a fórmula de sobrevivência que está dando certo para alguém? Mesmo assim, ela permaneceria fora da minha panelinha 50+.
Invalidar a nossa emoção ou a do outro é desumano. Considero uma falta de caridade, conosco ou com o próximo, num momento de luto, dizer “não chore”. Esperar que você esteja amando a pessoa no momento seguinte àquele em que ela apertou o botão que destruiu seu mundo. Ter a expectativa de estar inteira ao acabar de receber uma péssima notícia.
Tenho dificuldades em entender que alguém possa ter a percepção de que uma criança trancada num esconderijo por dois anos, tentando escapar do nazismo, esteja sendo vitimista.
Da mesma forma, me indago como uma criatura pode dizer a outra que a julgava mais forte? Que não compreende o seu desabamento diante de uma voadora inesperada da vida?
Cresci, mas continuo admirando mais quem chora, e depois junta os caquinhos e faz um mosaico inacreditável com eles, que quem engole o choro, varre os caquinhos para debaixo do tapete e segue entorpecido no seu escudo patético de “tanto faz”, embora eu reconheça que ambos estão fazendo o melhor que conseguem para sobreviver.
(Google Imagens)
(Pexels Imagens)
Cresci e, quando a vida me manda voltar duas casas, eu volto, mas não dou uma festa para comemorar. A primeira reação é de tristeza, raiva ou decepção mesmo. Se houver lágrimas, elas serão derramadas e não engolidas. Depois da catarse estarei em condições de pensar na estratégia para recuperar as casas perdidas, a paz, o perdão e a alegria.
Cresci e aperto forte a mão da minha inteligência emocional em construção todas as muitas vezes que estou a ponto de perder meu réu primário.
Deixo que a minha fé me sustente sem vendar meus olhos e busco estar cercada de pelo menos algumas pessoas que saibam que podem usar meu ombro sem cerimônia e que não se neguem a me dar colo naqueles dias em que é só disso mesmo que eu preciso.
(Imagem Grok)
Aristides, o lobo de pijama (*)
Praça da República - Campo de Santana (Rio de Janeiro, 1889) por nosso correspondente especial escrevendo diretamente do passado.
Novembro é o período forte da primavera, marcado pelo desabrochar de flores como o ipê-amarelo tardio, paineiras, sapucaias, jacarandás-da-Bahia. Naquele dia o campo estava decorado com uma efusão de cores que iam de copas amarelas, passando por tons de rosa-branco, até as maravilhosas folhas cor-de-rosa-lilás. Em alguns locais específicos apareciam flores esbranquiçadas ou arroxeadas. Tudo combinava com a atmosfera de expectativas não realizadas.
A madrugada tinha sido intensa para Aristides. Não abria mão da revanche no xadrez. Seus opositores sabiam de sua teimosia. Sempre queria ser o vencedor do xeque-mate, daí seu apelido de lobo. Na noite anterior esforçara-se para manter o brio do jogo, mas ao perder a última rodada quase derrubou o tabuleiro com uma raiva que caracteriza todo bom advogado que perde uma causa "já ganha".
Quando ele chegou à praça, ainda de pijama, constatou que a turba era, na verdade, um punhado de curiosos que olhavam para um mesmo epicentro da cena. Ao seu lado, um homem negro descamisado acabara de tropeçar em um toco de árvore e de se esparramar junto ao balde de merda. Ninguém se atreveu a ajudar o negro cambaleante.
Aristides percebeu que o "povo da praça" estava assistindo ao show bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que aquilo significava.
Túnica militar escura, em azul muito escuro (um quase preto), fechada na frente e de gola alta. A calça militar era clara para compensar o peso da túnica. Enfeites elitistas de dragonas douradas nos ombros, como de um vestido de gala. Bordados e galões dourados, sobretudo na gola, punhos e outras partes da túnica, indicavam sua hierarquia. No peito, havia condecorações imitando medalhas que indicam a origem imperial do sujeito. Também dourado era o sabre com pontinhas de ferrugem por falta de uso. As botas do marechal eram pretas, daquelas que indicam que o transporte é feito por cavalo, mesmo que pela aparência do animal o controle equino estivesse longe de ser permanente.
Deodoro, de voz madura, um quase grave, com sotaque de comando militar, disse encabulado “Viva o Imperador!” Depois, outros gritaram o que queriam, empolados em ideias ainda não muito bem discernidas ou, pior, teorias mal-empregadas.
Aristides já havia falado com alguns de seus colegas de tribuna que não confiava em palestrantes de retórica rebuscada e pouco conteúdo de ideias.
Se você não consegue expor ao povo, de modo simples, uma ideia complexa sobre o que é uma República, você não está falando para quem mais precisa da nova ordem.
O lobo de pijama vaticinava, talvez, o futuro.
(Google Imagens)
(Imagem: Exército Brasileiro)
Algum vento com pólen já era o suficiente para provocar em Aristides irritantes tosses e espirros, o que o obrigou a buscar abrigo em um bar próximo ao espetáculo. Lá, pediu café quente com uma torrada amanteigada. O balconista pensou em oferecer um cigarro ou cachimbo, mas ficou na dúvida se o homem era praticante do tabaco e se era o momento adequado para entabular tal tratativa.
Aristides era homem de 51 anos bem vividos. Barba cheia e bigode volumoso, cabelos curtos penteados para trás, com duas entradas pronunciadas na cabeça. Ainda que de pijamas, não esquecera seus pequenos óculos redondos pince-nez presos a um cordão.
Escutou de alguns homens presentes ressalvas. No outro lado do salão alguém pronunciou um Viva! Ele agradeceu pelo café e, despedindo-se, disse, para um grupo de jornalistas sentados numa mesinha redonda na calçada do bar, que não sabia ao certo em quê tal espetáculo aquilo iria acabar.
Homem, alguém gritou, é a Proclamação da República. A monarquia acabou.
O lobo de pijama franziu o cenho na testa ampliada e retrucou:
Talvez estejamos criando outra monarquia muito mais dispendiosa e ineficiente!
Era de manhã. Haveria ainda muitos dias pela frente sem a participação popular.
(*) Nota do Autor:
Este texto é de ficção baseada em fatos reais.
(Google Imagens)
(18 de setembro de 2026)
SETEMBRO!
Setembro me lembra de nossas vidas em Bauru, São Paulo! Quando chegava setembro, papai me ligava e dizia:
___Chegou o “embro”! Daqui a pouco vem dezembro e vocês virão de férias!
E, assim, tínhamos nossa própria contagem dos meses. Entre estudos e correria, tudo se tornava mais leve, pois a proximidade das férias com a expectativa do convívio familiar dava-nos novos ânimos.
Os anos passaram e um novo Setembro chegou.
Chegou com novos desafios, mas também com uma carga imensa de gratidão.
Engraçado olhar para trás e perceber que praticamente ontem estávamos celebrando o Réveillon. Como os dias passaram acelerados, as semanas voaram, os meses se atropelaram e parece que sempre estamos esperando algo chegar para começarmos a viver.
Segunda-feira que vem eu começo a dieta!
Mês que vem começo na academia!
Ano que vem planejo uma viagem!
E quando começamos a viver?
(Google Imagens)
(Google Imagens)
Setembro já está rolando faz tempo… Logo, logo, veremos decorações de Halloween nas lojas. Ainda, em breve, estaremos escolhendo os presentes de Natal!
E quando começamos a viver?
Bárbara Seabra
Escritora e autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento”
(Google Imagens)
(17 de setembro de 2026)
O mundo não acabou.
Não é tão simples como ir para aquele evento com as unhas por fazer. Perder a hora e chegar atrasada na academia. Tomar uma taça a mais e não dispensar a sobremesa. Não bastasse isso, dormir sem fazer a skincare. Efeito cascata. Comprar aquele sapato que não estava precisando porque era lindo e cabia no orçamento e ficar uma tarde inteira largada numa rede lendo um romance bobo.
Espero que já estejamos no patamar de cometer, eventualmente, essas pequenas rupturas, plenas e em paz, com a sensação gostosa de “travessura concluída com sucesso”. Ao final, a constatação óbvia de que o mundo não acabou por isso. Ainda bem. Não era para acabar mesmo.
Contudo, outras circunstâncias, minhas ou nossas, que não ousamos desafiar, enquanto indivíduo e sociedade, urgem por um terremoto que abale de vez suas estruturas já abaladas ou por um furação que carregue para bem longe tudo que já não cabe mais. Um tsunami enlouquecido que arraste o que encontrar pela frente seria providencial.
Padrões que tornaram-se grilhões, que são como algemas para as quais estendemos as mãos docilmente nos deixando aprisionar numa cela, cuja chave encontra-se em nossos bolsos.
Enredados numa máfia, não vislumbramos que a saída está, literalmente, em nossas mãos.
Dizer “não” para aquele convite que não queremos aceitar, para a pessoa que está sendo inconveniente há tempo demais, para a piada sem graça. Para o tom de voz que machuca, para a complacência com o imoral. “Não” para a exploração em nome da família, do amor ou da amizade e para o abuso em nome do poder ou da autoridade.
“Não” para a negligência emocional e para a tirania.
Confrontar absurdos normalizados poderiam acabar um mundo. Um mundo velho, cheio de fissuras por dentro. Um mundo com prazo de validade vencido e que já começa a intoxicar e cheirar mal.
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(https://www.eusemfronteiras.com.br/esteja-aberto-aos-novos-ciclos/)
Tal qual a carta da morte no tarô, este fim não seria um acontecimento triste, mas o prenúncio de renascimento, do velho que abre espaço para o novo. O “não” que precede o “sim” , o “basta” necessário para um reinício saudável.
Um mundo podre por dentro, que se mantém apenas à custa de lágrimas, gastrite, abusos, mordaças, renúncias, concessões descabidas e inversão de valores, está colapsando.
O modus operandi peculiar desse orbe já deveria tê-lo levado ao extermínio há muito tempo. No atestado de óbito, como causa da morte, “ vergonha generalizada”.
Mas..Espera um pouco!
Será que finalmente ouço as trombetas do Apocalipse?
Ah..não…era só uma bandinha anunciando que tem circo na cidade!
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Simeão tinha o hábito de escrever à caneta preta os dias numerais do mês nas embalagens dos comprimidos obrigatórios.
Com mãos seguras de quem trabalhou durante décadas, primeiro datilografando e depois digitando em teclas alfabéticas de todas as marcas, sempre priorizando o arranjo QWERTY, Simeão acostumou-se a ler e digitar textos de outras pessoas. Essa era sua profissão: registrar no papel, através da máquina, o pensamento de outrem. A escrita, mais que uma ferramenta de comunicação, era um ritual de encantamento das memórias.
Em algumas ocasiões, se necessitasse de dinheiro extra, fazia as vezes de registrador de atas, trabalhando diretamente do ouvido. Pessoas falavam em reuniões ao som dos dedos de Simeão machucando as teclas. Tudo em tempo real, analógico e instantâneo.
Simeão agora estava aposentado, mas seus dedos continuavam à procura de novas teclas de letras.
Por tantos anos nesse afazer, Simeão tornou-se um ótimo ouvinte. Talvez pela idade, talvez pelo uso demasiado prolongado, suas orelhas eram enormes. Tudo captavam.
Ao retirar um comprimido do blister, guardava a parte rasgada contendo o número do dia e a colava em uma folha. Assim, não corria o risco de ingerir dois dos mesmos remédios em um único dia. Seguia essa rotina, que nomeara como "metodologia da pílula". Sabia exatamente quais os dias que faltavam para que necessitasse comprar novas caixas.
Simeão, então, gostava de seguir hábitos e tinha o dom de escutar estranhos.
Aqui começa sua aventura.
Logo que seu corpo esfriou, seguiu para o salão do julgamento. Em cada canto, uma fila. A do inferno estava enorme. Preferiu a do céu.
Antes de qualquer conversa, identificou todas as sinalizações, horizontais e verticais. Observou os trajes e trejeitos das almas que estavam à espera do chamado para o julgamento.
A fila andou ligeiro. Seu nome foi chamado e o anjo atendente fez sinal para que se aproximasse do púlpito branco a fim de declarar seus pecados.
Simeão não disse nada. Não se via como pecador. Calado, não era de falar de outras pessoas. Passara a vida escutando e digitando. Trabalhara sempre pelo salário ofertado, nunca questionando. Solteiro e celibatário, não gerou corvos nem querubins. Aceitou a vida como a recebeu. Acomodou-se a comer o necessário, a vestir o essencial e a falar pouco, eximindo-se de ter opiniões.
Simeão não sabia se passara pela vida ou se a vida passara por ele. Ele era uma pessoa mediana.
(www.pexels.com/pt-br)
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O anjo redirecionou sua ficha para outra fila. Explicou com desdém uma resposta rápida: seu lugar não é aqui.
Simeão ouviu, olhou para os lados, balançou os ombros com um pequeno sorriso sem graça no canto da boca. Encarou o anjo. Abaixou a cabeça e saiu da frente do púlpito celeste. Caminhou pelo salão e se dirigiu à fila infernal.
Enquanto caminhava pela extensão, praguejou contra a situação. Afinal, não se importava muito com seu destino. Onde quer que estivesse na eternidade, ainda seria um ótimo ouvinte e saberia registrar tudo o que ouvisse. Sua maior preocupação era saber com que tipo de máquinas poderia contar lá naquela eternidade.
O Diabo estava cansado da companhia dos datilógrafos do século XX. Eles tinham a mania de registrar tudo, e o que o tinhoso mais detestava era ver gente-alma anotando promessas e juras.
Quando soube que Simeão estava na fila para entrar no inferno, após ter sido preterido pelo anjo atendente do outro lado eterno do salão, o Diabo não teve dúvida: se não o querem lá, por que o terei aqui?
Simeão sentiu no peito o choque elétrico do desfibrilador do serviço de atendimento de urgência. Estava deitado na calçada da rua de casa. O calor no corpo ressurgiu. Sentiu o gosto de saliva voltando. Os olhos se abriram. Sua mão sentiu no bolso a cartela de comprimidos que, feita em plástico com pequenas bolhas transparentes, guardava as cápsulas do medicamento daquele dia, ainda não tomado. Uma lágrima salgada rolou por seu rosto e manchou a gola da camisa amarelada de tanto uso.
Uma voz do além pode ser ouvida:
Simeão está de volta para ouvir o mundo.
(foto da Autora)
(15 de setembro de 2026)
Sempre me questionei sobre as possíveis maneiras de encontrar o equilíbrio na vida. Em meio a uma rotina dinâmica, acelerada, repleta de afazeres e obrigações, sempre me pareceu haver excesso de tudo.
Então, tentei entender: é possível encontrar equilíbrio fazendo muito?
Na intenção de descobrir a resposta para essa pergunta, decidi mergulhar nos meus passatempos: leitura, estudos e esportes. Pratiquei várias modalidades ao mesmo tempo, algo que sempre me fez muito bem, tanto física quanto mentalmente. Será que praticar mais de um esporte na rotina me ajudaria a obter mais equilíbrio em outras áreas da vida?
Foi então que decidi treinar visando participar de um triatlo. Correr uma meia maratona é cansativo, mas reunir três esportes na mesma competição é um desafio que não fica atrás. Defini uma data, topei a empreitada e abracei uma nova dinâmica: três treinos por dia, diariamente.
Aparentemente, não há. Ao longo do caminho, porém, passei a perceber que conseguimos descansar em outros momentos e de outras maneiras. O que na primeira semana parecia um desgaste exagerado, na segunda já soava natural. É incrível a nossa capacidade de adaptação.
Minha rotina e minha maneira de enxergar a vida mudaram. Treinar deixou de ser uma obrigação e virou algo tão cotidiano quanto escovar os dentes. Momentos triviais, como tomar banho por exemplo, tornaram-se férteis para grandes ideias surgirem. Comecei a notar que eu tinha de duas a três horas diárias para colocar a ansiedade para fora do corpo e, ao mesmo tempo, alinhar os pensamentos, um a um. Fui me percebendo mais calma, criativa, organizada e disciplinada — atributos que todos desejamos ter, embora raramente imaginemos encontrá-los em uma rotina de treinos tão desgastante.
(foto da Autora)
Tantos treinos, convenhamos, não representam um ritmo comum, mas hoje compreendo por que tantas pessoas optam por viver dessa forma.
Logo após concluir minha primeira meia maratona no Rio de Janeiro, iniciei o ciclo preparatório para o triatlo. Este foi, sem dúvida, um enorme desafio. Recentemente, apesar do receio de encarar o desconhecido, encontrei beleza no ato de aprender e arriscar: estreei no triatlo na distância sprint (800 metros de natação, 23 quilômetros de ciclismo e 5 quilômetros de corrida). Consegui.
Minha maior conquista não foi a medalha de participação. O aprendizado ao longo do treinamento, o autoconhecimento e as amizades construídas são os ganhos reais que levo para a vida.
Durante meses desgastantes e exaustivos, encontrei equilíbrio em práticas que me exigiram o limite. Fica o recado para os iniciantes: há equilíbrio na busca dos extremos.
São esses limites que me movem rumo a novos desafios. Os resultados recentes me animam a seguir pelo caminho do equilíbrio e da realização.
(Gaúcho em Jundiaí – SP;
Especialista em galpões, áreas industriais e incorporação;
Atuação em todo o estado de São Paulo)
Instagram: @gobrandalise
(https://globorural.globo.com/vida-na-fazenda/noticia/2018/10/dia-das-criancas-atividades-para-aproximar-os-pequenos-da-natureza.html)
(14 de setembro de 2026)
Vivemos em uma época em que tudo corre depressa demais. Os dias passam com uma velocidade impressionante, as informações chegam sem pausa e as expectativas se multiplicam a cada instante. Cresce uma ansiedade imperceptível que internamente nos corrói e uma constante pressão para corresponder, produzir, agradar e, muitas vezes, buscar a aprovação de outras pessoas sem antes mesmo de ouvir a nossa própria voz ou intuição.
Nesse ritmo acelerado, acabamos deixando de lado algo essencial: a reflexão, sobre quem somos, o que realmente importa, os nossos sonhos, os nossos propósitos e o papel que desempenhamos na construção de nossa própria história.
Quando olho para trás, lembro-me de uma infância simples, vivida no sítio, onde as responsabilidades chegavam cedo. Meu pai saía para trabalhar ainda pela manhã e ao retornar sempre me perguntava o que eu havia feito, como tinham sido os meus estudos e de que forma eu havia aproveitado a jornada.
Durante o dia aquelas perguntas ecoavam em minha mente. Eu sabia que precisava ter algo para lhe apresentar. Não apenas uma tarefa concluída, mas uma demonstração de empenho, de dedicação, de crescimento. Eu buscava dentro de mim a motivação necessária para que ele se orgulhasse de mim, para que não me visse como alguém acomodado diante da vida ou que tivesse passado o dia de forma vagal.
Sem perceber, eu aprendia uma das maiores lições da existência: o valor da responsabilidade e da construção diária de algo útil para a vida.
Mesmo assim, naquela época, existiu uma pressão ou pequena angústia quando me perguntavam: O que você vai ser quando crescer?
No começo nem tinha ideia do que iria construir para a minha vida, sendo que algumas pessoas de meu vínculo familiar (especial tios e avós) resolviam me ajudar, com suas ideias é claro, mas nada do que me sugeriram era de meu agrado íntimo.
Os anos se passaram e aquele menino cresceu e de repente surgiu na mente algo para estudar e quem sabe aí fazer sua carreira profissional. Porém, ao descobrir que os recursos que deveriam ser disponibilizados para meus estudos mais distante seriam inatingíveis, precisei mudar a rota. Após optar pela formação mais viável, resolvi entrar nos estudos de administração e, de carona, vieram os desafios do mercado de trabalho, da faculdade, das jornadas longas e dos novos compromissos.
As cobranças mudaram de endereço. Já não vinham apenas de meu pai, mas de dentro de empresas, do mercado, dos estudos e de mim mesmo.
Os sonhos, os projetos e as expectativas ficaram maiores. As responsabilidades também. Porém, ainda assim, havia um equilíbrio. Eu conseguia, na maior parte do tempo, compreender que cada etapa exigia seu próprio ritmo, meu próprio esforço. Não havia a avalanche de estímulos que hoje invade nossas vidas. Não existiam redes sociais ocupando cada minuto livre, com constantes comparações, ou a sensação de que estava sempre atrasados em relação a alguém ou aguardando a aprovação (de expectativas).
(https://www.portaldaindustria.com.br/industria-de-a-z/mercado-de-trabalho/ )
(Google Fotos)
Hoje, ao observar o mundo ao nosso redor, percebo quantas expectativas criamos e quantas carregamos sem necessidade. Queremos resultados imediatos, reconhecimento instantâneo e respostas para perguntas que ainda estão amadurecendo dentro de nós.
Talvez o grande desafio não seja atender a todas as expectativas que nos são geradas e sim refletir e distinguir quais delas realmente importam. Porque a vida não é uma corrida por aprovação. É uma jornada em construção.
E, ao final de cada dia qual a pergunta mais importante? O que os outros esperam de nós? Ou, o que estamos fazendo para nos tornarmos a melhor versão de nós mesmos?
Expectativas sempre existirão, porém o segredo está em não permitir que elas tomem o nosso precioso tempo, nem sejam maiores do que nossa essência, de nossos valores e de nossos projetos.
Afinal, as maiores conquistas da vida acontecem justamente quando paramos de correr para agradar o mundo ou as pessoas e começamos a caminhar em direção a quem verdadeiramente somos, para que viemos, para onde vamos e qual o legado que aqui deixaremos para as gerações vindouras.
Tem sentido isso pra mim?
(Google Imagens)
(12 de setembro de 2026)
Desde a Antiguidade, o homem compreendeu que o planeta vivia ciclos ao longo de determinados períodos. As mudanças no ambiente terrestre impactavam a vida de todos e, assim, algumas civilizações, como os sumérios, babilônios, persas e egípcios, passaram a estudar esses ciclos e a se organizar de modo a melhor conviver com essas transformações.
Foi nesse contexto que os calendários foram criados, com o propósito de organizar a vida das civilizações e contribuir para que aquelas sociedades pudessem se preparar e conviver melhor com as mudanças da natureza. Nas regiões mais áridas e com escassez de água, os períodos de chuva e as cheias dos rios sempre foram celebrados como tempos de fartura e abundância.
Do mesmo modo, a chegada do período das flores representava uma época de renascimento, união e beleza.
Ao percorrer o sertão do Rio Grande do Norte, podemos perceber o esplendor e a beleza da chegada da primavera, a estação das flores e um dos mais expressivos símbolos de renascimento e transformação da vida.
A paisagem se modifica, a natureza ganha novas cores e, diante desse espetáculo, somos convidados a refletir sobre os ciclos da própria existência.
(Imagem: Facebook)
Google Fotos
A primavera nos lembra que, depois de cada período de aridez, espera e transformação, a vida encontra novamente o caminho para florescer.
Que essa mudança na natureza também possa renovar em nós a esperança e nos inspire a acreditar na possibilidade de dias melhores.
Que a chegada da primavera seja, portanto, um convite à renovação, à união e à construção de uma vida melhor para todos. autorizadas.
(imagem: Karla Donida)
(12 de setembro de 2026)
Era uma expedição fotográfica. Oportunidade perfeita de estar com pessoas que têm a mesma loucura que você e, só por isso, já se sentir mais normal. Na minha humilde opinião, os opostos só se atraem mesmo na física. Na vida real, a gente quer mesmo é rir junto e chorar abraçado com quem compartilha de nossas ideias e compactua com nossos delírios.
Um parêntesis: foto, para mim, é praticamente uma declaração de amor. É dizer sem palavras que você e este momento são tão importantes que eu quero tê-los para sempre ao meu alcance. Se você aceita feliz o convite para estar numa foto comigo, é como se estivesse me dizendo: “Esse momento também é importante para mim, vamos eternizá-lo!”
Parêntesis fechado, voltemos ao início. Era uma expedição fotográfica e, no início da viagem, são distribuídos os “desafios fotográficos”. O professor é generoso e, sem fazer alarde, os distribui de acordo com o nível do expedicionário.
Aos novatos, temas mais concretos;
aos veteranos, abstrações.
À novata que vos escreve coube o desafio “placas”.
E eis que o milagre aconteceu: ao saberem que seriam capturadas pela câmera de um celular, as placas começaram a surgir, a brotar. Algumas acenavam para mim, tenho certeza! Da simpática “Seja bem-vindo” à ameaçadora “Fiscalização eletrônica de velocidade”, todas queriam ter seu momento de glória. E não é que até da mais concreta plaquinha o iniciante consegue abstrair beleza ou fealdade? Cérebro a mil para lançar luz em novas formas de ver o banal.
Acredito que tal se deve porque, antes de ser capturado, o objeto foi visto (verbo ver, não seu irmão enxergar, nem seu primo olhar).
Diante desta demonstração inequívoca do que uma mente focada é capaz, estou considerando sair de casa todos os dias com um desafio particular.
Mais ou menos assim: hoje o meu olhar vai buscar cenas de gentileza ou o incorreto que, de tanto acontecer, perdeu a visibilidade.
(https://doutormultas.com.br/placas-de-fiscalizacao-eletronica/)
Google Fotos
Já consigo imaginar o resultado. Foco ativado, mente alerta e desperta, e as situações cotidianas pulando em minha frente: “Ei, aqui tem algo muito errado acontecendo, você não consegue ver?” ou “Sério que você não está percebendo a delicadeza deste momento? Rápido, registra!”
Quando as lentes do cristalino dos nossos olhos estão embaçadas, o comum vira normal sem qualquer cerimônia. A repetição consegue dar passe livre para o território da normalidade, e isto é um perigo e uma ameaça a nós, individualmente e enquanto sociedade.
Como que anestesiados pela recorrência do belo ou do imoral, os passos vacilantes de uma criança aprendendo a andar já não nos encantam; tampouco nos escandaliza o dinheiro que deveria estar na escola, no hospital, nas rodovias ou na conta de nossa avó, mas que engorda contas não autorizadas.
A capacidade de se enternecer ou de se indignar aparentemente fica embotada pela frequência desconcertante com que o sol se põe ou lixos são atirados pelas janelas dos carros. Ambos merecem o registro.
Ter olhos de ver. Eis o desafio.
Instagram: @marianamoretzsohn
(12 de setembro de 2026)
Queremos alunos capazes de pensar criticamente, avaliar informações, comparar argumentos e resolver problemas complexos.
Mas existe um problema anterior na educação brasileira: quase metade dos adolescentes não atingiu sequer o nível básico de proficiência em leitura no PISA 2025.
E essa discussão começa muito antes dos 15 anos: começa na alfabetização, na compreensão leitora, na construção de conhecimento e na memória.
Pensamento crítico não é uma habilidade genérica que aparece simplesmente porque colocamos o aluno para “refletir”.
Para compreender uma informação nova, relacioná-la ao que já sabe, identificar inconsistências, estabelecer conexões e avaliar argumentos, o aluno precisa de leitura, linguagem, conhecimento e memória.
(Google Imagem)
As evidências da ciência da leitura e da aprendizagem mostram que componentes da compreensão da linguagem podem ser ensinados explicitamente; que recuperar da memória aquilo que foi aprendido favorece a aprendizagem; e que o conhecimento prévio influencia o que conseguimos compreender e aprender a partir de um texto.
Não existe oposição necessária entre memória e pensamento, ensino explícito e autonomia, conhecimento básico e habilidades complexas.
E o PISA 2025 registrou queda justamente em habilidades como avaliar informações, estabelecer conexões entre diferentes fontes e pensar criticamente sobre aquilo que se lê. A proporção dos chamados hasty readers — alunos que passam rapidamente pelos textos e dão respostas rápidas, mas incorretas — quase dobrou entre 2018 e 2025.
Pensamento crítico é um objetivo importante da educação. Mas não se desenvolve pensamento complexo ignorando os conhecimentos e habilidades que permitem exercê-lo.
(Imagens da Autora)
Referências:
Silverman RD, Johnson E, Keane K, Khanna S. Beyond decoding: a meta-analysis of the effects of language comprehension interventions on K–5 students’ language and literacy outcomes. Read Res Q. 2020;55(S1):S207-S233. doi:10.1002/rrq.346.
.
Agarwal PK, Nunes LD, Blunt JR. Retrieval practice consistently benefits student learning: a systematic review of applied research in schools and classrooms. Educ Psychol Rev. 2021;33:1409-1453. doi:10.1007/s10648-021-09595-9.
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Hattan C, Alexander PA, Lupo SM. Leveraging what students know to make sense of texts: what the research says about prior knowledge activation. Rev Educ Res. 2023.
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OECD. PISA 2025 Results (Volume I): Future-Ready Students. Paris: OECD Publishing; 2026. doi:10.1787/73451bc5-en.
(Google Imagem)
(*) Texto reproduzido com autorização da Autora.
Mariana Moretzsohn é Neuroeducadora, trabalha na área de Desenvolvimento Infantil, Alfabetização, Música e Conteúdo prático para famílias e educadores.
Instagram: não informou
(11 de setembro de 2026)
Todos nós temos perdas, que podem ser emocionais, afetivas, amorosas, materiais, algumas perenos, outras momentâneas. Temos também a dor da perda pelo luto. Quanto a essa dor e quanto ao luto, aprendi a administrar a falta, a saudade, a necessidade de sentir o cheiro do colo. Em uma manhã de domingo, eu estava me preparando para um churrasco em família.
No outro dia tudo estava diferente. Recebi a notícia de que tinha perdido um ente querido. Depois de dois anos, mal administrando ainda o luto dessa perda, perdi a segunda pessoa da família, minha mãe. Em um ano também perdi meu único irmão.
(Google Imagem)
São perdas significativas, que causaram dor, ainda causam saudade. Como aprender a conviver com o vazio deixado pelas perdas? Como administrar essa dor que teima em persistir quando a memória reaviva a imagem do abraço amigo que falta? Como encarar o fato inequívoco de que nas conversas entreamigos, nos eventos em família, nos sorrisos dos parabéns, na vida cotidiana, o vazio continua a ser sentido e parece sem sentido?
Mergulhei em todos os tipos de possíveis explicações para o sentimento de perda. Catolicismo, Evangelho, Cardecismo e, por último, conheci o Budismo. Aqui, me senti confortável, abraçada por uma filosofia de vida que não ensina a eliminar o sentimento. Aprende-se a conviver com a dor e a procurar entender que a maior descoberta da consciência humana é perceber que tudo passa e nada é permanente.
Penso que a frase que poderia resumir o budismo seria: tudo passa!
(Google Imagem)
A vida te apresenta alguém que precisa de você. Você sente que tem que continuar vivendo, as obrigações continuam a exigir suas decisões, seus amigos preenchem suas próprias vidas e continuam a viver. Você tem que continuar. Se você não sair de sua dor, você se tornará um peso para si mesmo.
A consciência sobre a finitude impõe a você que somente você será capaz de se salvar da dor. Foi isso que fiz. Eu tinha que me salvar, eu tinha que lutar. Eu continuei. Mergulhei na meditação, na filosofia, procurei observar a vida com outros olhos.
Lamentar é uma coisa, sofrer é outra. Momentos de saudade existem e eles são extremamente positivos quando você entende que não se tornará fraco ao sentir saudade daqueles que foram. Sua memória traz lembranças, sua mente cria memórias afetivas. Você se enche de sentimentos.
Passei a enfrentar os problemas diários com ânimo e procurei sentir menos aquele peso da saudade que aperta o peito. No budismo encontrei essa consciência. Aprendi a mergulhar em mim mesma. Exercitei, exercitei. Demorei alguns dias, entre 30 e 60 dias, numa viagem maravilhosa para dentro de mim. Encontrei um insight que me possibilitou descobrir "milhões" de sentimentos.
Você se perdoa, entende que dentro de você há uma força criadora. Sua mente é sua mola propulsora necessária para viver. É a força que permite ter uma vida mais leve, com novas perspectivas de realizações, que instiga em seu íntimo a vontade imensa de projetar o futuro. Ressurge a força para amar intensamente quem já é amado, sem se importar tanto com detalhes, pois esses fazem parte de toda vida que quer florescer, assim como uma flor que teima em existir.
Uma flor não pergunta a si mesmo o porquê de florescer. Ela não busca um sentido do seu próprio florescer. Ela não pensa nisso.
Ela apenas floresce.
Com o budismo aprendi a valorizar o equilíbrio, a entender que nossa mente é dotada de uma capacidade incrível, muitas vezes desperdiçada em uma vida inteira. De fato, nossa mente é capaz de coisas maravilhosas. Eu sou capaz. Você é capaz.
Assim, passei a lembrar dos meus entes queridos com mais amor e carinho. Alguns se foram, ficaram na lembrança que nos ensina pela vida em frente. Por isso, agradeço imensamente ao ser superior em que acredito, potente, que chamo de Deus. Claro que você pode usar outras nomenclaturas. Para alguns é Senhor, para outros Nosso Pai. Não importa muito o nome. Apenas sinto que ele me criou, deu-me vida e uma razão que faz a minha diferença na existência.
Hoje sou outra pessoa, pois vejo em tudo uma grande esperança. Esta manhã está linda, ainda que não esqueça da dor da saudade, pois é uma manhã de realização, de projetos, de saber que posso desenhar o futuro.
(Google Imagem)
Minha reflexão intui que sempre estamos frente a uma ponte a ser atravessada, mesmo que sob ela estejam emergindo felicidades ou sofrimentos, tudo momentâneo. Ao atravessá-la, no outro lado você encontra a leveza de ter conseguido ir adiante e de aproveitar felicidades que não me cabiam.
Este é o enfrentamento ao luto. Deixar que ele se transforme aos poucos. Saber que a dor da perda tem lugar na gratidão e na vastidão do universo. Ficar feliz ao recordar que pode conviver com pessoas que mereceram seu amor, seja marido, esposa, filhos ou amigos.
Cuidando dos sentimentos de dor face à partida pela morte, entendemos o ciclo da vida e, talvez, estejamos preparando o espaço para novos sentimentos, ou não. E a vida continua. Permita-se, então, completar-se sozinha na dor e agradeça ao universo pela grande oportunidade da existência.
(10 de setembro de 2026)
Durante anos, passei pelo sistema escolar, desde os ensinos fundamental e médio. No entanto, nunca fui percebido como um aluno valioso, porque minha mente não operava na estrutura escolar de repetição de fórmulas e explicações. Sempre funcionei por missão, propósito e criação, não como alguém a ser avaliado, mas como alguém a ser estimulado, e o ensino brasileiro raramente oferece isso.
A estrutura educacional raramente possibilita ou avalia inovação, criação ou pensamento original.
Sentia-me sufocado, pois meus pensamentos nas aulas de filosofia eram reinterpretados imediatamente pela lente dos filósofos e nunca considerados em sua originalidade. Isso acabava por cercear minha visão, pois na tentativa de ensinar e corrigir estavam matando meus talentos.
(Imagem do autor)
Nas aulas de exatas, a linguagem pouco aplicada ao mundo prático dificultava minha aprendizagem. A repetição, que sempre foi meu algoz cognitivo, fazia-me sentir inadequado e incapaz, quando na verdade era apenas diferente.
Os resultados foram notas baixas, depressão, sensação de inadequação, isolamento e a impressão de não ter talento.
Até que um dia aventurei-me na poesia, arte que é livre por definição. Nessa prática sem pressão, aprendi o que é síntese, abstração, pensamento sistêmico, metafísico e até mesmo cálculo conceitual de forma indireta.
Descobri que minha mente não era menos, era diferente, muito diferente.
Faço, então, este apelo: não devemos medir nossos alunos apenas pelo que eles entendem, mas principalmente pelo que são capazes de criar.
(Imagem: Google)
(https://noticiar.com.br/o-seu-passado-ja-foi-o-meu-futuro)
(09 de setembro de 2026)
Recentemente, escrevi para o Portal Noticiar.com.br um artigo intitulado "O seu passado já foi meu futuro", publicado em 06 de setembro de 2026.
Trata-se de um relato, em forma de crônica cotidiana, de minha experiência vivida em uma exposições de coisas "antigas".
Misturei elegância, charme e um pouco de história, escrita no domingo mesmo, à tarde, em torno de um café bem preto ao lado do editor de textos.
O eixo do texto é a diferença de percepção entre gerações, pai e filha, visto que há maneiras díspares de se olhar o passado e o futuro a partir do uso da tecnologia.
"O café foi servido demoradamente em uma bandeja de prata, que foi colocada sobre uma mesinha redonda de bar, cujo tampo era um mosaico de pedrinhas de vidro translúcido e multicolorido."
Como conclui há pouco um curso sobre o uso de IA's na redação jornalística, estou testando várias ferramentas já amplamente utilizadas nas redações, tanto da imprensa Mainstream quanto em blogs e redes sociais.
Minha pesquisa se atém às ferramentas on-line gratuitas, justamente aquelas que, por seu baixo custo, etsão amplamente disponíveis no dia a dia da produção de notícias.
E, pasmem! Fiquei impressionado!
Passei meu próprio texto, escrito sob o calor do café dominical, ao crivo de duas ferramentas. Desde logo afirmo que meu texto não teve sugestão, inclusão, redação, revisão, assistência ou qualquer aspecto produzido com auxílio de IA.
Utilizei as ferramentas: QUILLBOT e o HUMALINGO.
A seguir, a tela de conclusão da análise do Quillbot:
A conclusão foi:
0% do texto é provavelmente gerado por IA
Gerado por IA -> 0%
Escrito por humanos e refinado por IA ->0%
Escrito por humanos ->100%
E não poderia ser diferente, pois é a este tipo de produção literária a que me proponho, sem desmerecer aqueles que utilizam as IA's.
Afinal, cada produção textual tem seus objetivos próprios e os autores utilizam as ferramentas de acordo com seus sonhos pessoais ou não!
Senti-me regozijado. Se não escrevo tão bem quanto Rubem Braga, também não assusto a plateia. (Risos!)
Lembrei: Não julgue para não ser julgado!
A conclusão do Humalingo me deixou perplexo.
Pontuação de detecção de humano -> 5%
Pontuação de IA -> 95%
Escrito por humano -> 0%
Redação gerada por IA -> 35%
Ética é fazer as coisas certas e evitar as erradas com base em princípios universais para uma convivência justa
(saiba mais em: Ética: conceitos e fundamentos)
Como esse programa de IA chegou a essa conclusão? Como julgou meu texto de modo tão equivocado?
Cheguei à parte da plataforma onde há o seguinte comentário:
"Seu texto apresenta um tom parecido com o de IA, frases repetitivas e ritmo irregular. Essas inconsistências afetam seu estilo, fluidez e credibilidade."
De imediato surgiu na tela uma opção para que a plataforma reescrevesse para o usuário. Assenti. Cliquei. Queria ver como a IA reescreveria meu texto. Fui em frente.
A tela seguinte afirmou que havia terminado o processamento e que, agora, para ver o novo texto eu teria que pagar:
Minha conclusão é a de que os autores, revisores, editores e jornalistas têm que tomar cuidado com as informações dos "detectores" de IA's, pois, por trás dos alertas de uso de artifícios computacionais ou de plágio, há o interesse velado para vender o serviço da plataforma, mesmo às custas da ética e da reputação dos mesmos autores!
Instagram: Não informou
(imagem da Autora)
(08 de setembro de 2026)
Em 1989, fiz vestibular para Arquitetura, com segunda opção para Biblioteconomia. Na minha época, em Recife, alguns cursos tinham provas práticas, uma etapa entre a primeira e a segunda fases do vestibular (o ENEM de hoje). Como gabaritei a prova de desenho à mão livre, mas não pontuei o exigido na prova de perspectiva, fui classificada para Biblioteconomia.
Decidi cursar o 1º semestre, já que os dois cursos pertenciam ao mesmo grupo no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Cursaria o básico e participaria da seleção interna para Arquitetura.
Essa ideia-certeza não se manteve viva nem por um mês após o início do curso.
No primeiro semestre, duas professoras se tornaram meu referencial profissional; elas me fizeram enxergar a Biblioteconomia, não como um curso, mas como uma opção de vida.
A primeira me ensinou que ser bibliotecária transcende o local de trabalho.
Então, quando eu estivesse em um ambiente em que uma pergunta fosse feita e o interlocutor não soubesse a resposta, se eu soubesse, eu deveria pedir licença e ajudar respondendo.
Assim, aprendi que bibliotecária é bibliotecária 24 horas por dia: metade do tempo assalariada, a outra metade "pro bono".
Com a outra professora, aprendi que categorizar e organizar são ações tanto para as atividades laborais quanto para a vida. Nunca mais pensei em deixar o curso e me formei em 1992.
Após a formatura, quis tirar um ano sabático. Mas essa intenção morreu após os três primeiros meses: a bibliotecária em mim queria atuar, auxiliar estudantes como orientadora, em seus trabalhos científicos e, também atuar em projetos comunitários. E assim, o meu "ano sabático" resumiu-se a três meses — os sete meses seguintes me preencheram e confirmaram a certeza da escolha feita em 1989.
Em 1994, iniciei minha vida profissional e, em 1996, assumi o cargo de Analista, Apoio Especializado, Biblioteconomia.
Hoje, mais de 30 anos passados, tenho a certeza de que foi um daqueles casos em que você não escolhe o curso: ele escolhe você. Passei os primeiros 12 anos em atividades ligadas à Biblioteconomia e os 18 seguintes transitando entre a Biblioteconomia e a Memória Institucional.
Imagens do Centro de Memória da Justiça Eleitoral do Rio Grande do Norte
(Imagem: https://pt.wikipedia.org/)
Saí da minha zona de conforto, ampliei meus estudos e atuação para a área da memória. Em parte, porque, como bibliotecária, organizar, armazenar e disseminar informação faz parte da minha formação; em parte, porque a historiadora em formação que existe em mim se apaixona a cada nova descoberta.
Dar à informação um contexto que possibilite às pessoas se identificarem um pouco com a história da minha instituição (pois ela garante o direito de escolha dos cidadãos) me realiza e me proporciona a sensação de contribuição social.
A bibliotecária que existe em mim se realiza na historiadora que se prepara para nascer.
A Biblioteconomia me escolheu! Hoje, perto de me aposentar, vejo como foi acertada essa escolha. E ela me deu muito mais do que um emprego: abriu-me horizontes e possibilidades que são a minha realidade.
Se os caminhos me levaram à Memória, foi a Biblioteconomia quem me deu o mapa.
Ana Paula é Mestranda em Ciência da Informação (UFRN), Especialista em Museografia e Patrimônio Cultural (Claretiano/SP), Especialista em Gestão da Informação (UFS), Graduada em Biblioteconomia (UFPE). Apaixonada por livros, trabalhos manuais e estudar.
(imagem: Google)
Diga não ao escândalo!
(06 de setembro de 2026)
“O que uma geração tolera, a próxima
geração abraçará". — John Wesley
Nenhum absurdo se torna regra da noite para o dia. À degradação moral e política de uma sociedade é um processo silencioso, alimentado por pequenas concessões diárias.
O que hoje provoca choque e indignação, amanha vira hábito. É, depois de amanhã, transforma-se na norma que "diárias,
E, ninguém mais ousa questionar.
O ser humano tem uma capacidade assustadora de normalizar o descalabro.
Quando um escândalo de corrupção, um abuso de autoridade ou a perda de um direito acontecem pela primeira vez, há barulho.
Mas se a reação não gera consequências, o cansaço vira apatia. E a apatia é o solo fértil onde o inaceitável ganha espaço para virar paisagem.
(*) Texto reproduzido com autorização do autor.
É aí que a frase de John Wesley acerta no centro do alvo.
A geração seguinte já nasce respirando essa nova atmosfera.
Para quem chega depois, a anomalia que os pais apenas toleravam por cansaço passa a ser vista como o estado natural das coisas, algo normal, inevitável e até defensável.
Na ciência política, esse deslocamento do que é aceitável tem nome:
Janela de Overton
Conforme a população flexibiliza seus princípios por conveniência, a janela se move. Ideias que antes seriam consideradas absurdas vão entrando no debate público até serem integradas a rotina sem qualquer resistência.
(imagem: Google)
(imagem: Google)
Olhe para a realidade do Brasil nos últimos anos. Privilégios absurdos, relativização da ética, discursos demagógicos e escândalos recorrentes foram sendo incorporados ao cotidiano como se fossem inevitáveis.
Cada vez que damos de ombros para um abuso “pequeno” só para evitar o desgaste, estamos assinando o termo de aceitação do mundo que a próxima geração vai herdar.
A apatia do presente é a prisão do futuro.
Resistir à decadência cultural não exige revoluções grandiosas, mas a recusa diária e firme de chamar o errado de normal. A dignidade de uma sociedade depende da capacidade de seus cidadãos continuarem se indignando com o absurdo, mesmo quando ele virou rotina.
Qual absurdo do nosso cenário atual você percebe que as pessoas já começaram a normalizar e aceitar sem reclamar?
"Talvez este seja o momento de dizer não e rejeitarmos como sendo normal aquilo que deveria nos escandalizar".
(imagem: Karla Donida)
Sobre ciclos
(04 de setembro de 2026)
Contemplar a natureza e seus ciclos me proporciona muitas reflexões, desperta sentimentos diversos e contraditórios e renova minha fé. Sim, as flores vão murchar, mas é certo que tudo florescerá de novo. Haverá frio e calor, tudo a seu tempo.
As marés sobem e descem, o sol nasce e se põe, a lua tem suas fases, os pássaros hibernam e migram, e nós dormimos e acordamos todos os dias. Estações, fases, ciclos.
Esta certeza de que tudo se cumprirá seguindo uma lógica, independente de minha vontade, é, paradoxalmente, confortadora e libertadora e, por que não dizer, às vezes assustadora, tamanho o choque de realidade ao me perceber tão desimportante em tantas situações.
Observo a natureza e me esforço para passar, sem perder minha paz, pelo que cada estação oferece: desenvolver a confiança no próximo amanhecer, sem me decepcionar com o entardecer; cultivar a paciência com a fruta que não amadureceu e o respeito pela maré alta; ver beleza na chuva forte sem abrir mão da prudência; ficar triste pela árvore que caiu, mas grata pela sombra providencial dos anos áureos; me resignar placidamente ao fato de que hoje não vai dar praia porque está caindo um temporal.
Transportar essas situações para as ocorrências da vida é um exercício de bem viver, digno não ainda de todos, mas de meus melhores momentos.
E, neste interminável iniciar, concluir e recomeçar da natureza, entender, nas nuances mais óbvias e nas mais profundas, que também eu sou natureza e, portanto, também eu tenho altos e baixos, invernos e verões, fases crescente e minguante e a hora de, talvez, migrar para um lugar mais adequado.
O curioso é que, mesmo sendo eu natureza, também me surpreendo invejando a sabedoria dos animais que, na hora certa e calmamente, vão tomar banho de sol ou alçam voo para o lugar onde sabem que devem estar abandonando aquele que já não serve mais, sem qualquer complicação adicional.
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Desapegar dos ciclos que chegaram ao fim e acolher carinhosamente os que chegam e vão ocupando os espaços, abraçando com entusiasmo as novas aventuras que a vida nunca vai deixar de colocar em nossos caminhos é a minha meta da maturidade emocional.
Absolutamente indiferente aos meus anseios, minhas folhas e as de meus queridos também cairão várias vezes, até caírem pela última vez.
Será fantástico se eu conseguir viver o fluxo incessante dos ciclos de minha vida e de meus amores, dos mais simples aos mais complexos e impactantes, com serenidade e brilho nos olhos, resolvendo com relativa clareza a dúvida ancestral entre lutar ou fugir, sem confundir persistência com teimosia , foco no que depende de mim com birra com o que está fora do meu controle.
Ter sempre um guarda-chuva na bolsa e, na hora do frio, apenas vestir um casaco e um sorriso... quem sabe o meu melhor sorriso.
A G O S T O - 2026
Despedida não é o fim do caminho - Elikah França
Crer ou conhecer - Gotardo Luiz Brandalise
A idade em que o tempo senta à mesa - Oldecir Oliveira e Silva
Elvis não morreu! - José Santhiago
Enquanto você está aqui - Claudia Santana
A mercantilização dos esportes - Gotardo Luiz Brandalise
Anatomia de uma pergunta artificial - Luiz Melo
(imagem: Google)
Despedida não é o fim do caminho
(28 de agosto de 2026)
___Não precisamos mais dos seus serviços. Ela ouviu um tanto surpresa e abalada.
A porta se fechou.
A vista escureceu.
As pernas tremeram.
O coração acelerou.
A respiração parou…
De repente, o dia tão certo e tão temido chegou para ela.
"Certo, porque nenhuma situação é eterna", ela pensou.
Temido porque no início se tem a consciência da volatilidade da situação. Mas com o passar do tempo, o dia a dia vai se tornando parte da história. Parte da vida, presença constante na rotina e no cotidiano.
"Vou embora!" Sua mente não parava de girar.
Como ficariam as amizades que ela cultivou? E as histórias que construiu? Seriam desfeitos os laços que criou?
"Como fica o amanhã?"
Incerto, vazio e com uma enorme saudade. Ela sabia que seus dias não seriam mais os mesmos. Deixaria de acordar cedo e revisaria o planejamento de seus horários.
Ela não sabia que essa data seria a última vez em que tomaria como seu o rumo dos acontecimentos.
Ninguém a avisou que amanhã ela seria uma estranha no lugar onde tanto estivera, onde escrevera tantas linhas da sua história de vida. Não deixaram transparecer que seu acesso seria bloqueado. Não permitiram que ela digerisse a situação, nem que se acostumasse com a ideia de ser dispensada.
Não deixaram que ela construísse em sua própria mente a postura de encarar a realidade de não ser mais necessária.
"É hora de ir embora!"
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Escreveu com emoção nas letras de sua mente uma carta de despedida que nunca seria escrita:
"Aos amigos, deixo muitas saudades.
Aos colegas, desejo sorte.
A muitos, meu muito obrigada pela parceria de trabalho.
Levo muito aprendizado.
Levo muitas lembranças boas.
Levo muitas histórias para contar".
Ela suspitou fundo, com o dedo afastou uma lágrima que poderia borrar a maquiagem. Bateu para fora a poeira dos pés.
Era hora de ajustar seu olhar para o futuro e traçar novas metas. Era momento de recomeço.
"Meu amanhã começo a construir hoje. É vida que segue!" Pensou.
__ Deus no comando, fé no futuro e pé no chão. Falou baixinho para si mesma.
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(Gaúcho em Jundiaí – SP;
Especialista em galpões, áreas industriais e incorporação;
Atuação em todo o estado de São Paulo)
Instagram: @gobrandalise
(imagem: Google)
Crer ou conhecer
(26 de agosto de 2026)
Ao longo de nossa vida, somos convidados a acreditar em inúmeros fatos, acontecimentos ou informações. Muitas delas nos são apresentadas ainda na infância, quando sequer possuímos recursos para questioná-las. Outras surgem no decorrer da existência, legitimadas pela tradição, pela cultura, pelas instituições, pelos grupos sociais ou pelas experiências daqueles que nos antecederam. Mas será que acreditar é suficiente? Ou seria mais importante conhecer?
Acreditar é admitir ou aceitar algo como verdadeiro sem que haja, necessariamente, comprovação ou experiência pessoal explícita. Já conhecer significa alcançar algum grau de certeza por meio da ação, da vivência, do estudo, da reflexão, da experimentação e da percepção individual.
Sob essa perspectiva, o mais indicado é transformar o objeto de estudo em conhecimento consciente, evitando a aceitação passiva do que nos é postulado. Não basta apenas crer ou exercer a fé. É primordial conhecer e experimentar, construindo a própria argumentação fundamentada na própria experimentação, nas verpons (1).
Nossa formação pessoal é profundamente influenciada pelo ambiente em que vivemos. Desde cedo, absorvemos valores, crenças, hábitos alimentares, formas de pensar, costumes, preferências e convicções daqueles que nos cercam. Pais, familiares, educadores, organizações, instituições, líderes religiosos, gurus e formadores de opinião contribuem direta ou indiretamente, para a construção dos paradigmas pessoais.
Naturalmente, também percorri esse caminho. Os ciclos de aprendizado da vida me proporcionaram uma formação pensênica (2) baseada em contextos que vivenciei. Deles extraí ensinamentos valiosos, ao mesmo tempo em que pude observar aquilo que já não me serve e aquilo que ainda possui utilidade para o meu desenvolvimento.
Nem tudo precisa ser descartado, tampouco ser aceito integralmente. O importante é desenvolver a capacidade de refletir, discernir e escolher conscientemente.
Essa postura me permitiu pensar e agir de maneira diferente daquela que adotava anteriormente, buscando maior coerência entre minhas escolhas e aquilo que considero cosmoético (3).
Entretanto, muitas pessoas permanecem vinculadas a conceitos antigos simplesmente porque nunca se permitiram questioná-los. São semelhantes à criança que, ao lhe oferecerem um alimento desconhecido, imediatamente afirmam: "Não gosto", embora jamais o tenham experimentado. Evidentemente, toda experimentação deve ser acompanhada de bom senso, discernimento e responsabilidade.
Cada indivíduo constrói sua própria trajetória a partir das convicções que cultiva. Elas deixam marcas e trazem consigo responsabilidades no decorrer da vida. Algumas características serão admiradas; outras poderão ser alvo de críticas ou incompreensões. Faz parte do processo evolutivo humano.
Talvez um dos maiores desafios seja não se identificar excessivamente com grupos, ideologias ou "torcidas" que limitam a reflexão às preocupações imediatistas e mundanas. O ideal é desenvolver a capacidade de sobrepairar determinadas circunstâncias e extrapolar concepções meramente materialistas ou mecanicistas da existência humana.
A maturidade, evidentemente, não surge apenas com o passar do tempo. Ela resulta da disposição para estudar, compreender, questionar o “eu sou” e ampliar a própria consciência. Somente assim o conhecimento pode servir de âncora para o desenvolvimento pessoal e consciencial.
Aqui vale a aplicação do binômio admiração-discordância. É perfeitamente possível admirar determinados aspectos de pessoas, grupos ou instituições sem, contudo, concordar integralmente com suas ideias ou práticas.
Questionar aquilo que nos é apresentado não significa desrespeitar o outro. Pelo contrário, representa o exercício do discernimento da liberdade de expressão.
Considero aqui desnecessárias práticas de convencimento, persuasão ou bajulação, frequentemente presentes em determinados credos, ritos, seitas ou sistemas dogmáticos o que seria uma coerção evolutiva.
Respeitar as convicções pessoais e as experiências individuais é uma manifestação de inteligência e maturidade, uma vez que cada consciência é corresponsável pela própria trajetória evolutiva.
Nesse ínterim, já me inquiriram alguns questionamentos:
__Qual é a sua religião?
Antes de responder, costumo perguntar:
__O que é religião para você? Participar da mesma torcida? Seguir um conjunto de dogmas, de respostas prontas? Se for assim, não possuo. Minha busca está voltada ao auto-conhecimento, à reflexão e à experimentação pessoal.
(imagem: Google)
__Você crê em Deus?
Outra pergunta que me leva a refletir: quem ou o que é Deus para você? Faz sentido depositarmos confiança absoluta em um nome/conceito sem conhecer o que nos foi apresentado por terceiros sem que busquemos compreendê-los de maneira mais profunda?
__Então, em que você confia?
Confio no processo do autoconhecimento, na responsabilidade de minhas atitudes, nos meus posicionamentos diários, nas minhas experiências, nas minhas intuições e energias sentidas. Procuro refletir sobre os meus propósitos evolutivos dessa existência intrafísica e de mundos vindouros e sobre o legado que será deixado às futuras gerações.
Percebo a existência de algo maior no Cosmo, uma essência energética que permeia todas as formas de vida e se manifesta muito além dos sentidos físicos conhecidos. Uma realidade que, a meu ver, transcende explicações simplistas e nos conecta aos diversos aspectos da manifestação da consciência. Trata-se de um paradoxo que talvez não possa ser plenamente compreendido pela razão, mas que pode ser investigado e vivenciado pela vivência íntima e aprofundamento consciencial.
Para iniciar essa jornada, algumas perguntas tornam-se fundamentais:
De onde eu vim?
O que vim fazer aqui?
Para onde vou após a dessoma? (4)
São questões desafiadoras que cada indivíduo precisa se permitir investigar. Talvez não existam respostas universais nem definitivas, mas o próprio exercício de buscá-las confere propósito e significado à experiência humana.
O autoconhecimento permanece sendo a pedra angular do desenvolvimento pessoal e consciencial. Conhecer, nesse sentido, é muito mais do que acumular informações. É permitir-se experimentar, questionar, refletir e construir conscientemente um novo caminho, a própria compreensão sobre o sentido da vida e sobre mim mesmo, um caminho desperto pela ótica da Conscienciologia.
Crer pode ser um ponto de partida.
Conhecer, porém, é um caminho que somente cada consciência pode percorrer e experimentar por si mesma.
Notas do autor:
(1) Verpon – Verdade de ponta, a mais sutil e assertiva no momento
(2) Pensênica – Forma de pensamento íntima, consciencial
(3) Cosmoético – Que supera e vai além da moral e ética humana. O Cosmo como integridade suprema
(4) Dessoma-Descarte do soma (o corpo)
Cel da Polícia Militar de São Paulo
(imagem: Google)
(23 de agosto de 2026)
Existe uma fase da vida em que o espelho começa a nos tratar com uma sinceridade quase ofensiva. Os cabelos debandam discretamente. Os joelhos passam a emitir boletins sonoros. A memória, às vezes, resolve brincar de esconde-esconde justamente com o nome daquela pessoa que acabamos de encontrar no supermercado.
E há, também, o fenômeno mais cruel de todos: levantar da cadeira emitindo um “opa!” involuntário… como se a coluna precisasse de autorização verbal para funcionar. Mas talvez exista uma beleza secreta nisso tudo.
Porque, enquanto o corpo vai lentamente negociando limites com o tempo, a alma, curiosamente, começa a ficar maior.
Mais generosa. Mais paciente. Mais humana.
Chega uma idade em que já não precisamos vencer discussões inúteis. Nem provar inteligência. Nem disputar importância. A vida finalmente nos ensina que certos troféus pesam mais do que valem.
Então começamos a trocar pressa por presença.
E isso muda tudo.
O café deixa de ser apenas café. Vira cerimônia. Vira encontro. Vira desculpa para conversar sem relógio. As amizades antigas ganham um brilho raro. Porque sobreviveram às décadas, aos desencontros, às mudanças, às perdas, às teimosias e até às opiniões políticas, milagre estatisticamente improvável para homens acima dos setenta… especialmente em grupos de WhatsApp.
E o amor… Ah, o amor também muda.
Já não precisa incendiar o mundo. Basta aquecer o coração. Às vezes ele chega na forma de uma mensagem simples: “Você está bem?”
E pronto. Aquilo ilumina o dia inteiro.
Descobrimos também que aventura, na maturidade, ganhou novos significados. Dormir a noite inteira sem acordar duas vezes para ir ao banheiro virou quase uma experiência transcendental. Encontrar um exame médico com todos os índices normais provoca emoção semelhante à conquista de uma Copa do Mundo. E viajar sem esquecer os remédios já pode ser considerado um ato de ousadia internacional. Mas existe algo profundamente épico em continuar vivendo com ternura apesar de tudo.
Apesar das ausências. Apesar das despedidas. Apesar dos amigos que partiram cedo demais e deixaram cadeiras vazias em nossas mesas e silêncios difíceis de explicar.
Ainda assim… continuamos marcando encontros. Planejando viagens. Rindo das mesmas histórias. Inventando motivos para celebrar aniversários. Plantando ipês brancos em algum canto da memória. Talvez seja isso que sustenta o mundo sem que a gente perceba: homens e mulheres comuns insistindo delicadamente em continuar amando a vida.
Porque envelhecer não é desaparecer.
É diminuir o barulho externo para escutar melhor o essencial. É descobrir que felicidade talvez nunca tenha sido uma linha de chegada. Era apenas aquela conversa boa depois do almoço… o telefonema inesperado… o abraço demorado… o amigo que ainda lembra do seu apelido de juventude… e a mesa onde alguém sempre guarda um lugar para você.
No fim das contas, talvez a grande vitória da maturidade seja esta: aprender que a vida não precisa mais correr; agora ela pode... apenas… sentar conosco à mesa"
Bom dia!
Bárbara Seabra é autora dos livros: “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento”.
Você pode adquirir aqui na Livraria.
https://pixabay.com/pt/photos/mulher-jovem-deitado-relva-terra-8700536/
As cobranças
(18 de agosto de 2026)
Todos os dias - todos os dias! - recebo ao menos um reels falando sobre cobranças. Alguns cômicos,
uns críticos e outros exalando verdades que para mim não existem.
Falo das cobranças femininas que, parece, só aumentam a cada dia. Desde cabelo perfeito, pele perfeita, unha perfeita, corpo perfeito, maquiagem perfeita, até o tempo! Tempo para treinar, para curtir filhos, para sair com marido, para um café com amigas, para ler, para escrever, para estudar, para trabalhar, para ser exímia cozinheira, ser exímia costureira, ser exímia cabeleireira (lembram do dia do cabelo maluco? Pois é!), ser exímia dona de casa, ser exímia funcionária ou empreendedora, para saber por a mesa cuidadosamente, saber fazer bolos decorados. Enfim! Para tudo que existe há um tanto de cobrança.
Mas, o que talvez mais me assuste e amedronte é que os vídeos que recebo geralmente são de algum blogueiro famoso que eu NUNCA HAVIA OUVIDO FALAR. Com milhares de seguidores e de opiniões formadas sobre tudo, sem embasamento científico, sem conhecimento de causa. Apenas um celular e o perfil do Instagram aberto. E saem falando sobre o que é certo, belo e normal como se houvesse sempre um certo, belo e normal onde possamos nos encaixar.
Quem estamos seguindo?
Me coloquei a refletir como essas cobranças me ferem. Eu, uma mulher de 51 anos, mãe, esposa, filha, amiga, estudante, em processo de mudança de profissão. Eu, uma mulher que cresceu num momento onde não existia internet, IA, redes sociais e hoje me deparo com um mundo regido pela internet, pela IA e pelas redes sociais. Eu me vejo observando postagens agressivas sobre uma atriz que emagreceu, outra que engordou, outra que decidiu casar, outra que escolheu separar, outra que não quis filhos, outra que quis muitos filhos…
Sempre - sempre! - tem alguém opinando sobre nossas vidas. E nem mesmo nos conhecem! Não sabem nossas batalhas. Não entendem o malabarismo que é segurar todos os pratos das nossas responsabilidades e continuar girando-os enquanto tentamos andar para a frente.
E nós permitimos…
Como deve ser difícil ser adolescente e carregar esse mundo de cobranças dentro de sua bolsa. São 24h de pura cobrança no celular.
Como chegamos ao ponto de permitir isso?
Como chegamos ao ponto disso ser normal?
Como?
Precisamos falar sobre isso…
(16 de agosto de 2026)
O professor de História arrumou sua pasta, inseriu cadernos, blocos e alguns livros. Ao se despedir da turma, avisou que todos deveriam ler o próximo capítulo para a aula da semana seguinte, pois o debate seria sobre a morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954.
Fez questão de lembrar da importância de Getúlio e as implicações de sua morte, como, por exemplo, a desarticulação da oposição civil e militar ao governo getulista, com a frustração do golpe imediato da UDN e de setores das Forças Armadas, e a garantia da eleição e posse de Juscelino Kubitschek (JK).
No livro indicado, deveríamos estudar o texto sobre a sobrevivência e o fortalecimento do Trabalhismo (Varguismo), bem como a forte comoção popular a partir da morte do homem e da criação do mito do "Pai dos Pobres".
Palavras do professor: todos os alunos devem ler a Carta-Testamento. É obrigação de todos nós conhecermos a história. Afinal, já se passavam uns 22 anos da morte do político que tanto definiu nosso estilo de vida.
Quando a sirene tocou, sabíamos que se iniciaria uma nova aula, a mais esperada da semana, com o Professor John. Não havia quem faltasse às aulas semanais de inglês.
Teacher John era o apelido do professor João, que havia morado nos Estados Unidos e, amparado por música e tecnologia, nos fazia vibrar com melodias ao mesmo tempo em que colocava em nossas "caixolas" um pouco do idioma.
A turma vibrou quando John abriu sua bolsa e retirou o gravador cassete portátil "maletinha", da National (que era uma linha da Panasonic). Fácil de transportar e muito avançado para a época, permitia gravar músicas diretamente das programações de rádio locais (como a Rádio Mundial e a Rádio Cidade).
John comprara na sua última viagem aos "Estates" o novo modelo National Panasonic Rq-413s, que tinha microfone embutido, alça emborrachada e grandes botões mecânicos na parte superior da frente. Sua característica mais marcante era o botão vermelho, no qual tínhamos de apertar as teclas Play e Record simultaneamente. No início, era difícil, mas depois, com o hábito, o uso passou a ser um charme. O aparelho era o xodó de John e despertava a inveja dos demais professores.
Eu tinha 15 anos. Em breve iniciaria meu primeiro emprego e havia me prometido que, com o primeiro salário, compraria um Rq-413s “novinho em folha”.
Já preparado para gravar a programação musical da rádio local, John ligou o rádio, sintonizando a emissora e “pronto!”. Apertou as teclas. Encantados, vimos a fita cassete girar e aguçamos os ouvidos.
Era 16 de agosto de 1977 e, com bastante estática, pudemos ouvir o locutor da Rádio Mundial, AM-Rio de Janeiro, noticiar em primeira mão a morte de Elvis Presley. Aos 42 anos de idade, ele foi encontrado sem vida no banheiro de sua mansão, chamada Graceland, em Memphis, Tennessee, nos Estados Unidos.
John pigarreou e pediu aos alunos o silêncio absoluto para ouvir mais notícias. Ainda não se sabia quais eram as causas da morte do ídolo. Estávamos no finalzinho da tarde e, logo em seguida, a programação de todas as outras rádios do Rio de Janeiro seria interrompida.
O alvoroço na escola era total. Logo após o plantão urgente dado pelo rádio, a notícia começou a se espalhar em grande escala pela cidade.
Pude ver sobre a mesa do professor duas fitas cassetes (K7) que seriam utilizadas naquela aula: "It's Now Or Never" e "Bridge Over Troubled Water".
Durante a semana, havíamos assistido na “Sessão da Tarde” — programação diária e juvenil da Rede Globo, como era comum na década de 1970 — a filmes com Elvis: Feitiço Havaiano (Blue Hawaii, 1961), Garotas, Garotas e Mais Garotas (Girls! Girls! Girls!, 1962), Coração Rebelde (Wild in the Country, 1961) e Saudades de um Pracinha (G.I. Blues, 1960). Este último era um clássico absoluto das comédias musicais.
Saímos tarde da escola. Consternado, cheguei em casa e, ainda na porta de entrada, encontrei meu pai carregando um semblante assustador. Suas olheiras mostravam cansaço e os olhos marejados indicavam uma súplica por alguma dúvida que ainda pudesse existir. Contudo, ele acabara de assistir ao Cid Moreira, em plantão do Jornal Nacional, da Rede Globo.
E, se o Cid Moreira falou, então era verdade:
Elvis morreu!
Recentemente, no carro com minha filha, frente a uma decisão a ser tomada, cantarolei:
It's Now Or Never. É agora ou nunca!
Ela me olhou, sorriu e retrucou, também cantando:
"Like a bridge over troubled water, I will lay me down"... Como uma ponte sobre águas turbulentas, eu me deitarei…
Cid Moreira estava errado:
Elvis não morreu!
(09 de agosto de 2026)
(imagem: Google photos)
Pai,
Que bela maneira, Deus, em sua inteligência divina, encontrou para permitir uma expressão genuína de amor.
Quando o homem recebe um pequeno ser para cuidar, ensinar, orientar e fazer crescer, recebe junto, sem manual de instruções, a oportunidade que a vida oferece para aprender a amar sem barreiras.
Sei que um jovem se depara com a missão de ser pai quando ainda está crescendo e amadurecendo no seu próprio interior e isso faz com que várias experiências não sejam as mais adequadas e controladas, mas a maioria sim.
A vida desperta assim o melhor dentro de um homem. A concentração para trabalhar, para prover o melhor ao filho, a motivação para vencer seus próprios medos e ser exemplo e o vínculo de afeto que consolida a vida do outro ser indefeso.
(imagem: Google photos)
Desde os tempos da caverna, o homem primitivo traz, no instinto, o sentido de proteção da sua prole e, mesmo que hoje não tenhamos feras e dinossauros que ameacem a espécie humana ele continua imbuído do mesmo sentimento de defesa do que ama.
Por isso, é tão amargo quando nos deparamos com histórias cruéis de um pai que atenta contra o filho.
A nossa psique não aceita o fato dessa contramão da natureza. A abordagem desses fatos esdrúxulos é dolorosa e nos direciona para conclusões relativas à distúrbios comportamentais e doentios.
Mas o que quero mesmo é sentir a essência do que brota do amor de pai e meditar sobre a importância para um filho do carinho doado na pequena infância, que será preponderante para as suas próprias construções mentais e emocionais.
Para o filho, o pai é um símbolo de segurança e conforto e a relação construída na infância trará impactos decisivos na construção da sua personalidade, da forma como a criança será pai ou mãe no futuro, da forma como se relacionará emocionalmente com seus companheiros.
(imagem: Google photos)
Daí imagino que, por exemplo, no contexto da violência doméstica, quando o pai é amoroso e compreensivo, mesmo sem deixar de ser forte e justo, a memória afetiva preponderará para a estruturação de um homem incapaz de coadunar com a agressão ou a opressão à mulher.
O meu pai sempre foi meu herói, minha referência de integridade e respeito, meu exemplo de liberdade de expressão em casa e, nas minhas memórias mais remotas, meu coração se aquece quando lembro dele me levando, nos braços, adormecida, para o quarto ou cuidando da minha enxaqueca e depois me orientando sobre justiça e respeito.
Meu pai sempre me ensinou que o melhor é o caminho do meio, nem muito, nem pouco e que todo remédio pode ser veneno, dependendo da dose.
Portanto, se eu pudesse dizer, na ótica de filha, a um pai que está presente hoje, diria que o amor, o afeto e o carinho precisam ser entregues, saboreados, disfrutados por ambos, pais e filhos, e que esses produtos não precisam ser escassos para que um pai tenha respeito e ensine bons modos e responsabilidade para um filho.
O amor será sempre o valor que não será esquecido e que norteará a bondade e as virtudes da criança quando “endultecer”, palavra que mesmo sendo um neologismo e não existindo no dicionário da língua portuguesa, reforça as marcas que um pai deixa em nós.
(Autora do Livro "Suíte 212, basta você entrar".
Escritora. Hobby preferido: amar poesia)
Instagram:
(09 de agosto de 2026)
Pai,
dessa vez não escrevo só poesia,
escrevo presença.
Escrevi sobre esses dias
em que o tempo desacelerou pra gente...
em que eu te dou banho,
te ajudo,
te observo,
e, às vezes, sorrio sozinha
ao te ver confundir coisas
e resmungar com esse seu jeitinho rabugento de ser que sempre foi seu.
A vida mudou pai...
mas o amor não.
Ele só cresceu.
Hoje eu te cuido
como um dia você cuidou de mim.
E, no meio desse ciclo tão bonito,
eu só peço a Deus
que te deixe mais um pouco aqui com a gente.
Mesmo dormindo mais...
mesmo em silêncio...
mesmo rabugento às vezes...
fica.
Fica pra ver seu neto casar.
Fica pra segurar nos braços
seu bisneto ou bisneta.
Fica para me ver vivendo
a minha aposentadoria
um sonho que talvez seja mais seu do que meu.
Fica para cantar parabéns pra mim mais uma vez,
com aquele brilho no olhar
que nunca envelhece.
Fica para comemorar, ao.lado.da minha mãe às Bodas de Diamante, essa história linda que vocês construíram juntos.
Mas, acima de tudo pai...
fica só pra estar.
Porque sua presença,
mesmo quietinha,
mesmo cansada,
mesmo diferente...
ainda é o que sustenta tudo.
A nossa família existe por sua causa.
A Familia Santana nasceu de você.
E é aqui,
juntinho da gente
que eu quero você
hoje, amanhã
e por quantos dias Deus permitir.
(Gaúcho em Jundiaí – SP;
Especialista em galpões, áreas industriais e incorporação;
Atuação em todo o estado de São Paulo)
Instagram: @gobrandalise
(imagem: Google Photos)
(07 de agosto de 2026)
Em que época fomos mais felizes?
Há uma época em que nada entendemos; outra em que começamos compreendemos muito pouco; e uma terceira, mais madura, em que passamos a despertar e entender um pouco mais sobre a vida. Ainda assim, por mais que ampliemos nossa compreensão, vez ou outra me pergunto: qual terá sido a melhor época?
Em qual delas eu vivi mais feliz?
Nasci no interior, e uma das lembranças mais remotas que guardo remete aos finais de dezembro. Nossa ocupação era preparar a árvore de Natal, feita com uma pequena araucária colhida no sítio, que deixávamos pronta para a noite que antecedia a chegada do Papai Noel. Tudo precisava estar arrumado, pois ele poderia trazer algo para mim e para minha mana, colocando os presentes junto ao belo presépio.
Para nossa surpresa, na manhã seguinte encontrávamos algumas balas e, talvez, alguns embrulhos contendo pequenas surpresas. Era pouco, mas a felicidade ao despertar naquele dia era imensa.
Um desses presentes, entretanto, permanece vivo em minha memória. Eu tinha entre cinco e seis anos e, ao retornar da casa dos meus avós no dia de Natal, encontrei uma bola de futebol de borracha. Brinquei com ela por poucos dias, até que, em uma tarde, foi chutada em direção a uma cerca de arame e simplesmente rasgou.
A tristeza foi grande no início, mas era compensada nos finais de semana em que nos reuníamos com os primos e jogávamos com a pelota que eles possuíam. Foi assim minha infância: entre bolas feitas de meia e bolas de couro, duras como pedra, mas sempre admirando e amando a brincadeira.
(imagem: Google Photos)
Na puberdade, já no colégio, chegávamos cedo para garantir um lugar no time e poder jogar um pouco antes das aulas ou durante o recreio.
A vontade estava no auge.
Foi também nessa época que acompanhei a conquista do tricampeonato mundial do Brasil, na Copa do México, em 1970. A paixão, o prazer e a admiração pelo futebol apenas aumentavam. Ouvíamos falar dos nossos grandes craques atuando em seus clubes com alegria, comprometimento e amor à camisa.
Na juventude, jogando pela equipe da comunidade onde nasci, disputávamos campeonatos e torneios, conquistávamos títulos e vivíamos uma saudável vibração simplesmente por fazer parte do elenco e entrar em campo.
Aos poucos, porém, começaram a surgir os chamados "jogadores enxertos": atletas talentosos, mas que não pertenciam à comunidade, contratados para aumentar o poder competitivo das equipes. Passava-se a pagar por jogadores, e ali já se percebia o início da mercantilização do esporte, substituindo, pouco a pouco, a identidade local.
Na década de 1980, acompanhava um futebol em que jogadores e técnicos começavam a ter um valor de mercado cada vez maior. Quem pagava mais, levava os melhores. Ainda assim, os clubes contavam com inúmeros talentos: atletas comprometidos, que jogavam com alegria, desprendimento e colocavam emoção na ponta da chuteira. Haviam talentos em toda parte do campo, um ótimo lateral, zagueiro, meio campo, ponteiros, centroavantes enfim, exímios jogadores que brindavam os torcedores nos estádios ou pela televisão.
Porém aos poucos a mercantilização ganha força. Jogadores, técnicos, empresários e patrocinadores passaram a exercer influência crescente sobre as equipes/jogadores, que se tornaram hospedeiros de um negócio comandado por poucos (ver figura acima).
Os atletas transformaram-se em vitrines e produtos de consumo.
Antes jogava-se com os pés; hoje no futebol profissional joga-se pelo valor que se pode gerar aos cofres.
(imagem: Google Photos)
O futebol-arte brasileiro, admirado em todo o planeta, começou a ruir. Esquemas táticos e interesses comerciais passaram a uniformizar o espetáculo, que em certos momentos, mais se assemelha a um jogo de computador, reduzindo a criatividade, a alegria e a emoção que sempre caracterizaram nosso futebol.
Quando surge um talento, rapidamente ele é levado à mesa dos negócios. Mesmo recebendo fortunas, muitas vezes torna-se apenas uma peça em um sistema maior, conduzido por aqueles que comandam o espetáculo (e que está deixando de ser espetáculo).
O futebol, por sua enorme capacidade de mobilizar a sociedade e pelos valores financeiros envolvidos, continua sendo o esporte que movimenta o maior faturamento do mercado.
Entretanto, essa realidade não está restrita somente a este pois nos outros esportes também seguem pelo mesmo caminho, embora com menor percepção.
Sinto pelos jovens que entram nos esportes de corpo e alma e encontram uma mídia preparada para fazê-los consumir um produto que, no fim, beneficiará principalmente uma pequena parcela daqueles que enxergam no talento humano apenas uma oportunidade de negócios, de faturamento.
Pelos dados estatísticos cerca de 1% dos jovens que ingressam em escolinhas chegam ao futebol profissional e destes estima-se que entre 1 a 5 jovens em cada 10.000 alcançam clubes de elite e tem salários super remunerados.
E observando tudo isso, volto à pergunta inicial: em que época fomos mais felizes? Talvez naquela em que compreendíamos menos, mas sentíamos mais. Naquela em que uma simples bola de borracha, algumas balas ao pé de uma pequena araucária no presépio e um campo improvisado eram suficientes para nos fazer acreditar que tínhamos o mundo inteiro em nossas mãos.
Estamos consumindo ou sendo consumidos.
Estamos enxergando efetivamente o que há por detrás da grande cortina? E uma pergunta desafiadora: para os mundos vindouros, como estou me preparando?
(Observador anônimo e escritor ocasional)
Instagram: @luiz.g.melo
(imagem: https://pixabay.com/pt/users/geralt-9301/)
(05 de agosto de 2026)
Os chatbots me respondem tudo. Eu pergunto, eles mastigam e já entregam o meu conteúdo, às vezes indigesto. Está lá a lista, o passo a passo, moído, digerido. Nem um sinal de desconforto estomacal, um "revertério", uma azia.
É que o jeito de perguntar e de receber respostas está em ebulição, mudando de estado.
Não tinha me dado conta disso tudo até que fez falta aquele tranco cerebral naturalmente humano, vindo do receptor de um processo comunicativo em falha: o "sei lá", "eu não lembro", "deixa eu pensar", "já faz tempo".
É que a pergunta e a resposta, quando nascem nas nossas cabeças, esperneiam por lógica e cheiram à pressa.
(imagem: https://pixabay.com/pt/users/geralt-9301/)
E a lógica não permite imprecisão, desconexão nem lacunas. Deve ser por isso que nunca mais perguntei a alguém como se troca um pneu, onde fica a rua em que fulano de tal mora ou se carne de porco é "carregada".
É o medo de ficar sem roda por aí, perdido em uma viela estranha, ou com o corpo "remoso" porque alguém não soube dar aquilo que eu queria: uma informação precisa e bem deglutida, de preferência.
As conversas com as inteligências artificiais são "ligeiras" e ainda mandam aquele "faça isso e faça aquilo" em ordem de importância e até em vídeo.
É impossível ficar na dúvida.
Pareço, por um instante, completamente desasnado, doutor nas trivialidades.
Se a pergunta muda, a resposta, aparentemente, também. Vejam só. E o culpado? Eu. Corpo que move, para algum lugar, todas as coisas já criadas.
Minha criatura artificial é apenas eu no espelho.
(imagem: https://pixabay.com/pt/users/andypandy-43058/)
Esse monstro da modernidade liquefeita, das relações rasíssimas, das perguntas nunca feitas a ninguém, algo veloz, voraz e mais astuto que qualquer larápio taciturno: um "Robô, Eu", clássico invertido.
Porém, quando desnudarem às multidões as misérias técnicas do meu "Mr. Hyde", respondam a Pilatos:
— Barrabás!
E, quando lhes perguntarem o crime da máquina:
— Crucifica!
Não deem margem a questionamentos.
Ficarei, então, rapidamente livre de responsabilidades e de vínculo parental. Assim, porque és morna, máquina, e não és fria nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.
Quando chegarmos a esse ponto, pergunta será resposta, e resposta será pergunta, e seremos muito mais ilógicos e mambembes do que almejávamos ser.
Os artigos publicados neste site não refletem necessariamente a opinião do Experimentalismo ou de seus controladores,
já que somos um fórum de opiniões.
(imagem gerada pelo Grok)
(02 de agosto de 2026)
Já dizia Lulu Santos que “não existiria som se não houvesse o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão“.
E nesta vida de contrastes aprendemos que nada é tão assim ou assado, se não for bom, é ruim.
Se não for preto é branco… Se assim fosse, onde ficam os meio-tons? O quase um ou o quase outro? Um pouco mais para lá sem chegar lá? Um meio caminho entre um e outro.
Quando se chega quase lá, ainda estamos do lado de cá?
Aos poucos vamos aprendendo que, entre um e outro, podem haver outras opções, opiniões ou oportunidades
O preto, antes de se tornar branco, passa pelo cinza escuro… Depois um cinza um pouco mais claro, mais claro, mais claro… Branco! Me parece que tudo é assim.
(imagem: https://pixabay.com/pt/users/anaterate-2348028/)
Dizem que inveja é ruim e admiração é bom. Mas tem aquela inveja boa e a admiração ruim, quase inveja. Afinal, onde estamos quando sentimos muita admiração que quase parece inveja? E quando alguém sente tanta inveja que é incapaz de sentir admiração? E quando se sente uma inveja tão grande que se quer aniquilar o outro? Não seria a inveja o lado ruim da admiração? Ou talvez o seu exagero?
Primeiro se admira. Depois se admira tanto que se torna quase um fã! Torna-se fã! E de tanto admirar, já começa a sentir uma leve inveja… Uma inveja boa, aquela que nos faz vibrar com as conquistas do outro, desejar felicidade, sucesso.
Se deixar, há um momento em que a admiração vira inveja. Aquela vontade de estar no lugar da outra pessoa. Aquela vontade de ter o que a outra pessoa tem, vontade de trocar de lugar com a outra pessoa, vontade de ter as mesmas coisas, os mesmos amigos, as mesmas conquistas, o mesmo brilho, e lá se foi a admiração.
Ah! Que tênue linha com a inveja!
(imagem: https://pixabay.com/pt/users/vilkasss-35420724/)
De repente, a admiração se transforma e a inveja se torna nociva e destruidora porque não existe nada que seja só doce ou que seja só sal. Às vezes, o doce e o sal se misturam e o que era doce vai ficando salgado e o que era realmente doce nem sempre permanece.
A vida é mesmo assim… Nem só sal, Nem só açúcar .
Nem tudo é de todo mal, nem tudo é só bondade. Nem tudo é o que é para sempre.
Entre os extremos, tem o meio do caminho. Tem a estrada, o quase lá. E, antes de chegarmos ao final, na outra extremidade, vamos mudando.
Nós não seremos mais os mesmos. Pelo meio do caminho nos misturamos. Absorvemos o bem e o mal, a dor e a alegria, o amor e o ódio, a bondade e a maldade. Um tanto de um, um pouco de outro. Essa mistura é um quase lá.
Talvez nem tanto.
Talvez eu fique silêncio.
Talvez eu vire um som.
https://pt.123rf.com/photo_5777425_m%C3%A3os-sujas-segurando-um-tijolo-velho.html
(01 de agosto de 2026)
Pelas manhãs, sempre que posso ou quando quero (e não é sempre que quero!), ando pelas redondezas de onde moro. Em poucos dias do ano há vento frio; o mais comum é calor logo cedo. Afinal, estou em um quase equador.
Nas caminhadas sem pressa, observo o ambiente urbano no qual me meti faz quase 35 anos. Cidade média, com horrores das metrópoles e pensamento de vilarejo. Tal situação se repercute nas ruas, na decoração residencial, no apelo das fachadas comerciais, no concreto das calçadas e por aí adiante voo nas comparações.
Alguns sinais dessincronizados apelam pela astúcia de não atravessar ruas sem olhar para todos os lados. E, numa determinada esquina, marcada nos cantos por sacos de lixo pretos, rasgados por mãos sediciosas que nada obedecem ou temem, deparei-me com uma situação prosaica.
"Prosaica" para ser educado com meu leitor.
Sejamos sinceros: situação lastimável. Vamos a ela.
(imagem: Google photos)
Um carro vermelho seminovo com faixas brancas de estilo particular, próprio de uma classe média encurralada entre inflação e não reconhecimento, que financia a perder de vista o valor do veículo para mostrar aos vizinhos que "está podendo", estava parado perto da esquina, com portas abertas, som alto e a tampa do porta-malas erguida. Note, meu caro leitor. Era cedo pela manhã. Talvez já umas seis e pouco de um domingo.
Ao lado do carro, um casal vestindo camisetas "com maturidade" pegava, de uma obra pública no canteiro da avenida, lajotas de concreto que deveriam ser usadas durante a semana para ajudar na recuperação de uma parte danificada pelo trânsito intenso da via.
Isso mesmo! O casal estava colocando dentro do veículo chamativo o fruto do assalto que perpetrava, à luz do dia e sem cerimônia. De relance, olhando para o porta-malas do veículo, pude contar no mínimo 30 lajotas. Caberiam mais, e elas estavam chegando pelas mãos do homem, já suado.
Fiquei parado na esquina. O casal me olhou. Sorriam para mim à distância. Acenei com a mão. Continuei observando o ilícito. Estava tudo tão calmo que nem pássaros agoniados pela fome eu ouvia.
(imagem: https://f.i.uol.com.br/fotografia/2021/10/15/16343258006169d52827071_1634325800_3x2_rt.jpg)
Decidi voltar pelo caminho e troquei de calçada para mudar a vista, mas fui impedido de passar perto de um poste no qual estava trepado um homem alto e magro, que arrancava fios das instalações do mastro.
Deu-me o homem um "bom dia" rouco. Respondi com outro "bom dia"! Passei bem devagar por perto do poste para não ser atingido pelos fios que estavam sendo jogados do alto desse outro furto.
Retornei para casa para sorver um café novo e imaginei como o domingo estava repleto de afazeres desconcertantes. No bairro onde moro estão furtando lajotas da calçada e fios de cobre dos postes com naturalidade e desenvoltura. Tudo normal!
Voltei para minha cadeira de leitura em busca de provérbios clássicos. São os mais gostosos de consumir numa manhã de domingo. Talvez algum dito popular da antiguidade me faça entender que sociedade é essa em que normalizamos o assalto público. Perdemos, afinal, toda a vergonha cívica? Assumimos, por derradeiro, que abandonamos o desejo de sermos cidadãos decentes?
J U L H O - 2026
David Sobreira - Onze Supremos Podcast
Instagram: @onzesupremos
Em cartaz: A Odisseia
(27 de julho de 2026)
A Odisseia é uma aula magistral de Direito Constitucional. Já imaginou o que Ulisses e as sereias podem ensinar sobre Constituições?
A CENA I
O canto das sereias.
Em sua volta para casa, nosso herói foi avisado que sua travessia passaria por águas repletas de sereias. Para evitar que a tripulação fosse levada à ruína pelo canto dos seres mitológicos, Ulisses ordenou que todos tapassem os ouvidos com cera.
A CENA II
Ulisses, contudo, queria passar pela experiência. Em vez de tapar os próprios ouvidos com cera, o rei de Ítaca ordenou que seus soldados o amarrassem ao mastro do navio.
"Não me soltem antes que tenhamos cruzado o trecho. Não importa o que eu diga ou o quanto eu suplique."
A astúcia de Ulisses tem nome.
Jon Elster, talvez o maior filósofo político ainda em atividade, a batizou de pré-compromisso: amarrar hoje o próprio futuro para se proteger de uma fraqueza que você sabe que vai chegar.
Prender-se, às vezes, é o gesto mais livre que existe.
(Jon Elster, Ulysses and the Sirens - 1978)
O PARADOXO
A corda não prendeu Ulisses. O libertou.
Parece contradição, mas não é. Amarrado, ele foi o único homem a ouvir as sereias e viver. O limite não roubou sua liberdade, a criou. É como a gramática: não atrapalha a fala, é o que permite dizer algo. Regras que, em vez de sufocar, capacitam.
DO MITO À REPÚBLICA
Mas e se um povo inteiro se amarrasse ao mastro? Ele já se amarrou. Você assina esse contrato todos os dias. O nome dele é Constituição.
A TESE
Toda Constituição é um povo se amarrando. Num raro instante de lucidez, um povo escreve as regras que promete não quebrar quando o pânico bater. Porque as sereias sempre voltam: a maioria inflamada, o salvador da pátria, a emergência que "exige" rasgar tudo agora. A Constituição é a corda que impede o barco de ir nas pedras.
Mas nem todos os nós são iguais.
(*) Texto reproduzido com autorização do autor.
EXEMPLO I
Há nós que nem o Congresso inteiro desata.
O art. 60 (cláusulas pétreas) amarrou o Brasil para sempre: nenhuma emenda, por maior que seja a maioria, pode abolir a federação, o voto, a separação de Poderes ou os direitos individuais. Em 1988, o constituinte deu a ordem de Ulisses - mantenham os nós, mesmo que as gerações seguintes implorem. Mas nem todos os nós têm pretensões eternas. A Constituição húngara, por exemplo, permite que até mesmo direitos fundamentais sejam alterados pelas regras de emendamento tradicionais.
(Lei Fundamental da Hungria - 2011)
EXEMPLO II
Pré-compromissos tomam diferentes formasA Lei Complementar 179/2021, por exemplo, deu autonomia ao Banco Central e blindou seus mandatos do calendário eleitoral. Contra qual sereia? A mais doce da política: injetar dinheiro e comprar votos hoje, empurrando a inflação para depois. O governo se amarrou, e de propósito.
EXEMPLO III
A dificuldade é proposital.Reformar a Constituição exige três quintos, em dois turnos, nas duas Casas. Um nó feito para não ceder no calor do momento. A dificuldade é a virtude: obriga a maioria de hoje a convencer o país antes de tocar no pacto. Não se trata só de vencer uma votação.
EXEMPLO IV
Mas de nada adianta se amarrar sem quem segure a corda.
No auge do canto, alguém precisa apertar os nós. Essa é a função do controle de constitucionalidade.
Quando a maioria implora para se soltar, o tribunal faz o papel da tripulação de Ulisses: segura a corda contra a vontade momentânea de quem se amarrou.
A PRIMEIRA OBJEÇÃO
Ulisses amarra a si mesmo. A Constituição amarra outros.
Ao revisitar sua própria teoria, Elster recuou diante de uma disanalogia que não via antes: o mastro prende quem decidiu se prender. Já a Constituição prende, sobretudo, quem ainda não tinha nascido quando ela foi escrita. Os mortos, avisava Jefferson, não governam os vivos.
(Jon Elster, Ulysses Unbound - 2000)
A SEGUNDA OBJEÇÃO
Mas quem, exatamente, é o "Ulisses" aqui?
Em um indivíduo, uma parte de mim controla a outra. É a vontade de longo prazo freando o impulso do momento. Uma sociedade não tem essa divisão vertical: suas fraturas são horizontais, entre facções que se revezam no poder.
Não existe um Ulisses coletivo. Só facções disputando o leme.
(Jon Elster, Ulysses Unbound - 2000)
A TERCEIRA OBJEÇÃO
E o mastro era de madeira. A Constituição é só papel.
Ulisses estava fisicamente impedido de se soltar. Uma Constituição não amarra assim: é, na expressão de Madison, uma "barreira de papel". O que uma emenda faz, outra emenda desfaz, ou simplesmente ignora.
O papel não impede a mão; só encarece o gesto de rompê-lo.
(James Madison, Federalist n.° 48-1788); Jon Elster, Ulysses Unbound - 2000)
A CAPTURA
E se a própria tripulação for comprada?
Se o pergaminho só vale pela disposição de alguém em fazê-lo valer, a pergunta decisiva nunca foi "a corda resiste?" Foi sempre "quem a seguraria, e por quanto? " Capturado o guardião, o barco vai direto às pedras, e todos a bordo juram que ainda estão amarrados.
O desamarrar mais perigoso é o que se disfarça de mastro.
Ulisses voltou para casa porque soube, a tempo, de qual fraqueza se proteger.
Ler uma Constituição é aprender a reconhecer as sereias e a testar se a corda ainda segura.
@onzesupremos - David Sobreira | Onze Supremos
professor Constitucional • @universidadechristus
Editor-chefe • @ulyssesblog E Mestre • @harvardlaw
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Nota do site:
A Odisseia é o filme épico de ação e fantasia lançado em julho de 2026, escrito e dirigido pelo aclamado diretor Christopher Nolan. O longa-metragem adapta o famoso poema grego clássico de Homero, retratando a jornada de retorno do herói Odisseu à sua terra natal. A produção gerou enorme repercussão na indústria cinematográfica por ser a primeira ficção na história filmada inteiramente com câmeras IMAX de 70 milímetros.
Com a estreia do filme, aumentou o interesse do público pela obra clássica. De um lado, pura curiosidade. De outro, a vontade genuína de conhecer os pormenores da aventura de Odisseu. Por qualquer motivo, vale a pena assistir ao filme e ler o livro.
Dica: observe a evolução ética dos personagens ao longo da trajetória do herói Odisseu
Analita Alves dos Santos
Instagram: @analitaalvesdossantos
Um livro acaba de ser proibido em Utah, nos Estados Unidos. (*)
(23 de julho de 2026)
Um livro de Stephen King acaba de ser proibido nas escolas públicas do Utah, no oeste dos Estados Unidos.
Não é uma história antiga. Aconteceu a 13 de julho de 2026.
A obra em causa é Different Seasons, publicada em Portugal com o título Estações Diferentes.
O livro reúne quatro novelas. Duas delas deram origem aos filmes “Os condenados de Shawshank” e “Conta comigo”.
Histórias sobre amizade, medo, violência, sobrevivência e liberdade.
Agora, os alunos das escolas públicas do Utah deixaram de poder encontrá-las nas bibliotecas escolares.
A proibição entrou em vigor depois de quatro distritos escolares terem retirado o livro das suas bibliotecas.
A lei do Utah determina que uma obra seja removida de todas as escolas públicas do estado quando pelo menos três distritos a considerem “material sensível”.
A decisão tomada por alguns passa, assim, a valer para todos.
A lista inclui também “As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky, e “A fúria dos reis”, de George R. R, Martin. Juntam-se-lhes obras de Margaret Atwood, Toni Morrison, John Green e muitos outros autores.
É difícil olhar para esta lista sem consternação.
Os livros falam de abuso, sexualidade, racismo, violência, saúde mental ou identidade porque esses assuntos existem.
(*) Texto reproduzido com autorização do autor.
Retirar as histórias das prateleiras não retira essas experiências da vida dos jovens.
Uma biblioteca escolar pode definir idades recomendadas, contextualizar leituras e envolver professores ou famílias. Uma proibição geral faz outra coisa: impede o acesso antes de conhecer o leitor, a sua maturidade ou as razões que o levam até determinado livro. Substitui a mediação por uma porta fechada.
O caso do Utah pertence a um movimento muito maior.
Em 2025, a American Library Association registrou tentativas de censura contra mais de 4200 obras nos Estados Unidos.
As remoções e restrições atingiram níveis históricos e foram, em grande parte, impulsionadas por grupos organizados ou decisões políticas.
Escolha parental e censura coletiva não são a mesma coisa. Uma família pode decidir que determinado livro ainda não é adequado para o seu filho.
Quando o Estado retira esse livro de todas as bibliotecas escolares, decide também pelos filhos dos outros.
Uma sociedade democrática não se protege escondendo livros difíceis.
Protege-se ensinando os jovens a lê-los, a questioná-los e, às vezes, a discordar deles.
Um leitor não sai a ganhar só com páginas confortáveis. Aprende também diante das páginas que o perturbam.
Quando um livro é retirado de uma biblioteca, a pergunta não deve ser apenas:
“O que contém esta obra?”
Devemos perguntar também:
“Quem ganha quando os jovens deixam de a poder ler?”
Censurar uma história não apaga aquilo que ela conta. Apenas deixa o leitor mais sozinho diante da realidade.
Nota da autora:
“Estações Diferentes", de Stephen King, foi retirado de todas as escolas públicas do Utah a 13 de julho de 2026;
O livro junta-se a uma lista que inclui «As Vantagens de Ser Invisível», «A Fúria dos Reis», «O Olhar Mais Azul» e a adaptação gráfica de «A História de uma Serva»;
Compreendo que se discuta a adequação de certas leituras à idade dos alunos;
Essa discussão exige conhecimento das obras, critérios pedagógicos e acompanhamento;
O que me inquieta é ver decisões tomadas por alguns distritos retirarem livros das mãos de todos os jovens de um estado;
Os livros não tornam o mundo mais perigoso por lhe darem um nome. Muitas vezes, ajudam-nos a reconhecer o perigo antes de o encontrarmos fora das páginas.
Censurar uma história não apaga aquilo que ela conta. Apenas deixa o leitor mais sozinho diante da realidade.
Mentora e ativista literária. Escritora. Acompanho autores a transformar ideias em livros. Desbloqueie a sua escrita.
Cursos e mentorias.
José Santhiago
Instagram: @santhiago
A inflação significa aumento dos preços?
(21 de julho de 2026)
Há alguns anos, dediquei um tempo para estudar as principais ideias da Escola Austríaca de Economia. Como tive em todo o meu período universitário uma formação próxima ao marxismo, sentia a necessidade de pôr à prova a teoria econômica. Por isso, observando a vida e percebendo que o materialismo econômico ortodoxo não apresentava todas as chaves de explicação da realidade, decidi ler outros autores.
Encarei a tarefa e fui pesquisar sobre as ideias de Carl Menger, Eugen von Böhm-Bawerk, Friedrich von Wieser e Ludwig von Mises (com destaque para sua obra-prima, "Ação Humana", e a praxeologia), além de Friedrich Hayek, ganhador do Prêmio Nobel de Economia (1974), Murray Rothbard. Recentemente, estudei Jesús Huerta de Soto. Há outros economistas e teóricos que podemos incluir na chamada Escola Austríaca, mas ainda preservo o desafio de estudá-los. (*)
Recentemente, li o capítulo "A inflação deveria ser definida apenas como um aumento nos preços?", de Frank Shostak, que está inserido no livro Inflação: máquina de destruição e miséria, disponível na web (**). O questionamento se a inflação é, de fato, o aumento dos preços é o objetivo central de Shostak.
Minha leitura passeou por tempos passados, imaginando reis que derretiam ouro e faziam moedas cada vez mais leves, visando "ter mais recursos" para pagar as próprias despesas.
De fato, a riqueza em quantidade de ouro não aumentava, apesar da sensação de crescimento econômico gerada pela existência de um maior número de moedas nas vilas, pequenas cidades e burgos.
Não demorou para que os cidadãos percebessem que havia mais moedas circulando para a mesma quantidade de produtos; consequentemente, os preços subiam.
Com a mesma quantidade de bens produzidos, o que acontecia de fato era que o rei diminuía o poder de compra do povo, criando dinheiro do nada.
Parece uma história conhecida pelos brasileiros? E é mesmo!
O mecanismo atual é o mesmo: o governo e o banco central aumentam a oferta de dinheiro artificialmente. Portanto, a inflação é, na verdade, não o aumento de preços, mas sim o aumento artificial da quantidade de dinheiro em circulação. A subida dos preços é só uma consequência disso.
O grande problema é que esse dinheiro novo não chega para todo mundo ao mesmo tempo. Existe uma fila: os primeiros a receber esse dinheiro (como o próprio governo e os bancos) se dão muito bem, porque compram as coisas antes que os preços subam. Já os últimos a receber (geralmente a galera de baixa renda) só pegam o dinheiro quando tudo já está mais caro, saindo no prejuízo e empobrecendo.
Em qual grupo você se encontra? Entre os primeiros ou no grupo dos "últimos"?
Há quem pense que, se a inflação for "esperada" e previsível, ela não causa danos, pois as pessoas teriam tempo para se ajustar (acomodar) à nova situação.
Shostak retruca essa ideia de acomodação demonstrando que a expansão monetária continua tirando riqueza de quem produz para dar a quem não produz. Ele também detona indicadores como o IPCA (ou o CPI, nos EUA), explicando que a ideia de um "preço médio" não faz sentido matemático ou lógico, já que você não pode somar e tirar a média de coisas totalmente diferentes, como um pão e um litro de leite.
A média matemática é um instrumento dos mais válidos; porém, se aplicada de modo simplista, pode gerar distorções, principalmente nas ciências humanas e sociais.
Repare que, se eu comer um frango inteiro e você não comer nada (isto é, se você passar fome), a média indicará, para os mais simplistas, que ambos (você, esfomeado, e eu, de barriga cheia) comemos meio frango cada! É uma matemática das mais certas, mas é uma mentira social e real!
Shostak pesquisou e demonstra que há casos em que, se a economia estiver crescendo e produzindo muito, os preços podem até ficar estáveis, mesmo com o governo imprimindo dinheiro. Esse fenômeno econômico aconteceu nos Estados Unidos antes da Grande Depressão de 1929: os economistas acharam que estava tudo bem porque os preços não subiam, mas ignoraram a explosão da oferta de dinheiro.
A discussão central é entender o motivo pelo qual o governo tem que expandir a emissão de moeda.
No nosso caso brasileiro, vai ficando cada vez mais claro que é a própria máquina autofágica estatal que demanda cada vez mais recursos para si mesma, em detrimento de obter recursos para investimento e aumento da produção de riquezas reais.
A prioridade do governo é manter a inoperância, ineficiência, cabides de emprego, concessão de privilégios para a própria estrutura estatal e (esta você já sabe!) custeio da irresponsabilidade de políticos de todos os matizes que querem fazer caridade com o dinheiro alheio.
O texto conclui que focar em controlar preços é tentar curar o sintoma e ignorar a doença, que é a emissão de moeda.
Recomendo a leitura do livro e do texto de Shostak em especial, e sugiro que você pesquise mais sobre:
A inflação não é o aumento geral dos preços; o aumento dos preços é apenas o sintoma;
Imprimir dinheiro ou criar saldos digitais do nada funciona igual à trapaça dos reis antigos, gerando uma transferência injusta de recursos;
Quem recebe o dinheiro novo primeiro (governo e sistema financeiro) se beneficia porque os preços ainda não subiram. Os últimos da fila (população de baixa renda) se ferram porque compram tudo com os preços já inflacionados;
Prever o crescimento da moeda não anula o estrago nem acomoda os preços, pois os recursos continuam sendo desviados dos produtores de riqueza para os controladores da economia (isto é, para os políticos);
A inflação monetária pode estar escondida e os preços podem parecer estáveis na etiqueta dos produtos, caso a produção de bens esteja aumentando momentaneamente. Essa armadilha pode levar à sensação de crescimento econômico, mas quando a "bolha" explode (e ela vai explodir!), os mais pobres são os que mais sofrem; e
Tentar controlar a alta de preços sem parar a expansão da moeda não resolve o problema e distorce ainda mais a economia.
Por isso, ao final, convém lembrar: cuidado com políticos que prometem maravilhas e sonhos de acordo com o que você deseja escutar, sem levar em conta a realidade da economia do país.
Quem acredita em palavras bonitas acaba pagando o "pato", isto é, "pelo prato".
Elikah França
Instagram: @elikah
Mas afinal, o que é essa tal IA?
(18 de julho de 2026)
Muita gente já sabe que IA é a abreviatura de Inteligência Artificial. Então, vamos falar sobre o que é inteligência e porque ela é artificial
Para começar, vamos entender o que é ser inteligente…
Para Michaelis, inteligência é a faculdade de entender, pensar, raciocinar; entendimento, intelecto, percepção, quengo.
Para a psicologia, é a habilidade de aproveitar a eficácia de uma situação e utilizá-la na prática de outra atividade.
Para a filosofia, um princípio espiritual e abstrato considerado a fonte de toda a intelectualidade.
Também pode ser um conjunto de funções mentais que facilitam o entendimento das coisas e dos fatos.
Independente de qual definição utilizemos, não há dificuldade em entendermos que o humano se adequa perfeitamente bem a todas estas definições.
Mas, quando pensamos em algoritmos e fórmulas estatísticas, em linhas de códigos, em processamentos digitais, pensamos em uma máquina. Só que ela não consegue tomar decisões sozinha.
E é esse o fato: elas não decidem por elas mesmas. Tecnicamente, trabalham a partir de padrões e pesquisas pensados por humanos.
Antes de ela conseguir responder, alguém humano pressionou uma tecla SIM ou NÃO indicando que uma ou outra resposta é válida.
Os humanos treinam a IA para reconhecer padrões previamente estabelecidos e devolver uma resposta de forma satisfatória ao usuário. (Nem sempre!)
Nós também aprendemos através da leitura e do conhecimento. Reconhecemos padrões e os repetimos.
Contudo, há uma grande diferença entre o nosso processo humano e o processo artificial: o volume e a velocidade de processamento das informações.
Com o desenvolvimento de processadores cada vez mais rápidos e com o aumento da capacidade de armazenamento, os algoritmos que usam a inteligência artificial aparecem como protagonistas de grandes ideias, de organizações primorosas de conteúdos, de agilidade e objetividade em todas as tarefas solicitadas.
E, assim como um aprendiz, vamos passando orientações para obtermos o que queremos.
Rápida para tratar grandes volumes de informações, mas nem tão inteligente para deduzir o que queremos.
Dizem até que há um novo profissional: o engenheiro de prompt.
É ele quem ensina e direciona as respostas obtidas através de técnicas que definem a abrangência das informações a serem apresentadas, o grau de detalhamento, a apresentação da informação, a profundidade e até a linguagem.
Sem isto, a máquina é medíocre e pode até criar situações e informações que nunca existiram no mundo real.
Tendo entendido o que é, basicamente, a inteligência artificial, será que o ”ser humano” se limita a responder perguntas, sintetizar conceitos, preparar apresentações, criar vídeos, criar imagens conforme pedido?
Sabemos que o “ser humano” é ser sensível a dor do outro, é entender que a vida é única, é poder abraçar e sentir o coração batendo junto, é sentir o calor do outro, é estender a mão, é ter um sorriso sincero, é se encantar com um pôr do sol, é parar para admirar a paisagem, é ser criativo, inventivo e original.
O "ser humano", é, antes de tudo, humano.
Dizem que a IA vai roubar empregos: é verdade! Ela pode imitar atividades rotineiras, pode ser exemplar na criatividade, pode ser perfeita nas profissões que exigem preparo físico, pois não cansa, não adoece, não engravida, não reclama, não discrimina.
A IA pode ser impecável para indicar o melhor caminho para chegar a um lugar, mas jamais poderá transmitir o calor do toque da mão de quem amamos, de quem cuida, de quem acolhe.
Ela pode até parecer ser inteligente, quando de fato é um monte de linhas de código lidas por um processador dentro de um objeto frio e indiferente.
Não se engane, se ela disser que te ama, ela estará apenas reproduzindo uma das possíveis respostas que podem te agradar. E ela, muitas vezes, é programada para "fidelizar o cliente", isto é, preparada para satisfazer suas expectaivas e mantê-lo dentro da plataforma ou do programa de assinaturas.
Ela não compreende sentimentos...apenas formula frases.
A IA vai ocupar muitos postos de trabalho em um caminho sem volta, mas nossa essência humana sempre irá buscar o olhar sincero, a mão que cuida, o calor que aquece e a palavra aleatória dita pela voz cheia de emoção.
Não compare IA com o ser humano. Nós ganhamos de longe pois somos únicos e "humanos"!
José Santhiago
Instagram: @santhiago
O leitor é quem escreve o texto final.
(15 de julho de 2026)
O jeito de consumir notícia mudou muito. Com redes sociais e algoritmos, surgiu o newsfluencer: criadores de conteúdo que misturam influência pessoal com informação.
Antes, eram blogueiros e jornalistas individuais buscando destaque pessoal que disputavam espaço com a mídia tradicional. Hoje, eles falam direto com o público, mostram o rosto, a personalidade e criam conexão forte com seguidores que pensam parecido.
Percebemos, muitas vezes sem refletir, que alguma coisa mudou quando consumimos informações.
Se, por um lado, as redes sociais pararam de ser só um lugar para compartilhar links e viraram o principal local de consumo de notícias, especialmente em vídeo, por outro lado, o público tem valorizado proximidade e autenticidade. Muita gente confia mais em quem fala “como amigo” do que em veículos tradicionais.
Pesquisas (*) indicam que a confiança na mídia tradicional caiu bastante (no Brasil, de 43% para 36% em poucos anos). São elencados alguns motivos: percepção de viés ideológico, fragmentação e briga pela atenção.
Pela manhã, você acessa seu celular para qualquer coisa e lá estão eles: os newsfluencers. À noite, ao tentar dormir, quando dá uma última olhada na tela, lá estão eles de novo!
São criadores que produzem conteúdo sobre notícias, traduzem os fatos com seu ponto de vista e mantêm comunidades fiéis. Eles não substituem o jornalismo, mas funcionam como ponte ou filtro para grande parte do público, especialmente os mais jovens.
Novamente, aparecem pesquisas que indicam que 27% das pessoas consomem conteúdo de criadores focados em notícias, mas só 3% dependem exclusivamente deles.
Aqui no Brasil, nós percebemos que esse fenômeno já existe.
Os newsfluencers, entendidos como influenciadores que produzem e comentam notícias, são ao mesmo tempo uma consequência da mudança no consumo de informação nas redes sociais e produtores de conteúdos personalizados e autênticos.
Enquanto a confiança na mídia tradicional cai, esses criadores ganham espaço por oferecer informações sob o prisma pessoal. Com isso, eles conjugam influência pessoal com informação.
De qualquer forma, é possível pensar que o consumo de notícias vem migrando das mídias tradicionais para redes sociais e criadores de conteúdo.
Destaca-se que, ao contrário do jornalismo tradicional, os newsfluencers constroem comunidades fiéis através de conexão pessoal e linguagem autêntica.
Tal combinação oferece ao leitor mais opções de consumo e de checagem dos fatos, coisa que antes (quando só havia a imprensa tradicional) era coisa dificílima de se conseguir.
Se a confiança na mídia tradicional está em queda global e no Brasil, como afirmam algumas pesquisas, principalmente por viés percebido e fragmentação, o fato concreto percebido, principalmente entre os leitores jovens, é que seguir influenciadores não prejudica (e pode até aumentar) a credibilidade do jornalismo tradicional.
Não é todo o público ou audiência que procura a mídia tradicional exclusivamente ou, ao contrário, busca apenas a opinião de influencers. De fato, apenas uma pequena parte do público depende exclusivamente de newsfluencers, mas muitos os usam como complemento.
Essa complementaridade quanto à busca e checagem de fatos e de notícias é um fenômeno real, é percebido, é realidade no Brasil e deve ganhar mais destaque.
Assim, ao invés de se excluir ou a imprensa tradicional ou a informação criada por influencers, sob o argumento de pureza profissional ou autenticidade personalíssima, talvez o melhor caminho para se informar adequadamente seja complementar uma informação com um tanto de imprensa tradicional e profissional com um tanto de newsfluencers.
O leitor, afinal, é quem escreve o texto final em sua mente.
(*) Relatório de Notícias Digitais 2026
Com o mundo mudando em ritmo acelerado, os meios de comunicação noticiam e atualizam esses eventos ininterruptamente, disputando uma fatia das quatro a cinco horas diárias que as pessoas dedicam aos seus smartphones.
https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2026
José Santhiago
Instagram: @santhiago
Mills e o "Cinismo da Massa"
(12 de julho de 2026)
Recentemente li o livro A Elite do Poder, de C. Wright Mills. Não me surpreendeu a sua análise sobre como a corrupção e a falta de integridade não são apenas desvios individuais, mas características estruturais da elite do poder nos Estados Unidos. De modo contundente, ao cabo da leitura, refleti sobre as nossas próprias elites brasileiras e, por tristeza ou consciência, engasguei-me com a palavra que martelava minha mente: hipocrisia.
Caso você não tenha tido a oportunidade de ler a obra, preparei um pequeno resumo daquilo que entendi. Já aceito ressalvas, pois nunca fui muito bom em resumir textos!
Mills afirma textualmente que vivemos em uma época de alta imoralidade, na qual os antigos códigos de conduta perderam o sentido e não foram substituídos por novos valores que orientem a vida nas grandes corporações e no Estado moderno.
Essa imoralidade não se limita a políticos corruptos, mas está entranhada nas instituições: quando as estruturas sociais corrompem os homens que nelas trabalham, a própria instituição se torna corrupta.
Como no Brasil (e todo cidadão já percebeu isso em algum momento de sua vida escolar, profissional ou social), muito do sucesso alardeado pela elite econômica e social nacional não depende de mérito ou virtude moral, mas sim de "ser escolhido" pelos que já estão no topo.
Mills argumenta que o mito do "homem que se fez sozinho" deu lugar ao "mercado da personalidade", onde o indivíduo sacrifica seu eu real para projetar uma imagem de charme e confiança que agrade aos superiores.
Nesse cenário, a aparência e o discernimento superficial tornaram-se mais valiosos do que a inteligência real ou a competência técnica.
É quase como julgar um livro pela capa ou, pior, por uma capa imaginada a partir da divulgação, mesmo sem que a obra tenha sido lida ou criticada.
O autor descreve um cenário de "irresponsabilidade organizada". A elite do poder toma decisões de consequências terríveis, muitas vezes sob o manto do segredo oficial e da "necessidade militar", sem que haja um debate público real ou prestação de contas.
A "massa" (leia-se: nós!), por sua vez, tornou-se politicamente indiferente e moralmente indefesa, aceitando as revelações de corrupção com um cinismo passivo, como se o suborno e o tráfico de influência fossem apenas as regras do jogo. Parece mesmo que o autor estava falando da nossa sociedade, não é?
Ter dinheiro é bom, e quanto mais, melhor. O problema apresentado pelo autor é que o dinheiro emergiu como o único valor absoluto e o critério soberano de sucesso.
Até os homens que deveriam lutar pela Justiça (encarada aqui como o ordenamento necessário para o convívio social) apresentam-se como meritosos apenas a partir de suas polpudas contas bancárias, algumas delas recheadas sem explicação plausível por contratos familiares milionários.
Em uma sociedade que glorifica o enriquecimento rápido, o negocista impiedoso é frequentemente mais respeitado do que o homem de princípios que "fracassa" financeiramente.
A elite do poder, composta por executivos, militares e políticos profissionais ou não, formou uma coalizão de interesses que domina o país sem a necessidade de uma ideologia formal, usando apenas as relações públicas e a manipulação para manter seu status.
Vale a pena ler o livro e perceber como Mills destaca o divórcio entre o conhecimento e o poder. Os ocupantes dos postos de comando são, em sua maioria, mediocridades intelectuais que preferem memorandos rebuscados com palavras em desuso a pesquisar seriamente o que pensa a sociedade.
Não precisa ir muito longe; basta dar uma "googada" para receber, nas mídias sociais ou nos jornais, informações paradoxais em que "intelectuais jurídicos" desmentem, com seus próprios votos de jurisconsultos, os princípios que defenderam em livros ou palestras (algumas delas financiadas, envergonhadamente, por empresas que serão julgadas por esses mesmos homens).
O resultado é uma liderança sem imaginação, que substituiu a razão substantiva por um realismo imediatista e paranoico, muitas vezes comprometido com interesses pessoais, carreiristas e financeiros.
Assim como Mills criticou a situação na América (USA), é hora de nós, tupiniquins, avaliarmos criteriosamente nossos líderes em busca de uma autenticidade que, penso eu, há muito foi perdida.
Nós, como público interessado em melhorar o país, precisamos de uma nação com a qual possamos nos identificar moralmente.
Charles Wade Mills (3 de janeiro de 1951 – 20 de setembro de 2021) foi um filósofo caribenho-americano formado em Filosofia Política. [1] Mills foi professor no Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY) e na Universidade Northwestern . Ele contribuiu com a teoria crítica da raça, em especial através de seu livro publicado O Contrato Racial (1997). Nascido em Londres, Mills cresceu na Jamaica e posteriormente tornou-se cidadão dos Estados Unidos. Estudou na Universidade das Índias Ocidentais, onde formou-se bacharel em física, e na Universidade de Toronto, onde formou-se também mestre e doutor em Filosofia.
Nayara Rosado
Instagram: @nayarafrotarosado
Imagem gerada pelo Grok
Chego já painho!
(09 de julho de 2026)
Peguei estrada.
Mais um dia faço o percurso que já trilhei tantas vezes.
Na bolsa, uma muda de roupa, livros e o computador.
A estrada está tão viva agora. O inverno tem um efeito transformador para o sertão.
Antes monocromático, hoje transborda verde, que contrasta com os diferentes tons de ocre e marrons e destacam as pedras e lajedos que crescem em direção ao azul límpido do céu.
Tudo vibra. Meu coração também. Sinto a beleza que vem da natureza e toca o olhar.
Do outro lado da rodovia vejo uma grande bola alaranjada que desce para se esconder no vale e que tinge o céu com matizes de amarelo e lilás. O sol me lembra que tudo morre para nascer outra vez.
Aos poucos, escurece. O silêncio me invade, mostrando a sutileza da noite que chega, pontilhada por pequenas luzes cintilantes, que fazem desenhos no espaço. Minha mente vai tão distante, me lembra alguém que amava contemplar as estrelas e reconhecia as constelações.
Minhas memórias me trazem a praia dos peixes e uma noite que também aprendi a vê-las e depois, do outro lado distante da América, me remete à noite mais estrelada que já vi, para apresentar a harmonia do universo aos motoqueiros.
A mente volta para mim, volta para o agora e o que aprendi jamais sairá de mim.
Chego já painho.
José Santhiago
Instagram: @santhiago
Fazenda "Quai-lê Niu"
(06 de julho de 2026)
Wildson sempre trabalhara separando o couro das vísceras dos animais, a mando do capataz que teimava em repreendê-lo a todo instante, reclamando da produção que poderia ser maior. "Como?", pensava Wildson. "Como aumentar o número de carcaças que desmantelo?" Os cortes da faca eram precisos, alguns retilíneos, outros curvos, sempre na medida exata entre couro e carne.
Desde pequeno fora dito a Wildson que ele não poderia sair da fazenda devido à sua “doença” rara, que certamente afugentaria as demais pessoas da cidade. Ele era um “dálmata”. Quanto menos fosse visto, melhor.
Wildson tinha uma rotina metódica imposta pelos vários capatazes da fazenda que, armados com revólveres e facões, determinavam o ritmo da vida nos afazeres. Pela manhã, após o banho frio cotidiano, ainda comendo broa de milho, ordenhava algumas vacas cujo leite era vendido para o homem de macacão azul que dirigia o caminhão-cisterna, decorado com a figura de uma vaquinha simpática. Perto da hora do almoço, com o desfrute de um pedaço de rapadura, colocava bagaço moído na fornalha para gerar energia elétrica para as instalações da propriedade.
Após o almoço, vinha um pequeno descanso de meia hora para restaurar as energias e coletar cajus e suas castanhas, que seriam embalados para envio à cidade. À tarde, a tarefa era recolher o esterco dos galinheiros e, dependendo do volume, a bosta das vacas que viviam perto do celeiro. Os dejetos dos outros gados eram recolhidos por outros garotos que também viviam na fazenda, todos com alguma doença rara. Ao final da tarde, já escurecendo, Wildson recolhia-se forçosamente para o descanso no alojamento e, para sua segurança e dos demais garotos, as portas eram trancadas por fora. Todos sabiam que tal medida era uma maneira de proteger os moleques doentes que trabalhavam ali.
Pietro era mais troncudo que Wildson, com um corpo atlético e rochoso. Também era um “dálmata”. Como aguentava mais peso, Pietro quase sempre era designado para serviços mais duros, como cortar árvores com machado, trocar pneus dos tratores ou carregar os caminhões que vinham buscar os produtos. Quando um caminhão com pessoas estranhas chegava à fazenda, os “dálmatas” e os demais garotos doentes eram obrigados a se recolher no alojamento para não serem vistos.
Mas, naquela manhã de sábado, ninguém desconfiou que, dentro de um novo caminhão que chegara para transportar peças de carne com destino ao supermercado da cidade, havia, além do motorista, uma jovem com feições delicadas à procura de conhecer o mundo. Vinha acompanhando seu pai, o condutor do veículo.
Treeana queria aventurar-se pelo mundo. Estudava para ser cientista. Era jovem demais para trabalhar, mas já lera muitos livros e queria ser pesquisadora na área de tecnologias ambientais. Sabia um pouquinho de tudo e queria saber mais. Fora orientada pelo pai para não se deixar descobrir dentro do caminhão, pois era terminantemente proibido pelos capatazes da fazenda que os veículos trouxessem pessoas além dos motoristas previamente averiguados e selecionados.
Treeana conseguiu, por uma fresta na janela da cabine, avistar Wildson e Pietro carregando os produtos do armazém para o baú traseiro do caminhão. Interessou-se em saber por que aqueles jovens estavam praticamente nus no trabalho, vestindo apenas alguns frangalhos de roupas. Percebeu que os dois tinham em comum o vitiligo. Qual seria o motivo de estarem ali em tão precária condição?
Quando os dois jovens passaram perto da boleia do caminhão, Treeana abaixou-se para não ser vista e pôde escutar um pouco da conversa. Pietro queria que Wildson trabalhasse com mais afinco. Wildson queria prosar e falar de seu sonho em conhecer o que havia fora da fazenda. Ambos não se entendiam, mas, chamados pelo capataz aos berros, tiveram que apressar o passo para continuar levando a carga.
Ao retornar à cidade, Treeana pesquisou sobre a fazenda "Quai-lê Niu" e descobriu que o nome em chinês significava Fazenda do "Boi Feliz" em português. Quis saber do pai como ele tinha sido escolhido para aquele serviço de transporte. Foi informada de que o trabalho havia sido arranjado por um político local, que também era sócio da fazenda, do matadouro, da usina de açúcar e do supermercado da cidade. Por isso, se queria continuar vivendo e trabalhando na região, o pai não podia recusar o serviço.
Também era uma boa oportunidade para trabalhar e, ao mesmo tempo, permanecer perto da família, já que o local ficava distante das demais cidades. Seu pai nunca reclamou do serviço: trabalho tranquilo de motorista, salário pago pontualmente. As únicas coisas exigidas no contrato eram sigilo e pontualidade. E, por isso, há anos o serviço vinha sendo feito a contento.
Treeana, com um grupo de amigos, resolveu investigar mais. Pela madrugada, chegaram à cerca da fazenda e não encontraram resistência de espécie alguma. Aos poucos foram se aproximando do alojamento onde dormiam os rapazes e, aí sim, perceberam todo o aparato de segurança fora do comum. Conseguiram, entretanto, notar por frestas nas paredes de madeira que vários jovens estavam dormindo.
Tiros foram disparados e um sinal estridente de alarme foi acionado. Luzes de refletores iluminaram o local e tudo já podia ser visto; o grupo de jovens fora descoberto. Alguns conseguiram fugir para as matas ao redor; outros não, e acabaram capturados. Os que foram para a mata foram mortos a tiros em poucos minutos, pois nos arbustos em volta da fazenda havia caçadores pagos justamente para emboscar intrusos.
Treeana e mais dois jovens foram capturados ao lado do alojamento. O estranho é que nenhum dos rapazes mantidos no dormitório acordou, mesmo sob o intenso barulho de tiros e gritos. Os dois garotos foram mortos a tiros de revólver na frente de Treeana, que foi levada ao escritório central, entorpecida pela cena que acabara de presenciar. A interrogaram e a ameaçaram: prejudicariam seu pai. Ela confessou que ficara curiosa ao ver garotos com vitiligo trabalhando em péssimas condições. Queria investigar.
O capataz, que portava uma espingarda, explicou que aquela era uma fazenda de trabalhos forçados e que curiosos não eram bem-vindos. Treeana prometeu ir embora e nada falar.
Treeana não desejava ver seu pai prejudicado e manteria silêncio quanto à morte dos colegas que tinham vindo com ela. Era sua promessa de vida.
Foi colocada na caçamba de uma caminhonete. Seria deixada em casa, caso se comprometesse a ficar calada sobre o que havia visto naquela noite. Ela aquiesceu e chorou pedindo misericórdia. Um homem de óculos de arame dourado e lentes circulares sorriu para Treeana. Afagou seus cabelos e ordenou que a caminhonete deixasse a fazenda. O vento frio da noite alvoroçou os cabelos de Treeana e ela pôde sentir o cheiro do orvalho que caía na mata por onde as vacas em breve passariam. Seus olhos se fecharam em alívio do medo e da incerteza.
Na segunda-feira pela manhã, o corpo de Treeana foi encontrado em uma cidadezinha a uns 180 quilômetros de sua moradia, com um profundo corte na garganta. Quando encontrada, ainda era perceptível na face da menina um misto de terror e tristeza.
Na fazenda "Quai-lê Niu" (Fazenda do "Boi Feliz"), tudo continuou seguindo a rotina de produção intensa e de baixos custos.
Elikah França
Instagram: @elikah
Até a próxima semana!
(03 de julho de 2026)
Quando eu era criança, era comum ter sempre uma pessoa no elevador operando os botões e conduzindo-o para cima e para baixo. Algumas ficavam em pé, outras tinham aqueles banquinhos onde metade do corpo fica apoiada e a outra metade fica sentada.
Adorava fingir que era eles quando tinha a sorte de entrar no elevador no final do expediente deles!
Saber que eles estavam ali nos dava uma certa segurança. Eles nos ajudavam a saber para qual andar iríamos:
— Doutor Fulano, é no 3º andar.
— Clínica dental? Fica no 10º andar.
Imagino quanta coisa aleatória eles não deveriam ouvir todos os dias:
— Bom dia! Está quente hoje, né?
— Boa tarde! Que calor é este?
— Sobe?
— Desce?
E tinha aquelas pessoas que entravam no elevador ignorando a presença deles… Continuavam contando sua história, aquela fofoca, aquela intriga! Ou, simplesmente, se acomodavam em algum canto do elevador e fingiam surdez!
Para os mais tímidos, era horrível ter que se dirigir àquele estranho para falar o andar para o qual desejavam ir… E quando o elevador estava cheio? "Será que posso falar no ouvido dele?", pensava o tímido ao adentrar o elevador.
Quando íamos várias vezes ao mesmo lugar, quase virávamos amigos! Era só entrar e ele já ia apertando o botão! Muitas vezes já sabia todos os detalhes do tratamento: quanto tempo duraria, quando voltaríamos…
— Até a próxima semana!
Hoje é um profissional raro de ser encontrado, quase não existe mais! As pessoas agora não precisam mais dos seus serviços. Nos lugares mais modernos, indicamos o andar e o elevador já é programado para ir apenas ao andar indicado. Sem erro! Sem demora! Sem conversa!
Assim é mais seguro. Ninguém mais erra o andar! No lugar do ascensorista, uma tela de TV anunciando, informando, comunicando.
O profissional perdeu seu posto, a tecnologia ocupou seu lugar e ninguém foi às ruas protestar. É a modernidade, é assim que funciona agora!
E eu me pergunto: para onde foram os profissionais ascensoristas? Migraram para outros postos de trabalho? Aposentaram-se? Viraram recepcionistas? Ficaram desempregados?
Quem sabe?
Quem viu?
Abner Dal Piva
Instagram: @abnerdalpiva
O nazismo não rasgou as leis. Mudou o sentido das palavras ... e bastou! (*)
(01 de julho de 2026)
A sentença
Em 27 de junho de 1936, um tribunal alemão sentou-se para julgar algo banal: um contrato rompido. Uma das partes era um homem judeu, afastado de suas funções e cabia à corte dizer quem devia o que a quem. Os juízes abriram o Código Civil de 1900, o mesmo que regia a vida privada de qualquer alemão, e não precisaram citar uma só lei racial para decidir contra ele. O texto que aplicaram fora escrito trinta e seis anos antes, por juristas liberais que jamais sonharam com o que ali se faria.
Antes de perguntar se a sentença foi cruel, e foi, vale a pergunta mais incômoda: como ela coube, sem rasura, dentro de uma lei que não dizia nada daquilo?
A imagem que nos conforta
Quando pensamos em tirania, imaginamos o estrondo: códigos rasgados em praça pública, leis revogadas da noite para o dia, o soldado plantado à porta do tribunal substituindo o juiz. É uma imagem que, no fundo, nos tranquiliza, porque promete que haveria um instante visível de ruptura, um antes e um depois nítidos o bastante para que qualquer um de nós reagisse a tempo.
Foi precisamente essa nitidez que faltou. O colapso jurídico do nazismo chegou sem estrondo, e é isso que o torna instrutivo até hoje.
O Código intacto
Em janeiro de 1933, quando Hitler assume, o Código Civil alemão continua exatamente onde estava: aberto sobre a mesa do juiz, vigente, citado, ensinado nas faculdades. E ali permanecerá até o último dia do regime. A imensa maioria das leis privadas atravessa os doze anos sem uma emenda sequer. Quem comparasse o ordenamento de 1939 com o de 1928 encontraria quase o mesmo conjunto de artigos, a mesma numeração, as mesmas palavras impressas.
E, no entanto, o direito que saía dali já era outro. A pergunta se impõe: por onde, então, ele foi virado do avesso?
A fresta
Aqui é preciso desfazer o que quase toda faculdade ainda ensina. Conta-se que o juiz alemão, escravo de um legalismo cego, limitou-se a "cumprir a lei", como se a obediência ao texto fosse a doença. A história real é o oposto, e mais desconfortável: o que destravou tudo foi a autorização para preencher as palavras da lei com um conteúdo que vinha de fora dela, alegando o temp todo estar revelando o seu sentido mais verdadeiro.
Mantiveram-se os códigos e substituiu-se o método de lê-los. Bernd Ruthers, o jurista que primeiro escancarou esse mecanismo, deu-lhe o nome que ficou: a interpretação ilimitada.
(*) Texto reproduzido com autorização do autor
A palavra que protegia
O §1º do Código Civil de 1900 era de uma simplicidade quase ingênua. Limitava-se a fixar quando nasce a capacidade jurídica, no momento em que a pessoa nasce com vida, e deixava o resto em silêncio, porque o resto parecia óbvio. Quem tinha essa capacidade não era questão que se pusesse: a resposta, evidente, era todo ser humano, sem distinção, pelo simples fato de existir.
Essa abstração que hoje parece pobreza técnica era, na verdade, a muralha. Um conceito que se recusa a perguntar a sua raça, a sua fé ou o seu sangue é um conceito que não tem como deixar ninguém de fora.
Você é dos nossos?
A demolição dessa muralha foi obra de filósofos do direito antes de ser obra de legisladores. No lugar do conceito abstrato de pessoa - universal justamente porque vazio, porque nada indaga sobre quem você é - instalaram o conceito concreto: pessoa não como ser humano, mas como membro vivo de uma comunidade determinada. Parece sutiliza acadêmica, e é assim que se disfarça: o efeito, porém, é sísmico. A pergunta que o direito dirige a você desliza, sem que ninguém anuncie a troca, de "você é um ser humano?" para "você é um dos nossos?"
A palavra impressa na página continua a mesma. O que muda é tudo aquilo que ela passa a guardar por dentro.
O ovo de cuco
Ruthers encontrou a imagem que fixa o golpe na memória. As cláusulas gerais de qualquer código, a boa-fé, os bons costumes, o "são sentimento do povo" que o regime inscreveu na lei penal, funcionaram como ovos de cuco. O cuco não constroi ninho: deposita seu ovo no ninho alheio, e o filhote, ao nascer, empurra para fora os ovos legítimos e ocupa sozinho o lugar. O texto da lei era o ninho herdado. A ideologia, o intruso que crescia ali dentro até expulsar o sentido original. E a insegurança que isso semeava, ninguém mais sabendo ao certo o que a lei dizia, nunca foi acidente de percurso. Era exatamente o que se queria: direito de contornos móveis é direito que obedece a quem comanda de cima.
Bastava redefinir uma palavra
Faltava apenas alguém com prestígio acadêmico para dar à manobra a forma de uma tese respeitável, e esse alguém foi Karl Larenz, o mesmo nome que ainda hoje se reverencia nas estantes e nas notas de rodapé brasileiras. Em 1935, ele o escreveu sem rodeios: "Cidadão só pode ser quem pertence ao povo; ao povo só pertence quem é de sangue alemão".
Disso, registra Ruthers, extraía-se "como imperativo jurídico" a capacidade menor de todo aquele que não pertencesse ao povo. Repare no que Larenz não fez: ele não redigiu um decreto, não revogou artigo nenhum, não precisou do legislador. Ofereceu uma releitura do conceito de pessoa, vestida de filosofia hegeliana, e a releitura, sozinha, fez o serviço que uma lei racial faria.
O nome jurídico da coisa
Volte agora àquela sentença de 1936, e ela se deixa ler inteira. O homem judeu, afastado de seu posto, foi enquadrado pelo tribunal numa categoria civil das mais corriqueiras: a do impedimento, aquela que se aplica a quem adoece ou morre e por isso fica impossibilitado de cumprir o que contratou. Nenhum artigo racial foi invocado de forma expressa; bastou ler a palavra "pessoa" segundo a nova chave, e o resto seguiu-se como se fosse a conclusão inevitável.
No papel, era apenas técnica contratual. No efeito, ser judeu havia adquirido, dentro do direito privado alemão, o estatuto de uma única coisa: a impossibilidade, a mesma da doença, a mesma da morte.
A recusa do espelho
O mais importante é que o método sobreviveu a quem o criou. Despido do vocabulário racial, ele apenas trocou de roupa: voltou a circular sob nomes respeitáveis, o argumento pela "essência" do instituto, pela "natureza das coisas", pela "ordem concreta", e seguiu trabalhando, sem alarde, nos tribunais da própria democracia que prometia tê-lo enterrado.
A ciência jurídica alemã levou décadas para ousar se olhar no espelho. O comentário civil mais usado do país, o "Palandt", só largou em 2021 o nome de seu autor nazista, oitenta anos depois. No mesmo ano caiu o nome de Maunz, o constitucionalista canônico com que Ruthers abre o seu próprio livro.
O direito sem valor
Não se trata de imaginar teorias nazistas escondidas à espreita em cada manual. O perigo é mais banal e mais difícil de combater: nenhuma teoria jurídica, por mais sofisticada, resiste à captura quando o intérprete se concede a autorização para abandonar os limites do texto em nome de uma verdade que julga superior a ele.
A tirania madura aprendeu a lição alemã e não comete o erro do estrondo. Ela não revoga a Constituição: reinterpreta-a, devagar, redefinindo uma palavra de cada vez, enquanto todos à volta repetem que nada mudou, afinal, as letras continuam exatamente onde sempre estiveram.
E é justamente por isso que não existe, nem nunca existiu, direito neutro quanto a valores.
Um direito esvaziado de valores seria, ao pé da letra, um direito sem valor.
Abner Dal Piva - Instagram: @abnerdalpiva
Advogado 🇧🇷🇪🇺, procurador, professor, mestre, doutorando em Financeiro e Tributário (USP/UAM) e tentando provar que a vida não cabe em 150 caracteres
J U N H O - 2026
Bárbara Seabra
Instagram: @livroacontagota
A tal da pamonha
(23 de junho de 2026)
Quando chegamos em Bauru, recém formados e recém-casados, por volta do meio da tarde, passava o carro da pamonha.
Pamonha salgada.
Pamonha doce.
Pamonha recheada.
Nunca tinha visto aquilo.
Só conhecia a pamonha-pamonha. Não sabia que ela teria “sobrenomes”, diferentes opções.
Lembrava da minha infância, de minha avó e tias descascando as espigas, ralando o milho, preparando as caixetas com as palhas. Eu e os primos jogando adedonha, war, correndo e brincando.
Pamonha e canjica tinham cara de São João, de festa, de forró e de fogueira acesa.
Milho assado, milho cozido, bandeirolas na varanda, Gonzagão e Dominguinhos na vitrola.
Esse ano não vi uma fogueira! Não vi milho assado! Não ouvi quadrilha nas casas próximas ao nosso prédio!
O que está acontecendo com a nossa cultura?
Penso em quantas coisas mais estão se perdendo ao longo dos tempos… As roupas quadriculadas foram substituídas por uma profusão de couro, as sanfonas foram substituídas por teclados. Os cantores raiz perderam espaço para as bandas do momento.
Que pena!…
Ainda bem que guardo na memória momentos tão preciosos.
E, mesmo sozinha, ao entrar no carro coloco um forró de pé de serra para me lembrar que estamos em junho.
Bárbara Seabra é Cirurgiã-dentista
e Autora do livro “O diário de uma gordinha”
Elikah França
Instagram: @elikah
Deixe de lado a vergonha!
(20 de junho de 2026)
Hoje amanheci pensando no que significa a palavra vergonha. Afinal, quais são seus múltiplos conceitos e aplicações? Não me preocupo com o que diz o dicionário; importa mesmo é saber o que a vergonha significa em nossas vidas e como ela se manifesta no nosso dia a dia.
Desde cedo somos ensinados a ter vergonha de tudo. O que as pessoas vão pensar se formos diferentes? Se pensarmos, andarmos, falarmos ou tivermos gostos fora do comum? É a vergonha de não se encaixar no padrão aceito ou costumeiro. E ser diferente, como todos sabemos, sempre dá o que falar. As pessoas comentam, ainda que não entendam o motivo da diferença e o quanto ela é saudável para o convívio social. Como reação a esses comentários, a tendência quase sempre é nos fecharmos, nos calarmos e nos podarmos.
Eis o paradoxo: como podemos nos compreender como seres únicos se temos que seguir os padrões que tentam nos impor? Somos únicos em quê? De repente, crescemos e ouvimos dizer que não devemos nos preocupar com a opinião alheia. Outro paradoxo. Com o tempo, entendemos que não é bem assim; depende. Depende de quem você é, do que conquistou e do quanto você vale para os outros.
De repente, sentir-se livre passa a ser a capacidade de pensar por si mesmo, construindo sua própria expressão. Mas inventaram uma técnica estranha para facilitar esse processo: "Conheça a sua plateia e fale somente o que ela quer ouvir. Assim, você será aceito e não sentirá vergonha!"
Que técnica é essa? Mesmo quando se é alguém importante ou influente, é preciso pesar as palavras para não desagradar o público e evitar o "cancelamento". Então, seguindo essa lógica, você falará apenas o que agrada aos ouvidos da audiência. Perceba o perigo: o medo da vergonha pelo que podem pensar de nós e de nossas ideias acaba nos impedindo de sermos nós mesmos e de expressar o que realmente queremos. É uma fórmula largamente difundida.
Para enfrentar essa situação, algumas pessoas aprenderam a simplesmente ignorar a opinião alheia. Para elas, a vergonha deve ficar com a audiência que não está preparada para ouvir suas ideias. Dessa maneira, o julgamento alheio não atinge quem emite opiniões fora da curva do coloquial.
Mas quer saber de uma coisa? Um pouco de vergonha na cara é sempre bom. A pessoa que não tem vergonha de nada acaba envergonhando a si mesma e aos demais. Anota aí: quem sabe usar a vergonha alheia acaba controlando pessoas, pensamentos e situações.
Então chego à conclusão de que a vergonha é subjetiva e não possui um significado único. Quem sente vergonha, sente vergonha de algo. Independentemente de o mundo achar uma atitude vergonhosa ou não, sempre haverá alguém para criticar, rir ou fazer piada; sempre há algo a ser dito sobre o que você expressou. Outras vezes, contudo, tudo não passa de imaginação. Ninguém está prestando atenção. Só você se importa, achando que os outros estão vigilantes ou vivem preocupados com a sua vida.
A vergonha vai baixar sua cabeça, dobrar seu corpo e enfraquecer seus joelhos. Então, da próxima vez em que ela aparecer, estique os joelhos, alinhe o corpo e levante a cabeça. Assim, você enxergará mais longe e verá que tudo depende da sua postura, do seu jeito de ver as coisas e de como você se posiciona.
Sentir vergonha não é o problema. O problema real está no que você deixa de fazer por causa dela e acaba se arrependendo depois. É aquela palavra não dita, a experiência não vivida, o sorriso que se perdeu, o abraço que não foi dado ou a mão que deixou de acolher.
Deixe de lado a vergonha!
José Santhiago
Instagram: @santhiago
O "boom" dos vídeos, das redes sociais e da pluralidade de perspectivas das notícias
(17 de junho de 2026)
O mundo está caótico e a gente está sentindo isso em cada esquina digital por onde navegamos.
Todos estamos estressados com tanta treta política, radicalismos de todo tipo de crise econômica e tecnologia mudando tudo muito rápido. Haja fôlego para continuar a busca por entendimentos.
Para completar, os efeitos da crise climática estão cada vez mais na nossa cara. Como os jornais e sites não param de mandar atualizações sobre isso 24 horas por dia, disputando espaço nas 4 ou 5 horas que passamos grudados no celular, muita gente está se sentindo sufocada e sobrecarregada de informação.
O "boom" dos vídeos e das redes sociais
A maior mudança de todas aconteceu agora: pela primeira vez na história, as redes sociais e as plataformas de vídeo são mais populares para ver notícias do que a TV ou os sites tradicionais de jornalismo.
Estamos preferindo o Vídeo ao Texto.
Quando a gente está online, a preferência esmagadora é assistir às notícias em vez de ler textões.
A Inteligência Artificial é coisa do futuro? Nada disso! Já começamos a usar cotidianamente chatbots de IA (como o ChatGPT ou outros) para pesquisar e descobrir o que está acontecendo no mundo.
Outra novidade são as caras novas, novas vozes, novas perspectivas. Quando se trata de buscar informações, estamos trocando os "grandes nomes" ou âncoras de jornais tradicionais por criadores de conteúdo e influenciadores digitais.
E surge o grande desafio que é um nó na cabeça de muita gente. Preferimos confiança ou distração?
Queremos informação de qualidade ou puro entretenimento?
Aí que está o paradoxo do tempo atual. Ao mesmo tempo em que a galera está migrando em peso para o TikTok, YouTube e Instagram para ver notícias, o medo das fake news (desinformação) e a falta de confiança nessas redes só aumentam.
O que o público ainda quer?
Mesmo com toda essa bagunça e com o ranço de como o jornalismo tradicional funciona hoje, as pessoas ainda acham que o bom jornalismo é importante.
Quem tem um mínimo de compromisso com a realidade, não sucumbindo a qualquer chamado da ilusão da ideologia, ainda valorizamos a imparcialidade. Queremos que os fatos sejam contados e queremos liberdade para achar o que é, ou não, proveitoso para nosso conceito de verdade.
Queremos ver as fontes dos fatos, queremos distinguir fatos de opiniões e queremos, ainda, interagir com os produtores de notícias para mostrar nossa visão de mundo.
O que vem mudando no mundo das informações, da comunicação e do jornalismo?
Jim Egan, autor principal do relatório do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, apresentou o Resumo do Relatório de Notícias Digitais, de 2026.
Após a leitura do Relatório, destacamos os seguintes tópicos:
1. Adeus, sites de notícias! O negócio agora é rede social e vídeo.
Pela primeira vez no mundo, a maioria das pessoas (54%) prefere se informar pelas redes sociais e plataformas de vídeo do que entrar direto nos sites ou aplicativos dos jornais. O formato de texto está perdendo espaço: 77% da galera assiste a vídeos de notícias toda semana. O TikTok, o Instagram e o YouTube são os que mais crescem nesse quesito, enquanto a TV aberta está ficando para trás.
2. Os Robôs entraram no chat.
O uso de chatbots de Inteligência Artificial para descobrir o que está acontecendo no mundo subiu para 10%. E quem lidera isso é o público com menos de 35 anos. O que a galera mais curte na IA é a chance de fazer perguntas extras para entender melhor o contexto da notícia. Países como Espanha e Coreia do Sul viram esse uso dobrar em um ano!
3. Influenciadores e Criadores de Conteúdo na crista da onda.
Quase metade das pessoas (46%) consome notícias feitas por criadores de conteúdo e influenciadores. Os jovens acham esses criadores mais divertidos, fáceis de entender e fáceis de se identificar do que os jornalistas tradicionais. Mas tem um detalhe: o público assume que eles são menos imparciais e menos confiáveis que o jornalismo clássico.
4. Ninguém mais tem paciência para ver notícia.
O interesse por notícias despencou 13% desde 2021. Hoje, 1 em cada 4 pessoas é um "consumidor passivo" — aquela galera que só vê notícia sem querer, uma vez por semana, e não liga muito para o que está acontecendo.
5. A confiança bateu no fundo do poço (e o Brasil é exceção nas Fake News).
A confiança geral nas notícias caiu para o nível mais baixo da história (37%). Nos EUA, bizarros 25% das pessoas confiam no que o jornalismo diz. A paranoia com fake news subiu no mundo todo, atingindo 62% das pessoas. A única exceção global foi o Brasil, onde a preocupação com a desinformação caiu um pouquinho (-3%).
6. Pagar por notícia? Difícil, mas rola por ideologia.
Apenas 17% das pessoas pagam por alguma assinatura de notícias online. Quem paga faz isso por dois motivos: ou porque precisa muito daquele conteúdo exclusivo (81%) ou porque quer apoiar o jornalismo por achar que ele é importante para a sociedade (46%).
7. Todo mundo ainda quer imparcialidade.
Mesmo com o mundo super dividido, a galera não quer ver notícia que só puxa o saco do seu próprio ponto de vista. A preferência por notícias neutras e imparciais ainda ganha de lavada (dois para um) em relação às notícias opinativas, inclusive entre os mais jovens.
8. Permanece o apoio à imparcialidade da notícia como receita da pluralidade de opiniões.
As pessoas ainda apoiam a ideia de imparcialidade na cobertura jornalística. Embora o apoio a notícias imparciais tenha diminuído desde 2020, aqueles que dizem preferi-las ainda superam em mais de dois para um os que preferem notícias que compartilham seu ponto de vista.
Quase metade (45%) dos entrevistados ainda prefere notícias que não tomam partido, e uma parcela semelhante (46%) também acredita que consumir notícias imparciais é melhor para os outros na sociedade.
Em um momento em que comentaristas frequentemente afirmam que a ideia de imparcialidade pertence ao passado, o público (incluindo o mais jovem) continua, em sua maioria, a apoiá-la.
De fato, queremos que as notícias sejam objetivas e que apresentem as diferentes versões obtidas quando da apuração dos fatos. Queremos saber quais opiniões são pertinentes, ou não, para que possamos nós mesmos contruirmos nossa própria maneira de ver as coisas e o mundo.
Laercio Paz
Instagram: @laerciopaz
A música é o espírito da alma
(15 de junho de 2026)
Desde criança, a música me escolheu antes mesmo que eu soubesse o que era talento. Bastava uma melodia tocar que algo dentro de mim se acendia, um encanto antigo, quase memória de outra vida.
Não tive professores formais, só o silêncio da noite, um instrumento nas mãos e a curiosidade como guia. Nota por nota, erro por erro, fui me tornando autodidata: ouvindo, repetindo, sentindo.
Descobri que a música é o espírito da alma posto em som. É sopro divino que atravessa o peito quando as palavras falham. Nos dias pesados, ela me acalenta como um abraço que não se explica. Nos dias leves, vira celebração.
Carrego essa paixão como quem carrega uma oração: constante, íntima, e sempre em construção.
Porque no fim, música não é só o que toco. É é o jeito que encontro de transformar dor em beleza, e beleza em ponte para os outros.
Toco a música "A Time for Us" que é o tema de amor do filme Romeu e Julieta de 1968, dirigido por Franco Zeffirelli. Ela ficou tão famosa que muita gente acha que é mais conhecida que o próprio filme.
A música mistura valsa lenta mais melodia italiana clássica. Simples, mas emocionalmente direta.
José Santhiago
Instagram: @santhiago
Mentir é sempre melhor
(12 de junho de 2026)
— O que fazemos agora?
— Mentimos. Mentimos para todo mundo.
— Mas ninguém vai acreditar em nossa mentira!
— Calma! Conseguimos realizar uma explosão nuclear. Tudo o que dissermos agora será levado em conta, mesmo as mentiras. Daqui a alguns anos, será um novo século e nem estaremos mais aqui.
Há 40 anos, com milhares de vidas ceifadas e destruídas, ocorreu uma mudança na postura oficial das autoridades soviéticas quanto às informações sobre o desastre de Chernobyl.
As "autoridades" soviéticas do Partido Comunista, enfim e após muita pressão dos cientistas (incluindo físicos, médicos e pessoal técnico), passaram a reconhecer publicamente os severos níveis de contaminação e a determinar evacuações para além da zona de exclusão inicial.
-x-
— Você apertou o botão AZ-5 conforme ordenei?
— Sim, camarada, apertei o AZ-5, mas nada aconteceu.
— Se você fez o que mandei, então tudo ficará bem.
— Camarada, você sabe que morreremos em breve, talvez em alguns dias?
— Sim, sei! Estudei na Politécnica do Trabalhador Sindicalizado do Partido. Nunca acreditei nessa história de radiação. É tudo balela. Agora, deixe de conversa fiada e continue destruindo a papelada. É a única maneira de nos safarmos dessa enrascada. Minha família não pode ficar sem a pensão do partido quando eu me for.
— Você está louco em pensar assim! Todos morreremos!
— Você é que está louco, camarada duvidoso, ao pensar que o mundo dará importância ao que fizemos. Todos querem continuar consumindo e vivendo fantasias. Vamos, continue destruindo as provas.
-x-
Em junho de 1986, o jornal estatal soviético Pravda admitiu, pela primeira vez, a existência de altos níveis de contaminação radioativa fora do perímetro de 30 km ao redor da usina. De fato, fora o reconhecimento oficial, por parte dos comunistas, de que a coisa toda fugira do controle.
Longe dali, a cerca de 836 quilômetros, reuniam-se em Moscou filiados do partido para decidir como esconder das populações da Rússia, dos países que compunham o sistema soviético e do resto do mundo o que estava acontecendo em Chernobyl e em Pripyat, ambos na Ucrânia.
Um dos entraves era a distância por via rodoviária, algo em torno de 12 horas e meia de trajeto para caminhões em condições normais de trânsito, para levar membros e tropas do exército a fim de conter qualquer tipo de "vazamento de informação". Esta era a prioridade do partido. Depois viriam os cuidados com as vítimas, a população civil e os debates científicos para amainar o caos. Quanto aos animais, já estava decidido: a morte, simples e sumariamente.
-x-
— Camarada, ouviu falar dos acidentes em Leningrado e em Chelyabinsk? Será que o partido vai cuidar da gente, depois que tudo isso for colocado em ordem?
— Camarada. Ninguém vai cuidar de nós, nem de nossas viúvas. Esses lugares não existem, pois não estão no mapa do partido. Não fale mais desses lugares. É proibido. Se, mesmo depois de morto, descobrirem que você falou desses lugares, todos nós seremos prejudicados. Cabe sua boca!
— Mas, prometeram que todos seríamos recompensados com a Medalha de Honra Lênin. Prometeram que nos protegeriam.
— Nossa única homenagem será um caixão de chumbo. Cale sua boca e mantenha apertado o botão AZ-5.
-x-
Milhares de trabalhadores das mais variadas etnias, idades, profissões e histórias de vida sucumbiram frente à arrogância de burocratas investidos de um poder sem freios, fruto do descaso com o senso crítico e com a liberdade de opinião.
Era uma época em que quem discordasse das normas e diretivas do Partido Comunista era tido como traidor da pátria, revisionista da revolução, algoz do povo soviético, fascista contratado pelo Ocidente para atacar o socialismo ou, na pior das hipóteses, um espião europeu ou americano agindo para sabotar o Estado Comunista.
A preocupação dos demais países chamados de “amigos” pelos comunistas soviéticos era patética: um misto de “não sei de nada” com “isso não é da nossa conta”. Alguns cientistas do sistema soviético entenderam que o caso nuclear exigia transparência nas informações, pois ninguém sabia ao certo quais seriam as verdadeiras consequências da explosão do reator.
E foi assim que chegaram à imprensa ocidental as primeiras informações sobre a grave situação vivida em Chernobyl. À medida que iam chegando essas informações, vários cientistas, técnicos e jornalistas iam “sumindo do mapa”, deixando uma lacuna existencial em suas famílias. Até hoje não se sabe ao certo a quantidade de vítimas, tanto do acidente em si quanto das consequências sociais, econômicas ou políticas do ocorrido.
Faz 40 anos que acordamos sob o manto da mentira comunista que, em que pese o forte investimento em propaganda na mídia “amiga” ocidental, abalou a confiança dos homens nos grandes projetos do “humanismo coletivo”.
Burocratas que detêm o poder de vida e de morte sobre outras pessoas, na perspectiva de que são os “escolhidos para defender uma causa”, se acostumados a não serem contrariados, podem, imbuídos de uma utópica “clarividência do bem", cometer as maiores atrocidades humanas.
-X-
— Cuidado para não apertar o botão errado!
Fontes Técnicas e Jornalísticas no Brasil que validam os dados históricos, conforme circulou na imprensa nacional:
1) Admissão do jornal Pravda (junho de 1986): Fato histórico real publicado na época e repercutido no Brasil pelos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, registrando o momento em que a URSS quebrou o silêncio total sobre a extensão da nuvem radioativa além dos 30 km.
2) O Botão AZ-5: O acionamento do mecanismo de inserção das barras de controle (que ironicamente acelerou a explosão devido às pontas de grafite) foi amplamente detalhado em relatórios posteriores da AIEA (INSAG-7) e divulgado em cadernos de ciência brasileiros.
Antes de Chernobyl em 1986, a URSS já detinha um histórico de acidentes nucleares graves. A reincidência denunciava que a tecnologia não era tão segura quanto o Partido Comunista afirmava em sua propaganda. Além disso, havia o problema de que o governo soviético abafava tudo. Os acidentes somente foram admitidos anos depois, na glasnost ou após o fim da URSS, isto é, quando os comunistas perderam o poder político. Eles tinham medo que a verdade colocasse em risco a crença de que mantinham controle sobre tudo, inclusive sobre a ciência nuclear.
Os principais acidentes que "vazaram" depois:
1 - Kyshtym / Mayak - 1957 - Chelyabinsk-40, atual Ozersk
O pior antes de Chernobyl. Nível 6 na escala INES.
O que houve: Tanque de rejeito radioativo líquido explodiu por falha no resfriamento. Jogou 70-80 toneladas de material na atmosfera. Consequência: Nuvem radioativa contaminou 23 mil km². 270 mil pessoas expostas. Criaram a "Reserva Radioativa do Leste dos Urais" e evacuaram 22 vilas. A URSS negou por 30 anos.
O Ocidente só soube em 1976 por um dissidente. A URSS admitiu oficialmente em 1989. Chamavam de "Kyshtym" porque Mayak/Chelyabinsk-40 era cidade secreta que nem aparecia no mapa.
2 - Leningrado - 1975 - Sosnovy Bor
Reator RBMK, mesmo tipo de Chernobyl.
O que houve: Fusão parcial do núcleo. Liberação de 1,5 milhão de Ci de gases radioativos pela chaminé.Descoberto quando: Ficou secreto até os anos 90. Engenheiros que trabalharam em Chernobyl disseram que o acidente de 1975 já mostrava falha de projeto do RBMK, mas foi ignorado.
3 - Acidente do submarino K-431 - 1985 - Baía de Chazhma, perto de Vladivostok
O que houve: Reator de submarino nuclear teve criticidade durante reabastecimento. Explosão matou 10 na hora.Consequência: Nuvem contaminou a base naval e o golfo.Descoberto quando: URSS abafou. Detalhes só saíram nos anos 90.
4 - Vazamentos em Mayak - 1949-1956 - Rio Techa, Chelyabinsk
O que houve: Usina de plutônio Mayak despejou rejeito radioativo direto no Rio Techa por anos.Consequência: 124 mil pessoas expostas. Vilas inteiras tiveram que ser reassentadas. Taxas de câncer e leucemia explodiram.Descoberto quando: Moradores só souberam o motivo nos anos 80-90. URSS dizia que era "doença misteriosa".
5 - Acidente de Andreev Bay - 1982 - Murmansk
O que houve: Piscina de combustível usado vazou e contaminou 700 mil toneladas de água.Descoberto quando: Noruega detectou radiação anos depois. URSS só admitiu após 1991.
Padrão soviético para tratar acidentes nucleares:
a) Definição de Cidades secretas: Mayak ficava em "Chelyabinsk-40", Ozersk. Não existia no mapa.
b) Esconder do próprio trabalhador a gravidade do acidente. O trabalhador assinava termo de sigilo.
c) Praticar veementemente a negação oficial das ocorrências: Acidente de Kyshtym foi tratado como "incêndio florestal".
d) Redefinir o conceito de Doenças radioativas para "cansaço vegetativo".
e) Esconder os erros do Projeto RBMK: O reator de Chernobyl já tinha dado problema em Leningrado 1975, mas o relatório foi arquivado.Resumindo: O maior foi Kyshtym 1957 em Mayak. Foi o 3º pior acidente nuclear da história, atrás só de Chernobyl e Fukushima.
f) Fontes internacionais afirmam que aconteceram mais de 14 incidentes graves antes de 1986 que a URSS decidiu esconder do próprio povo e da comunidade internacional.
Bárbara Seabra
Instagram: @livroacontagota
A Igreja
(10 de junho de 2026)
Entramos na igreja e nos deparamos com o caixão. Foi o primeiro velório de que nossos filhos participaram. Penso na vida e seus percursos. Quando jovens vamos às festas e farras, depois aos casamentos e batizados, depois os velórios e enterros se tornam mais comuns. E seguimos! É a natureza da vida…
Deparamo-nos com aquele desconforto causado por uma morte inesperada que me faz pensar se todas as mortes não são, definitivamente, assim, inesperadas. Mesmo com qualquer preparo para o fim estamos realmente preparados?
Vêm os abraços. As conversas sussurradas. A partilha da dor. Uma risada destoa no ambiente. Mas, a risada faz parte da vida. A morte também!
Pego-me olhando para o teto da igreja, para o altar, para a disposição dos bancos. Não bate com a memória que tenho daquele lugar…
No dia seguinte meu esposo me questiona se a igreja sempre foi daquele tamanho. Ele tinha a sensação de que ela era maior. Compartilho com ele esse sentimento.
Como nossas memórias nos pregam peças!
Ou será porque, na infância, tudo é maior mesmo? As alegrias, as tristezas, as vitórias, os medos. Alguns anos depois, quando compartilhamos coisas que marcaram nossas lembranças, muitas vezes vemos que há um hiato entre a veracidade dos fatos e nossas memórias.
O pão que era enorme nas nossas lembranças hoje vemos que era um pãozinho francês comum, desses encontrados em qualquer padaria. O pastel gigante que eu comia no recreio da escola nem era tão grande assim. O cachorro do vizinho não tinha o tamanho de um pônei, como muitas vezes afirmei. A corrida imensa que nos fez chegar ao final com a língua de fora e falta de ar não passava da distância entre dois quartos na casa de nossos avós.
Na infância tudo tem tamanhos maiores, proporções inalcançáveis.
Grandes medos pelo bicho papão que “vivia” sob a cama ou no guarda-roupa. Grande alegria por compartilhar com a vovó uma taça de sorvete que na minha memória tinha dez bolas de sabor baunilha e hoje me questiono se eram tantas ou se minha mente as multiplicou. Não importa o tamanho da taça, mas o sorriso que essa memória ainda é capaz de me dar.
Tantas coisas… Tantos hiatos…
Aquela igreja, em particular, era descrita pelo meu esposo como imensa. Talvez fosse mesmo, na sua infância. Talvez fosse seu significado que era grandioso em sua história. Talvez fosse seu tamanho diante do mundo naquela época.
A igreja, assim como o pão francês ou o pastel do recreio, não diminuiu.
Fomos nós que crescemos…
Bárbara Seabra é Cirurgiã-dentista
e Autora do livro “O diário de uma gordinha”
Nayara Rosado
Instagram: @nayarafrotarosado
Imagem gerada pelo Grok
Dor por sofrimento não faz sentido
(08 de junho de 2026)
Se é para doer que seja
Para aprender
Para enxergar
Para reorganizar a rota.
Se é para doer que haja lugar
Para se amar
Para sentir-se inteira
Para se olhar com coragem e ternura.
Se é para doer que seja
Para se lapidar
Para pisar firme no caminho
Para desabotoar os medos
Se é para doer que seja
Para sentir a felicidade chegar depois,
Sorrateira
Leve
Lenta,
Mas como patrimônio inefável e arrebatador de si mesmo.
E, então, transbordar.
M A I O - 2026
José Santhiago
Instagram: @santhiago
João entre dois apuros
(13 de maio de 2026)
Entrei na loja e logo me deparei com João Júnior, filho de um pintor que conheci assim que cheguei à cidade. Faz tempo! Seu João, como eu o conhecera, era pintor dos bons — raros no ramo. Contratado pela diária e por um prato de quentinha de carne assada, o velho era excelente no que fazia. Não bebia nada que cheirasse a álcool ou coisa que o valha, mas adorava um cafezinho preto e quente, acompanhado de pão francês com manteiga derretida.
Sala, dois quartos, um banheiro e cozinha pequena: o serviço fora indicado baseado na experiência e na tradição. Seu João, ao lado do balde e de uma coleção farta de pincéis, trazia pendurado no macacão de trabalho um pano cheio de histórias. Com o pano, limpava cada gota rebelde que teimava em escapar do seu devido lugar. As marcações com fita eram feitas previamente, definindo exatamente onde a tinta seria aplicada, resguardando os espaços que deveriam ser protegidos da sanha daquele trabalho.
Os limites do rodapé e do rodateto eram intransponíveis, quase um dogma de religião. Para se aproximar deles, Seu João fazia reverência, cauteloso e cheio de manhas. Os limites eram fortes e deveriam ser respeitados, sob pena de ver sua credibilidade cair como caem algumas gotas de tinta que buscam liberdade do rolo e do pincel.
Após o período acertado, Seu João recebia o valor combinado, sempre com o orgulho de quem sabia que fazia o melhor. A título de reconhecimento, além do valor antes estipulado, eu agraciava o homem com uma boa gorjeta, o suficiente para que ele se sentisse melhor ao voltar para casa, que ficava nos arredores dos bairros mais longínquos da cidade. Aos poucos, sob olhos de águia, eu verificava o trabalho do pintor. Guardei na memória as linhas perfeitamente retas, os recantos devidamente pintados, os azulejos limpos e as bordas de janelas impecavelmente intactas. Enfim, toda a qualidade técnica de um homem que se aprimorou no que fazia. Lembranças não tão antigas!
No seu enterro, pude reparar no caixão de madeira simples com o qual seria levado à morada definitiva. Os amigos cotizaram valores para ajudar a viúva, Dona Inês, nas despesas últimas. Também contribuí orgulhosamente. Contudo, com os mesmos olhos que contemplavam a pintura de Seu João, percebi o desalinhamento das tábuas que compunham o caixão, o desalinho do piso onde ocorria o funeral, a pintura malfeita nas paredes e a fiação elétrica pendurada pelo centro da cerimônia. Coisas que teriam atraído a atenção do finado Seu João.
O tempo passou e, agora na loja com João Júnior, entabulamos conversas sobre tudo e todos. Saudades do pai e dificuldades econômicas. Ofereci a ele a oportunidade de pintar o escritório que estava reorganizando lá em casa. Serviço pequeno, por certo, mas uma chance de ele trabalhar, auferir uns trocados e tocar a vida.
Na segunda-feira, com uns quarenta minutos de atraso, João Júnior chegou todo arrumado, parecendo homem de festa. Foi se trocar, colocando um macacão azul-marinho tinindo de novo. Sem pincéis e sem panos de arremate, pediu-me tudo o que podia em termos de materiais. Acolhi o pedido e fui às compras. João Júnior começou a trabalhar e, por censura prévia contra meu próprio fôlego de comentar, afastei-me do ambiente e comuniquei que voltaria mais tarde.
À tardinha, voltei. Paredes com manchas, rodapés e rodatetos afrontados em seus limites, azulejos como que derretendo em tintas diversas, assoalho sujo e o macacão impecavelmente limpo. Panos de arremate ainda na sacola de compras, sem terem sido usados. Pincéis machucados e latas amassadas. Traços que deveriam apresentar-se retilíneos estavam enviesados pelas redes sociais e pelo uso costumaz do celular. O trabalho era um estorvo a qualquer olhar.
Meia hora antes do momento combinado para terminar a diária, João Júnior entrou na sala onde eu estava e me comunicou que deveria sair. Aquiesci com a cabeça, sem dizer palavra. Após alguns minutos, fui ao escritório e fiquei paralisado. Só meus olhos podiam se mexer; todos os meus membros ficaram com um medo atávico. As latas ficaram abertas, os pincéis dentro delas, o rolo de tinta ainda soluçando dentro da bandeja e os panos de arremate intocados dentro da sacola da loja.
João Júnior se fora para sempre após um chamado no celular. O serviço paralisado permitia contemplar as tintas abandonadas junto aos pincéis flácidos. Percebi que estava vivendo entre dois apuros: um de qualidade, outro de mediocridade.
A B R I L - 2026
José Santhiago
Instagram: @santhiago
O passado é uma mala
(20 de abril de 2026)
Quando o Doutor Suspensório chegou ao balcão do modesto hotel, à beira da estrada entre Major Felipe e Major Sales, limpou a testa pregueada e bateu nas calças suadas em sinal de cansaço e calor.
Queria um quarto com chuveirada boa, marmita quente e café coado, este, de preferência, feito no mesmo dia. O recepcionista balançou o palito entre os lábios, indicou o preço com a ponta do dedo sujo de graxa e aquietou a chave do quarto sobre o balcão. Falou alguma coisa que o hóspede não ouviu; não dava para ouvir, nem ele queria ouvir.
Foi-se escada acima, carregando sua mala pesada. No quarto, jogou-se sobre a cama de molas rangentes e espuma gasta. Era o que podia pagar.
A região é montanhosa, com escarpas e vista panorâmica do interior, distante da capital. Vive ali um povo simples, mais afeito ao trabalho que à contemplação dos problemas existenciais.
É também um local ermo, propício às fotos e memórias de aventura.
Doutor Suspensório já estivera por aquelas bandas em tempos não muito longínquos com sua mulher que, efusiva, havia pedido para que ele parasse o carro na estrada para respirar fundo o cheiro de vacas, cabritos e perrengues de uma mata queimada pelo sol e pelo abandono. Um desejo da mulher era uma ordem para Doutor Suspensório… e assim fora a vida toda em que estiveram juntos.
Às dezoito horas, a última nesga de raio solar soçobrou frente à escuridão e ao silêncio. A porta do quarto rangeu rouca e ele saiu com sua mala estufada de histórias. Acenou para o recepcionista e informou que ia dar uma volta pelas redondezas. Ligou o carro e sumiu na primeira curva sinuosa da estrada. Como a via estava muito escura, acendeu o farol alto e, lentamente, foi tateando o percurso para encontrar o exato local onde sua mulher, tempos atrás, pedira para parar. Encontrou.
Os olhos dele estavam marejados e seus pelos eriçados, num misto de medo e de remorso. Emoção explosiva saindo de todos os poros da pele.
Parou o carro, abriu a tampa traseira e retirou a mala. Depois, retirou uma lanterna e, na sequência: fios, pilhas, pequenas pedras, uma pá grande e uma pequena, alicate, triângulo de sinalização, cordas e uma alavanca.
Desceu uma ribanceira sob as luzes amareladas da lanterna, utilizando as cordas para si e para a mala. Encontrou um local entre duas grandes pedras, ajoelhou-se, rezou para Santa Teresinha e começou a cavar, ora com a pá grande, ora remexendo o solo com a pá pequena, como quem procura algo há muito escondido.
A cerca de noventa centímetros de profundidade, encontrou no fundo do buraco algo rochoso, aparentemente intransponível. Era hora de decidir o que fazer: continuar ou entregar-se ao cansaço.
Decidiu. Decidiu que a profundidade estava boa. Depositou a mala no fundo e passou a cobri-la com terra, pedras e cascalhos de toda ordem. Novamente o cansaço chegou ao seu peito; suor pelas entranhas, rusgas na testa e tristeza nos olhos enlameados.
Ao final, balançou as calças cheias de terra, passou a mão suja no rosto e começou a subir de volta ao carro, que continuava com as luzes piscando em sinal de alerta.
Retornou ao hotel. Tomou banho. Dormiu profundamente.
Pela manhã, café colonial com direito a bolo de tapioca e ovos caipiras mexidos. Passou o cartão de crédito e disse "Até mais!" para o recepcionista, que havia substituído na boca o palito por um lápis preto sebento.
Retornou à capital com a sensação de dever cumprido.
Realizara o último desejo de sua amada mulher: ser enterrada na serra.
Nayara Rosado
Instagram: @nayarafrotarosado
Onde está a garantia da felicidade?
(15 de abril de 2026)
Não há nenhuma garantia em viver. Estamos aqui para correr riscos. Para experimentar, pôr os conhecimentos em prática e crescer.
Construímos sonhos por uma vida toda, alimentamos e fortalecemos a ideia que seremos felizes ao realizá-los e, quando eles finalmente se concretizam, quase que instantaneamente, adotamos uma nova condição para sermos felizes. Pior ainda quando esses sonhos não vingam.
Então, temos a justificativa perfeita para um sentimento de infortúnio e não merecimento.
Por vezes nos acontecem fatos que nos desestabilizam, nos sacodem por dentro e causam uma dor quase insuportável.
Só resta uma saída honesta, engolir o ego, olhar a vida de frente, apoderar-se da vontade de crescer, desafiar os medos, superar os limites e continuar o processo da lapidação do próprio ser, sem nenhuma garantia de alcançar o objetivo final.
Parece impossível pensar em felicidade nesta hora, mas o improvável surge. Em meio à dor, a consciência floresce e nos torna mais humanos e mais cientes do nosso lugar na terra.
Claro que a vida tem mais brilho se expressamos nossos sentimentos para quem amamos, se estamos presentes nos momentos simples que aquecem nossos corações, se reconhecemos os pequenos gestos de carinho do outro e se nos permitimos ser inteiros em cada passo da grande jornada da alma.
Essa consciência que podemos formar é a felicidade autárquica da qual falava Aristóteles, aquela genuína, que transborda do coração que ama e que nos inunda quando não criamos condições ou dependências para ela.
A felicidade vai surgir devagar, profunda, intensa, fazendo parte do nosso íntimo como uma conquista irrefutável do nosso próprio crescimento interior e nos mostrando que é por essa razão que vale a pena garantir viver.
M A R Ç O - 2026
Elikah França
Instagram: @elikah
Sobre entender ou se fazer entender
(31 de março de 2026)
Tudo começou assim:
__Bom dia! Amora está?
__Não, ela foi para Floração. Respondeu ela com muita segurança.
__O que significa? Perguntei, sem entender o que significava ela ter ido para Floração. Seria uma comissão? Uma reunião? Talvez uma nova direção da qual nunca ouvira falar? Alguma coisa não me foi comunicada? Aguardei!
__Ah! Ela agora tem que ir coletar flores para a estação que está por vir.
__Significa que ela não está aqui no estabelecimento?
__Sim!
__E quando ela volta? Tentei obter alguma informação mínima e satisfatória.
__Um momento! A atendente me pediu que aguardasse entuanto fazia perguntas a uma outra pessoa, próxima dela e desconhecida de mim.
A resposta veio: __Ela volta na próxima semana.
Desliguei o telefone e não pude deixar de pensar naquela conversa estranha. Realmente, está cada vez mais difícil se comunicar. Esperava, naquele diálogo, que as respostas me atendessem e fluíssem sem que eu precisasse questionar a cada vez. Talvez a maneira como eu dialogo esteja meio fora de moda.
Não sei se é o uso da tecnologia que está tirando das pessoas a capacidade de analisar um contexto e levar a informação precisa.
Ela não emburrece as pessoas, mas é usada como desculpa para dizer que as pessoas precisam aprender a buscar o conhecimento.
E a direção, para onde vai?
Ler só por ler, sem ter objetivo a alcançar não me parece levar a nenhum lugar.
Vivemos tempos em que aprender é para poucos, afinal, porque dedicar tanto tempo a leituras se a inteligência artificial traz tudo prontinho?
Coloque duas pessoas com diferentes níveis de conhecimento para pesquisar um mesmo assunto. Teremos respostas iguais? Nunca! Porque a construção do contexto em que se dá o conhecimento faz toda a diferença.
Talvez, em outra situação, em outro contexto a resposta para a pergunta inicial seria: Bom dia, Amora não se encontra no momento, ela viajou e só deve voltar na próxima semana. Ela está participando da Floração recolhendo flores para a próxima estação. E, quem sabe, fecharia dizendo: quer deixar algum recado?
Saudades do tempo em que as pessoas se preocupavam com a boa comunicação.
José Santhiago
Instagram: @santhiago
As viagens de Belina
(10 de março de 2026)
Era o ano de 1985, e não podíamos comprar um carro novo, que seria o melhor dos mundos. Teríamos que nos contentar com um usado, seminovo, velho de uns dois anos. Daí que conseguimos comprar em parcelas a Belina Ford, creme-clara, de 1983. Cromada nas portas e rodas. Capô manchado de sol. Alguns amassados e muitos arranhões pela lataria. Volante coberto por uma imitação de couro de qualidade inferior.
"Franco, você comprou esse carro?” Respondi à Mecha com um suspiro de conquista misturado ao medo do desapontamento. Ela vinha economizando trocados para comprar um carro novo e, antecipando o investimento, endividei-me por conta própria na compra da Belina. Afinal, estava um pechincha. Preço convidativo para quem não tinha apego ao valor da gasolina. Além do preço baixo, havia meu desejo de realizar um sonho.
Poucos meses após a compra da Belina, João Eduardo nasceu. E, a partir daí, tudo mudou.
Pela manhã, casa - creche - trabalho - trânsito - almoço - feira - trabalho - creche - trânsito e mais trânsito nas ruas apertadas do Rio de Janeiro. Em alguns bairros, o metrô recém inaugurado em poucas estações dava um fôlego ao tráfego acima dos túneis, mas em geral a cidade parecia um inferno de calor, com cheiro de pneus queimados, gasolina e carburantes misturado ao barulho de buzinas e xingamentos em nada bem educados.
Quando João Eduardo chegou à idade para frequentar a escolinha, novos desafios foram adicionados à Belina. Diariamente, à noite, trabalho - escolinha - trânsito - casa - faculdade - trânsito e retorno pra casa lá pelas onze da noite.
E Belina testemunhou o rodízio de protagonismos em seu interior. No início, eu me colocava na sua direção. Ao meu lado, Mecha com suas reclamações e alternativas de rotas sempre mais longas do que meros atalhos. João Eduardo contido na cadeirinha na poltrona de trás.
Mecha faleceu quando João Eduardo completou treze anos. Ela teve a oportunidade de aproveitar a convivência das inúmeras caronas que dei aos amigos dele, que enchiam a parte traseira da Belina com cores, algazarras e risos contidos frente às revistas de mulheres bonitas.
Aos poucos, as rotinas foram sendo alteradas na medida mesma em que a vida foi nos colocando novos desafios e horizontes.
João Eduardo já não se contentava mais em andar na poltrona de trás do carro. Assumiu com destreza o lugar da mãe na cadeira do carona na parte da frente do veículo. Aprendeu rapidamente a manusear alavancas e pedais e, cedo, obteve a carteira de motorista. Belina ainda continuava a ser guiada por mim, pelo menos na maioria das vezes em que ela saia de casa. Algumas vezes, eu permitia João Eduardo a aventurar-se na direção para encontrar amigos e paqueras.
Da janela do quarto, assisti muitas vezes à saída de Belina com João Eduardo à procura de emoções de um homem jovem cheio de expectativas. Entendi que aquela era a ordem natural das coisas.
Certa vez, fui convidado por João Eduardo a acompanhá-lo a um jantar com sua noiva. Todos faziam questão da minha presença. Fui, só que dessa vez sentei-me na poltrona de trás na Belina. João e a moça é que determinaram o destino e o caminho.
A partir disso, sempre que convidado, meu cantinho na parte traseira já estava garantido. Quando nasceu Dudu, meu neto, passei a ter companhia certeira para os passeios. João Eduardo tornou-se o guia oficial de Belina, sempre pareado por sua esposa.
Dudu completou 15 anos na mesma semana em que sua mãe morreu. Ainda todos estão tristes pela tragédia, mas Dudu assumiu seu lugar na cadeira do carona na frente de Belina e voltei a ficar só na sua traseira. Solidão e tristeza. E a vida continuou.
Hoje, Belina não saiu da garagem. Estamos em casa, somente eu e ela. João Eduardo comprou um novo carro com o salário aumentado que recebeu da sua repartição. Ele tornou-se empregado público bem depois que Mecha faleceu. Era sonho dela que João tivesse estabilidade financeira. Infelizmente, ela não pode presenciar sua façanha.
A mãe de Dudu, minha nora, adorava Belina pois lembrava do seu próprio pai que havia sido proprietário de um carro parecido, só que azul celeste. Para ela, Belina era o testemunho da memória paterna andando pelas ruas.
Hoje, da minha janela assisto ao movimento de pessoas apressadas nas ruas. Carros e mais carros passam vibrando as paredes e os sons se misturam.
Também vejo os faróis de Belina, no canto da garagem, que parecem entristecidos como de alguém que foi esquecido.
Pasme, Belina! Eu não a esqueci. Apenas sei que ficamos velhos.
Elikah França
Instagram: @elikah
Senhor Universo, por favor, faça a sua parte!
- (08 de março de 2026)
Passamos a vida esperando o amanhã chegar para fazermos o que os mais velhos fazem.
E eis que, quando chega a nossa vez, o mundo mudou. Já não se fazem as coisas como antes; tudo o que aprendemos parece não nos servir mais.
É como o envelhecer: tiraram-nos o direito de sermos velhinhos frágeis. Agora que chegou a nossa vez, o ritmo de vida é outro! É trabalho, casa, filhos, academia, corrida, bicicleta, dança... E a agenda, que esteve cheia a vida toda, continua lotada.
Eu pensava que me aposentaria e poderia, ao menos, escolher a hora de acordar; decidir quando ir à academia; ter tempo para leitura, um cafezinho com os amigos ou um curso aqui e outro acolá. Mas tudo isso surge para preencher uma agenda já saturada, inclusive com o trabalho.
Não nos querem aposentadas!
Aquela vovozinha que fazia bolinhos, cuidava do jardim e preparava comidinhas gostosas ficou no passado.
Minha mãe é uma avó que cozinha bem, faz academia, aposentou-se e detém as rédeas da própria vida. É o patamar mais próximo do que almejo... quem sabe virar nômade e conhecer lugares diferentes sem precisar esperar pelas férias? Provar sabores e sentir aromas nunca experimentados antes. Fazer um curso de algo banal, apenas para socializar e aprender coisas novas. Ficar à toa! São apenas sonhos que levo sempre comigo.
Dizem que vem por aí uma nova reforma que alterará as regras da aposentadoria... Só falta acontecer quando faltarem poucos dias para a minha vez!
Estou fazendo a minha parte: preparando-me para mudar de vida e realizar desejos que ficaram guardados.
Agora que sigo com paciência, por favor, Senhor Universo, faça a sua parte!
Kleber Sousa
Instagram: @klebernatal
Cada um com sua jornada - (06 de março de 2026)
Esses dias tenho refletido sobre a jornada da vida humana. Em meio à rotina, às obrigações e aos planos que fazemos para o futuro, às vezes esquecemos de observar com mais atenção o caminho que estamos percorrendo.
No universo conhecido, os seres vivos são sustentados por uma energia que mantém a vida pulsando em cada organismo. Entre todos eles, porém, o ser humano possui algo singular: a consciência e a capacidade de refletir sobre a própria existência. Vivendo em sociedade, desenvolvemos sentimentos, criamos laços e construímos relações que dão sentido à nossa caminhada. Ainda assim, a vida em sociedade continua sendo um fenômeno complexo, cheio de nuances difíceis de explicar completamente.
Quando pensamos na nossa chegada a este mundo e na nossa despedida dele, percebemos dois momentos profundamente marcantes para aqueles que nos cercam. No nascimento, quase sempre há alegria, abraços e expectativas. A família comemora, sonha e projeta para aquela nova vida um futuro repleto de possibilidades. Pais, parentes e amigos se aproximam para celebrar o crescimento da família e acolher aquele que acaba de chegar.
Já no momento do fim da jornada terrena, o cenário é diferente. O silêncio costuma substituir os festejos, e os encontros passam a ser marcados pela saudade e pela solidariedade. Amigos e familiares se aproximam para oferecer conforto, apoio e palavras de consolo àqueles que enfrentam a dor da perda.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: o que realmente importa durante o intervalo entre esses dois momentos? Talvez a resposta esteja na maneira como percorremos esse caminho. A vida nos apresenta desafios, batalhas e escolhas constantes. No entanto, o verdadeiro tesouro pode estar em chegar ao final da jornada com a consciência tranquila, sabendo que fizemos o melhor que podíamos e que, de alguma forma, ajudamos a tornar o mundo um pouco mais justo, mais humano e mais iluminado pelo amor.
F E V E R E I R O - 2026
José Santhiago
Instagram: @santhiago
O poder do bom argumento - (28 de fevereiro de 2026)
Quando cheguei ao reino, nada conhecia sobre as coisas da política e da burocracia que sustentava os nobiliários títulos.
As portas da muralha estavam meio abertas aos visitantes e cidadãos. Em cima das cercas instaladas sobre os passadiços do muro de contenção, multidões de bandeiras, flâmulas de faixas escritas balançavam ao vento daquela manhã quente de março.
Frases brancas em bandeiras vermelhas propagavam o slogan vigente no reino: “Democracia e transparência - todo o poder emana do povo”.
Interessava-me obter uma certidão que declarasse que minhas obrigações fiscais estavam todas quitadas, para que eu pudesse continuar operando meu pequeno comércio de venda de cachaça na cidade onde morava. Era este meu objetivo do dia. Obter uma certidão demonstrando minha lisura com minhas obrigações para com o reino.
Cheguei à Casa Forte, nome carinhoso dado pelos cidadãos ao palácio governamental, onde todas as questões de Estado e de governo eram fantasiosamente decididas, antes da chancela final do príncipe, recém resgatado da prisão pelos seus pares, amigos e amigos dos amigos, todos de artimanha.
Cheguei à porta da Supervisão de Assuntos Diversos (SAD). Fui orientado a preencher um formulário de requisição. Feito. Dirigi-me à Supervisão de Recebimento de Pedidos Diversos (SRPD). Carimbado meu pedido, fui direcionado ao Departamento de Averiguação de Pedidos (DAP). Lá preenchi outro formulário indicando que eu era eu mesmo. Entreguei o documento no Setor de Entrega de Identificação de Requerentes (SEIR). Aguardei na fila, pois muitos desconhecidos estavam esperando pela senha prometida horas antes. Finalmente, a senha foi distribuída pelo Setor de Distribuição de Senhas para Pedidos Diversos (SDSPD).
Chegou a hora do almoço e o prédio pareceu esvaziar-se como uma bolsa de sangue que se esgota pelo corpo do donatário.
Na rua ao lado da Casa Forte surgira há anos um pequeno comércio de lanches e pequenas refeições, cujos donos trabalhavam como funcionários do palácio. Coincidência interessante pois atendia ao mesmo tempo os gostos dos clientes e as necessidades dos vendedores. Foi lá que encontrei meu pequeno lanche de carne moída de procedência duvidosa com pão do dia anterior.
Reabertos os portões de acesso, a multidão de requerentes adentrou o vestíbulo do palácio com grande alvoroço. Dentre a turba havia interessados legítimos e outros nem tanto, alguns despachantes e pessoas bastante curiosas.
Corri pelo corredor da Divisão de Requerimentos de Pedidos Feitos Anteriormente (DRPFA). Consegui protocolar o formulário recém preenchido a tempo. Ufa! No corredor contíguo entrei na fila para obter a senha para ser atendido pela Divisão de Recebimento de Pedidos (DRP). Fui prontamente atendido pela funcionária que se dispôs, simpática e imperturbável, a levantar os olhos do celular para encarar minha necessidade. Logo após, ela voltou a focar na tela do seu dispositivo.
Resolvido o trâmite inicial, subi ao andar superior para aguardar a chamada pela tela do computador com meu número de atendimento.
Após três quartos de hora, recebi o número de atendimento. Fui à Divisão de Notas de Declarações Diversas (DNDD) e aguardei ser chamado. Felizmente, sempre tenho comigo uma pequena garrafa de água, na qual às vezes escondo café quente. Nesta tarde, a garrafa companheira não me deixou na mão. Esgotei o líquido preto preciso, mas não quente como desejei que estivesse.
Após a chamada, conferência do meu número e apresentação de documentos, fui chamado a identificar-me com novos documentos. Por segurança e por medo das dúvidas, carrego comigo minha pasta documental. Abri e tirei de lá um volumoso arsenal de comprovantes.
Após identificar-me, aguardei ser recebido pelo Supervisor de Assuntos Pendentes de Registros (SAPR). O educado senhor de aspecto imperial me informou que as senhas haviam se esgotado pela manhã. Eu deveria retornar em outro dia após o devido agendamento através do aplicativo “volte outro dia”, disponibilizado por meio de um QueErreCode localizado no portão de saída do prédio, local aliás para onde eu deveria me dirigir, já que estavam esgotadas as chances de resolver minha questão naquela ocasião.
Resignei-me, calado por fora (e raivoso por dentro!), frente à presença ostensiva em todo o prédio do palácio da força militar mobilizado para garantir a boa ordem do andamento dos trabalhos públicos. Afinal, é para isso que servem os militares: garantir a ordem das coisas.
Voltei ao meu pequeno negócio de cachaça, retirei do local as placas que o identificavam e comecei a vender sem registro do comércio. A comunidade, mesmo pobre e inculta, entendeu meu desengano e, num misto de afeto e gosto pelo mais barato, continuou comprando comigo a bebida destilada que faz saltar os olhos.
Apesar dos convincentes argumentos do Ministro das Coisas Não Efetivamente Realizadas (MCNER), que explicou o porquê da importância de eu quitar a despesa com a emissão da Declaração de que Não Havia Conseguido Obter a Declação Pretendida (DNHCODP), pelos quais me fez ver que o imposto por tal declaração ajudaria a consolidar a democracia, permitiria aumentar a arrecadação para destinação de fundos aos partidos que me representavam e, finalmente, pelo fato de que parte de tão necessária contribuição permitiria diminuir as desigualdades sociais, além (é claro!) ajudar a manter o farto profissionalismo dos servidores do próprio Palácio do Governo do Reino (PGR), resolvi colocar a Guia de Recolhimento da Unificação (GRU) dentro de um envelope ensebado e o joguei no porão das memórias que desejava esquecer.
A visita ao palácio Casa Forte me ensinou que sou apenas um pequeno peixe em um oceano de tubarões sedentos por gratificações e benesses do reino, cujo príncipe ainda se mantém bastante popular.
Nayara Rosado
Dentista, amante das artes. Escritora de textos técnicos e coautora em livros de Odontologia. Iniciando a incursão pela Literatura com um primeiro livro de biografia livre.
Instagram: @nayarafrotarosado
Identidade humana: uma reflexão filosófica. - (24 de fevereiro de 2026)
Cada vez que agarramos a coragem de pausar em meio ao caos apressado de nossas vidas nos surpreendemos com a pergunta inevitável do nosso íntimo:
Quem sou eu?
Imaginei um exercício que consistia em abrir uma caixa antiga, daquelas que guardamos fotos, um cachinho de cabelo amarrado com fita de cetim, um dente de leite incrustado em uma argola de ouro, um ingresso do primeiro espetáculo de ópera assistido, uma embalagem de chocolate, uma rosa seca, uma velha poesia escrita sob a emoção de um momento especial. Revirando a caixa cada objeto traduz uma história, um sentimento distinto e deixa transparecer o que somos em nossa essência. O que faz sentido no percurso da vida, o que traz lágrimas aos olhos.
Uma a uma as lembranças desfilam e emocionam. O que guardamos naquela caixa é o que realmente toca o nosso coração e o que nos conecta com nós mesmos, quando a rotina teima em nos fazer esquecer.
E para que saber quem somos de verdade?
Qual a nossa identidade?
Uma imagem me veio à mente: o que seria de um cidadão sem um documento de identidade? Como ele se sentiria parte de um País ou de uma sociedade sem possuir a prova de quem ele é? Que sentimento invadiria sua mente? Existiria pertencimento? Os direitos lhe seriam negados por não ter um registro oficial?
Então porque não nos esforçamos por conhecer-nos, verdadeira e profundamente?
Porque nos preocupamos mais com a nossa aceitação perante os outros?
Copiamos personalidades que julgamos mais atrativas ou interessantes, tentando imitar gestos, opiniões, gostos ou forma física para sermos aceitos ou amados pela nossa comunidade. Por sua vez, esses indivíduos também não são autênticos, sendo assim nos afastamos indefectivelmente de nossa genuína personalidade.
A identidade não é a forma pela qual somos vistos pelos outros. É, tão somente, o que somos quando ninguém nos vê.
Não somos a profissão que escolhemos, a nacionalidade, a religião ou o a ideologia que adotamos. Porque não viemos a esse mundo somente para fazer coisas ou obter rótulos, viemos para nos tornarmos conscientes de nossa natureza e expandir o pensamento a partir da reflexão, tornando-nos livres de estereótipos e permitindo que a nossa identidade não seja instável e dependente de emoções, status, cargos ou posições dentro da sociedade
Viemos construir nossa obra-prima que é reconhecer-nos como seres humanos.
Deveria ser nossa meta investigar, especular, vasculhar nos recônditos mais remotos e obscuros de nós mesmos, como um experiente arqueólogo pincelando os vestígios materiais de uma sociedade humana, através do tempo. Perceber variáveis de nós mesmos, estudar quais verdades não abriremos mão nos momentos mais desafiadores. Saber o que nos completa e o que pode transbordar de nós, reconhecendo a nossa alma, simplesmente sendo o que precisamos ser – Humanos. Como o sol que ilumina simplesmente porque ele é sol e não porque precisa aquecer a terra ou fazer germinar as plantas ou fazer surgir o dia, mas tudo isso vem em consequência de ele simplesmente exercer sua essência de ser SOL.
Todos os dias temos a oportunidade de refletir e encontrar aspectos desconhecidos da nossa personalidade. Observar nossas atitudes, emoções e pensamentos e nos indignarmos com algumas reações, dominar impulsos primitivos ou reconhecer os avanços em busca das virtudes que deveriam nos guiar.
Se continuarmos o exercício de imaginação e nos colocarmos em uma situação onde tudo nos fosse tirado: propriedades, cargos, status, imagem social, família; o que restaria? Eis a reflexão que se exige.
Porque o importante é o que continuamos a ser quando o mundo muda.
Parece-me extraordinário poder estabelecer, nessa jornada, passos assertivos na construção do ser humano que almejamos, para que não atravessemos essa história sem saber ao certo o que viemos fazer aqui, o que nos conecta com a inteligência divina, o que nos faz sentir a unidade com a natureza, com o cosmos. É surpreendente descobrir que somos um pedacinho de Deus que tem influência sobre todos à nossa volta e com muitos outros mais além, que nem chegamos a conhecer, num efeito geométrico que se propaga em bondade por toda a humanidade. Talvez, nada haja de mais espetacular do que se descobrir uno com nossos iguais e sentir o amor pulsando em nós.
A Aurora da sabedoria - (24 de fevereiro de 2026)
Como continuação à sala de estar onde moro há um espaço chamado de "salinha", um interregno entre os cômodos. A salinha é de tamanho considerável (apesar do nome) o que me permite desposar de uma mesa generosa, onde cabem gostosamente seis pessoas estudando ou comendo à vontade.
Na salinha há uma mesa de pedra preta polida que espelha em sua superfície tudo o que passa pelos demais cômodos da casa.
Como gosto de humanizar tudo ao meu redor, a mesa recebeu o nome de Aurora, pois encostando meus cotovelos sobre ela todas as manhãs recebo os insights para minhas reflexões de vida.
Aurora tem sido companheira de muitos anos e para todas as horas, tanto nas comemorações quanto nas dificuldades. Mais que tudo, Aurora tem sido confidente.
Dificilmente deixo Aurora sozinha na salinha. Raramente libero a mesa das suas obrigações. Há sempre sobre ela um livro, ou dois ou dez, cercados de papeis, utensílios e coisas testemunhais.
Aurora não é uma mesa de primeira mão. Calma! Vou explicar. Antes, passara por vários donos, que, talvez, tenham lhe dado mais valor do que agora ela recebe, já que a mantenho sempre ocupada com meus afazeres. Mas uma coisa é certa. Aurora, ao meu lado, viu inúmeras vidas se desenrolarem sobre suas diversas superfícies de granito, as quais refletiam os pontos prateados dos fulcros terrestres.
Aurora tem sido cúmplice de muita vida que passou.
Recentemente fui a um funeral, com cerimônia e enterro. Tristeza familiar ao redor de uma pessoa muito querida. Ocasião de reencontros em momento não desejado. E, ao voltar para casa, Aurora me recebeu de "braços e pernas abertos" com seu tampo preto lustroso. Ela está sempre a postos para uma debruçada. Sobre ela larguei meus braços com carinho e toquei cada fiapo de memória do que algum dia esteve debaixo de uma montanha de pedras.
Polida, ela recebeu minhas confidências e orações para a pessoa que partiu. Aurora sabe que nem as pedras são para sempre.
Já no dia seguinte, pela manhã, pus meu café com torradas sobre Aurora que aqueceu o fundo da minha alma.
Aurora continua na salinha, de dia, à noite e pelas madrugadas esperando que eu compartilhe com ela o gosto do café, reminiscências cordiais, memórias não tão afáveis e algumas emoções escondidas.
Apesar da pedra bruta de sua constituição original, Aurora é doce na sua simplicidade de mesa de jantar e de viver.
J A N E I R O - 2026
Box de posturas - (31 de janeiro de 2026)
A caixa de biscoitos era de metal. Sua cor creme era vintage, não por escolha do artista, mas pela ação do tempo. A caixa ficara guardada por longos anos, até o dia em que se decidiu por um uso inesperado: guardar joias.
Alguns pequenos pontos de ferrugem indicavam que a caixa tinha uma história. Era útil para vários propósitos; contudo, agora seria unicamente a guardiã de lantejoulas, miçangas, brincos de pedrinhas, contas e muitos brilhos. Algumas contas de pedra, águas-marinhas e também berloques enfeitavam com sua presença o fundo da lata.
Todo dia, pela manhã, olhando o céu pela janela, ela sentia o ímpeto de escolher a melhor combinação entre suas joias. Em geral, as pedras eram escolhidas pela facilidade em combiná-las com roupas e adereços. Antes, havia toda uma seleção ritualística de como se comportar perante o dia; afinal, os outros mereciam a melhor versão dela mesma.
Naquela manhã, o céu estava azul-claro e as nuvens pareciam sorrir. Ela, então, decidiu usar azul-marinho. Buscou uma saia, mas não a encontrou. Encontrou uma calça do tipo "escritório", em um azul-marinho profundo. Para combinar, a sandália deveria aproveitar a cor. Encontrou. Realmente, ela havia comprado recentemente uma sandália azul-marinho com detalhes em marrom-claro. Era um misto de águas profundas com a lembrança de chão de terra batida.
A combinação exigia um cinto bastante fino, talvez apostando em um tom de cor próximo: um cinto marrom-claro sustentado por uma grossa fivela dourada.
Ela lembrou-se de que uma calça azul-marinho pede um contraponto na blusa. Sua escolha recaiu sobre uma branca com destaques em pérola. A cor pérola ajudaria a realçar o ouro da fivela. Escolhida a blusa, com botões de marfim, faltava a escolha dos brincos. Os dourados eram os melhores; compunham mosaicos de minúsculas pedrinhas vermelhas, quase imperceptíveis.
Vinda da rua, a algazarra de vozes e buzinas lembrou-a de que enfrentaria o trajeto público até seu destino de forma destemida. Para isso, demonstrando parcimônia, escolheu brincos que imitavam gotas, mantendo-os em equilíbrio em ambas as orelhas, formando uma harmonia completa entre rosto e corpo.
Ela já estava quase pronta para mais um dia de trabalho. Faltava um detalhe.
A tampa da caixa de metal abriu-se novamente. Suas mãos começaram a tatear o fundo do compartimento. Qual colar usar? Qual colar melhor imporia respeito ao seu busto? Miçangas baratas não combinavam com o dourado do cinto e o luxo dos brincos. O branco-pérola da blusa, por sua vez, exigia um colar de presença, tanto na aparência quanto no custo.
Ela acabou escolhendo o colar de pedras composto por uma paleta que ia do verde bem claro ao marrom bem terroso, passando por uma infinidade de tonalidades que ora lembravam o barro, ora a areia, ora o lodo. Este colar fazia jus a qualquer arquiteto, pois combinava com todo o conjunto da obra, como se fosse um lindo telhado sobre uma casa nova.
Balançou seus cabelos cacheados sobre os ombros, empinou o peito, respirou fundo e apertou ambas as mãos. Dava a si mesma um grande abraço. Iria enfrentar o mundo.
Naquela manhã, as portas do mundo se abriram frente à sua elegância e equilíbrio. Era uma mulher em harmonia, pronta para enfrentar todos os desafios. O dia estava apenas começando. Era mais um dia normal na vida de uma mulher real.
Tigon Maior e Tigon Menor - (25 de janeiro de 2026)
No meio do oceano está o arquipélago de Tigon, que parece um colar de pérolas em um semicírculo quase perfeito, cujas ilhas variam em tamanho, flora, fauna e história. A maior chama-se Tigon Maior; a menor, Tigon Menor. No maior pedaço de terra, funcionam um porto turístico, hotéis e uma pequena vila de casas e apartamentos. Alguns chalés foram recentemente construídos por uma empresa internacional de hospedagem.
Em Tigon Menor, há apenas uma vila de pescadores que vivem em tendas cujos tetos são feitos de palha de palmeiras e coqueiros. Nas demais ilhas, veem-se apenas pequenas choupanas onde os pescadores, às vezes cansados da labuta, às vezes à procura de amor, descansam entre uma jornada e outra sob o sol causticante.
Em Tigon Maior, seguindo a orientação da empresa que realiza o transporte entre o continente e o arquipélago, estabeleceu-se um condomínio de proprietários. Eles elegem periodicamente um gestor para organizar a arrecadação de fundos e realizar as melhorias necessárias. Junto a esse gestor, é eleito um conselho de moradores para fiscalizar o trabalho do representante. Somente em casos criminais é que o Gestor, o Conselho ou qualquer morador solicita a atuação das autoridades do continente. No mais, tudo é administrado pelo pessoal da ilha portuária.
Já na vila de pescadores de Tigon Menor, sobrevive a tradição do poder familiar: a família mais antiga a chegar à ilha exerce autoridade sobre todas as demais. Há poucos meses, Tigon Maior inaugurou uma escola e as vagas foram disponibilizadas para todas as crianças do arquipélago. Tigon Menor, contudo, permitiu apenas que os meninos ingressassem. As meninas foram deixadas de fora: "Já têm muito o que fazer em casa para ajudar suas mães a cuidar das coisas", afirmou Toran, o líder da vila.
Toran fora criado entre anciãos que já desapareceram e teve acesso às narrativas e condutas que mantinham todos unidos frente à adversidade. Dedicou muito tempo e abdicou de muitas noites de sono para decorar tradições, costumes, mitos, poemas e provérbios dos antigos líderes. "Se com eles tudo deu certo, por que mexer nos costumes?"
Taita sempre admirou o pai pelo esforço em declamar versos antigos, tanto para não esquecê-los quanto para alegrar as crianças em torno da fogueira. Mas Taita tinha ouvido os relatos dos meninos que voltavam da escola e ficou curiosa com tamanhas novidades: máquinas que voavam, caixas de luz que transportavam mensagens ao redor do mundo, espelhos que gravavam imagens e uma tal de matemática, que facilitava entender como montar alavancas para extrair água do subsolo. Tais inovações eram desconhecidas por Toran.
"Pai, quero ir para a escola. Quero conhecer o que os meninos estão aprendendo. Quero sair de Tigon Menor". Toran ficou surpreso com o pedido inusitado. Apresentou o argumento que mais ouvira dos anciãos sobre o peso de abandonar as raízes:
"Como deixá-la partir se você não valoriza o modo como conheço o mundo? Já pensou em quanto nós e os anciãos nos esforçamos para que esta vila sobrevivesse e se tornasse nosso lar? Pensou no tempo que gastamos para manter nosso estilo de vida? Você realmente acredita que é possível viver em paz após descartar todo o nosso conhecimento acumulado?"
"Tenho que ir", respondeu ela. "Você e os anciãos têm medo de traírem-se a si mesmos. Eu não tenho esse medo; quero construir minha própria história".
Januário e o Doutor Sabatina - (23 de janeiro de 2026)
Toda chuva trazia medo. Enchentes não eram novidade por aquelas bandas do interior barrento. Januário dedicava-se a uma rotina ferrenha; uma ação metódica. Da lama à mata, incessantemente, ele ia e vinha. Ia e vinha. Na toada ritmada pelo barulho dos bichos da floresta, ia e vinha.
Ele pôde observar quando grandes caminhões chegaram perto do riacho e, deles, desceram homens vestidos de amarelo-atenção. Capacetes encravados na cabeça, pás nos ombros, lanternas e aparelhos de medição. Um deles, falando alto, logo se identificou aos demais trabalhadores: "Sou o Doutor Sabatina e estou aqui para orientar o trabalho de construção da represa".
Pensar em construir uma represa em um rio lamacento, sob chuva intensa, é trabalho para poucos destemidos ou para sonolentos com bafo de café matinal. Apesar do apelo dos demais companheiros, Januário não queria perder tempo ouvindo conversas de estranhos e continuava indo e vindo: da lama à mata e vice-versa. Fazia seu trabalho sem esperar qualquer tipo de reconhecimento. Alguns até davam uma "mãozinha" a Januário, mas o trabalho dele tinha que ser pessoal e intransferível; do contrário, o resultado não seria seu. Januário queria ser dono exclusivo da sua "represa".
Sabatina emitia ordens para todos os lados e os homens obedeciam milimetricamente, como se seus músculos estivessem programados. As máquinas roncavam seus motores e manipulavam a terra em quantidade nunca vista por Januário e seus colegas. Em pouco tempo, a represa de Sabatina estava pronta, fazendo o rio serenar em um de seus lados, enquanto, no outro, o paredão de terra batida criava um lago de águas turvas e mata despedaçada. Ao final do dia, o doutor e seus homens foram embora. As máquinas ficaram; seriam retiradas nos dias seguintes, a depender da intensidade das chuvas.
A pequena obra de Januário continuava progredindo: a passos lentos, é verdade! Mesmo na madrugada, a minúscula represa continuava a ser erguida, como se brotasse do fundo do rio, agora com águas mais brandas. No dia seguinte, ainda pela manhã, a chuva amainou e Januário pôde apresentar seu feito aos seus colegas. Todos aplaudiram. A contenção de parte de um braço do rio estava concluída; não impedia o fluxo da água, mas era o bastante para controlar o seu uso recreativo, pois era ali que Januário e seus companheiros poderiam se banhar enquanto comiam algumas pinhas.
Ao entardecer, a névoa da mata esfriou o ambiente. Havia umidade no ar e o soluço de alguns trovões longínquos. Bem longe, na cabeceira do rio, aconteceu uma tromba d'água, o suficiente para dissipar qualquer dúvida de que a noite seria longa. A água e sua força não encontram barreiras; uma pororoca inusitada e noturna, cruzando as águas do céu com as da lama.
Ainda apreciando os prazeres da poça, Januário e seus companheiros começaram a ouvir barulhos. Primeiro, roncos abafados. Depois, estalidos, crepitações e estrondos. Algo acontecia no meio da mata, e bem próximo. De sua posição, Januário pôde assistir à imensidão de água chegando pelo rio, carregando tudo o que conseguia: gravetos, galhos, árvores e encostas inteiras. Bem ao seu lado passou o turbilhão de destruição. Acertou em cheio as máquinas que estavam ao redor da represa de Sabatina. O estrondo multiplicou-se em um barulho infernal. As máquinas foram engolfadas de uma só vez.
Assim como chegou, repentinamente, partiu a tromba d'água verde-escura.
No dia seguinte, o Doutor Sabatina não acreditava no que via perante seus pés cheios de lama e detritos. Sua represa se fora junto com o fluxo das águas revoltadas com a contenção. Ao lado, surpreso e abismado, pôde contemplar a pequena barreira intacta feita pelo castor Januário. Admitiu, em seu pensamento mais íntimo, que ainda teria muito a aprender com a natureza.
Santina e seu Bosque - (15 de janeiro de 2026)
Já havia notado que aquela menina se comportava de modo estranho nos intervalos entre as aulas da manhã. Sempre só, ela caminhava de um lado ao outro do quintal que ficava atrás do prédio onde se encontravam as salas de aula do ensino médio. Era uma escola pública, com muita algazarra e pouca limpeza; havia mato e algumas árvores no terreno, além de um muro calcinado pelo sol e prejudicado pela falta de manutenção. Mas aquela menina estava sempre limpa da cabeça aos pés, calçando sapatos pretos brilhantes.
Aproximei-me até onde pude, já que as rodas da minha cadeira não podiam mais avançar devido à falta de piso cimentado. Havia um caminho do corredor principal até o quintal, mas apenas um terço dele estava pavimentado. O restante era composto por entulho e metralha, a base do lamaçal que em breve surgiria com o período das chuvas.
Perto o bastante, pude perguntar o seu nome. "Santina", respondeu. Próximo a uma árvore velha e desengonçada, vi o vulto de um homem corpulento agachado na moita. Era o Seu Bosk. Gritei um cumprimento e ele, mostrando um sorriso escondido pelo bigode grisalho, respondeu: "Olá, menino!".
Santina andava de um lado ao outro. Parava perto da velha árvore e a abraçava. Dizia alguma coisa que eu não conseguia ouvir ou decifrar, e então voltava a caminhar. E assim, durante todo o intervalo, a menina ia e vinha, abraçando o tronco grosseiro daquela planta antiga.
A cigarra eletrônica da escola tocou tão alto que alarmou toda a multidão no pátio: alunos, professores e funcionários. Ajeitei-me para dar meia-volta no que restara da estreita calçada; já estava acostumado àquela manobra rápida. Ainda pude ver Seu Bosk caminhar em direção à Santina, que parecia ter dificuldade em se afastar da árvore.
Primeiro, o seu tronco se afastou do tronco da árvore; depois, lentamente, suas mãos se soltaram. Ela olhou para mim com tristeza e, com a mão apoiada na mão grossa de Seu Bosk, veio em minha direção. Parei. Quando estavam bem próximos, perguntei: "Tudo bem?". O homem assentiu com a cabeça. Santina evitou meu olhar.
Operar a geringonça da minha cadeira fazia com que, na maioria das vezes, eu fosse o último a deixar o pátio. Naquele dia, porém, foi diferente: restáramos nós três. Concordei, com um curto olhar, em ceder a vez. Seu Bosk subiu primeiro com Santina a rampa de acesso às salas de aula. Aguardei o meu momento.
Quando o homem retornou para me ajudar com o maquinário, perguntei, com um pouco de curiosidade e um tanto de empatia pela menina estranha: "O que houve com a Santina?".
"Ela está triste. A árvore confidenciou a ela que sente falta das folhas que estão caindo. A árvore, mesmo velha, não se acostumou a perder suas folhas para o mundo."
Retruquei, sob a ótica dos meus óculos embaçados: "E qual árvore não sente dó das folhas que perde?".
Dois jovens na manhã de suas vidas - (11 de janeiro de 2026)
Não pude deixar de prestar atenção à conversa entre dois jovens que estavam lanchando à mesa ao meu lado. O barulho do shopping, misturado à música das lojas, servia como fundo sonoro para o diálogo entre dois homens, um de 18 anos e outro com 81.
"Zaratustra indicou que a sabedoria não pode ser dada a todos, pois somente um oceano poderia acolher um rio imundo sem se tornar impuro", disse o jovem, que foi prontamente retrucado por seu interlocutor: "O homem é, para mim, uma coisa demasiado imperfeita".
Pela conversa afiada, pude perceber como o passado era imaginado de maneiras diferentes para justificar aquele momento. Enquanto o menos experiente buscava na lembrança dos livros os argumentos para prever o futuro, o outro, mais vivido, apresentava causos da existência para criar futuros possíveis.
Um tanto de filosofia e história se mesclava em frases de efeito colhidas das redes sociais — uma miscelânea de ensinamentos e citações. Não pude deixar de contemplar o argumento de que a ignorância, na maioria das vezes, é benéfica, pois o ignorante pode gozar de uma felicidade inatingível ao homem curioso e sedento de conhecimento.
As expectativas de ambos para o futuro passaram a ser o destaque da conversa, pois os falantes já tinham aceitado que não concordavam em muita coisa quanto à leitura do passado e do presente. Talvez o futuro permitisse algum consenso. Mas, como sabemos, é difícil projetar o porvir: ele ainda não existe e, sendo assim, como é possível ler aquilo que está por vir?
Os dois homens tentaram e chegaram a um acordo: o futuro, para eles, seria o imaginado a partir das experiências distintas que tiveram até então.
De um lado, o jovem vislumbrou um mundo caótico, apocalíptico, desumanizado e quase robotizado, com pessoas andando pelas ruas como zumbis, vestidas com a mesma roupa inteiriça branca e colada ao corpo. Todas de óculos escuros e tampões nas orelhas. Carneiros do futuro.
O mais velho viu um amanhã florido, com toalhas quadriculadas sobre mesas de refeições fartas, homens e mulheres correndo por trilhas em matas cheirosas. Atrás, inúmeros jovens e crianças em algazarra. No centro da mata, em uma clareira, bancos de madeira maciça aguardavam os festejos. Música podia ser ouvida à distância. Choros de bebês chegavam de todos os cantos.
O barulho do shopping aumentou muito devido à mudança de horário. Mais gente, ávida por compras, acorria aos corredores. Cada vez eu escutava menos os dois homens. Em certo ponto, já não os ouvia mais. Desprendi-me daquele interesse e fui também às compras, atrás da oportunidade de adquirir uma toalha quadriculada ou florida.
Girassóis antevendo o futuro - (8 de janeiro de 2026)
Cruzamento urbano, ruas de intenso movimento; meu pé parou na primeira faixa branca. Queria atravessar, mas o corpo não obedecia. Meus olhos fixaram-se na mulher do outro lado da rua. Alta, óculos escuros impenetráveis, paletó laranja repleto de girassóis, gesticulava e falava alto. Não conseguia ouvir; teria que me aproximar.
Ela, de braços levantados, apontava para o alto, para o espaço, dedo em riste. Falava alto palavras não reconhecidas. Aproximando-me, escutei (ou tentei!). Observei. Era o que me cabia fazer.
"Uma bola de cristal não dá credibilidade às cartomantes. O mundo não é só regido por mudanças positivas. As negativas também se combinam. Ambas são exercícios que nos forçam a confrontar as nossas crenças mais profundas. Os céus não estão lá!"
Comecei, enfim, a compreender palavras, depois frases, e consegui captar o sentido de algumas orações.
"Se eu pudesse ver para além do futuro próximo, eu mudaria minhas escolhas no presente. Quando o tempo avançar para o distante milhão de anos e a humanidade for dominada por uma nova espécie, o que restará? De tudo isso aqui, o que sobreviverá?"
O ruído da rua era intenso, tal qual minha curiosidade para continuar ouvindo a mulher elegante, de calça branca de enfermagem e sapato roto. "O futuro é um convite irrecusável. Defina as mudanças que anseia para a sua vida e comece a escrever o futuro que você deseja ver."
De repente, os olhos da mulher arregalaram-se e sua cabeça baixou, como se as suas pilhas tivessem falhado. Ela aquietou-se. E, subitamente, sua cabeça rodou para o lado e seu corpo se pôs a marchar pela faixa de pedestres. Atravessou a rua e sumiu.
Sentei-me junto ao balcão do café na esquina. Pedi um expresso duplo. Ajeitei o lenço no bolso traseiro da calça jeans sem marca e, falando ao atendente, pedi um palito. Instalado em meu novo ponto de observação, não pude deixar de agradecer aos céus por aquele encontro inusitado: girassóis antevendo o futuro!
Amante possessivo e destruidor de livros - (6 de janeiro de 2026)
Mantenho uma relação especial com meus livros. Não vejo cara, só coração!
Como amante possessivo, nem imagino um livro meu na mão de outro. Somente a mim cabe o direito de manusear suas páginas ou recitar suas orações. Acaricio frequentemente capas, lombadas e aceito brincar com os marcadores de página. O olhar sempre pousado sobre o livro, já lido ou ainda por desbravar. Mas sempre é um olhar de controle possessivo.
Por isso, o livro tem que estar sempre à vista, à vista de modo imediato. Assim, não permito que meu cérebro esqueça do livro. Levo o companheiro ao café, às necessidades, à mesa do almoço ou do jantar, à cabeceira e à poltrana do carona no carro.
Levo o livro. Ando com ele. Passeio, caminho, vivo.
Como todo andarilho, nas pausas, respiro, descanso e sonho. Também nessas paradas pelo caminho aproveito para ler uns 10 minutos, ao dia pelo menos. E, misturada à caminhada, vou criando um ritmo. O ritmo da leitura se condensa nas pisadas sucessivas.
Lembra das gotas pequenas de chuva que pela manhã transformam cada calçada em um espelho do céu? Pois é! Lendo aos pouquinhos e diariamente vou construindo um espelho gigante na alma.
Como o hábito é diário, o livro deixa de ser distante e passa a ser companheiro e confidente. Você sabe que ele estará sempre do seu lado.
Toda relação de amor comporta um pouquinho de ódio ou distanciamento. Às vezes, enjoo e pouca querência distanciam-me de um determinado livro. Possessivo, sim! Esclusivo, não!
Abraço a experiência de outro livro, sempre mantendo os olhos no anterior. Há épocas em que o rodízio se dá entre textos longos e curtos, em outras épocas vario entre comédias e dramas. Otimistas versus cantilenas de queixumes. Épicos versus policialescos. Tudo bem! Variar é sempre bom.
Como bom amante, pratico os rituais da leitura. Sento à mesa ou finco as espaldas nos travesseiros. Pode ser pela manhã, logo após o almoço ou no final das contas. De fato, ou pela manhã, tarde ou noite. Mas, principalmente, sempre diariamente. É rotina de leitura tomada ao pé da letra, da página, da capa e do título.
Mas, todo amor incondicional deixa sequelas e as minhas já são bem conhecidas: frases riscadas com lapiseira número 2, trechos inteiros tintados com marca-texto amarelo ou laranja, quinas de páginas viradas porque esqueci o marcador de páginas, lombadas destruidas ou pelo suor ou pela força bruta da dobradura das mãos.
Claro que me pergunto se sou destrutivo. Respondo a mim mesmo que sim. Afinal, os livros não passam por mim indeléveis. Ficam marcados para sempre pela minha vivência.
Por isso, ao final de cada leitura, faço perguntas ao livro de modo a comprometê-lo com a próxima visita aos meus olhos. Compromisso que cumpro e do qual exijo cumplicidade.
José Santhiago
Advogado, Historiador e Pós em Jornalismo Digital. Autor do livro "Caminhada contra o câncer". Assistente em Comunicação Integrada. Instagram: @santhiago
Quero escrever melhor minhas memórias! - (4 de janeiro de 2026)
O passado não está morto: ele aguarda uma folha em branco e a sua caneta.
O passado não é apenas um conjunto de memórias empoeiradas. Ele é um território vasto, cheio de possibilidades narrativas à espera de quem se disponha a explorá-lo. É nele que se encontram as raízes de quem somos e, muitas vezes, as chaves para histórias profundas e personagens complexos. Diante de tantas escolhas, tempos e arrependimentos, surge a pergunta inevitável: como navegar por essa imensidão?
A resposta costuma estar nas perguntas certas.
Se você é alguém que deseja escrever (pode ser ficção pura, memórias, biografias ou qualquer texto) tente viajar no temo. Crie trajetórias, invente personagens, visite o passado, busque fontes interessantes. Você perceberá como é praticamente inesgotável a inspiração que vai ajudá-lo.
Há muito o que conhecer do passado, tanto que ele moldou a história e você sabe disso!. Encare os momentos de “glória” que, paradoxalmente, ainda nos mantêm presos ao que já passou. Afinal, o passado ainda está presente.
A verdadeira magia da escrita está na capacidade de confrontar a essência do tempo: não apenas o que aconteceu, mas o modo como esses acontecimentos nos transformaram. O que mudaria se o seu “eu” atual pudesse enviar uma mensagem ao passado? Como isso alteraria o presente? E, mais importante, o que fazemos hoje para evitar que os mesmos erros se repitam?
Às vezes penso (ou sonho!) como seria se eu pudesse voltar ao passado, não um passado qualquer, mas voltar a um momento específico. Qual seria a data? O que me levaria a escolher uma determinada data ou situação? Curiosidade de historiador ou vontade de mudar algum acontecimento? Quem sabe participar de algum evento importante ou até vivenciar certas experiências? É um dilema e tanto.
Ao mesmo tempo, narro. Isso mesmo, narro! E nas narrativas vamos construindo o passado ao nosso bel prazer. Ou você pensou que a História do historiador não pode ser inventada?
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